Ana Maria Cemin – 28/08/2026
De 9 a 16 de junho deste ano, Eduardo Zeferino Englert, 45 anos, pode retornar para casa após uma longa temporada de 27 meses consecutivos na Penitenciária Estadual de Santa Maria, RS. O juiz da comarca havia determinado sua progressão ao regime semiaberto e a transferência para o Presídio Regional, localizado no perímetro urbano, onde ele deveria reorganizar sua vida: trabalhar durante o dia nos negócios da família e dormir no presídio, a apenas cinco minutos do centro. Um sonho para uma família que vive as perseguições do 8 de janeiro.
Porém, Eduardo e os seus familiares mal tiveram tempo de comemorar o aniversário do preso político que tinha feito aniversário no dia 8 de junho. No retorno ao presídio para iniciar o semiaberto, em 16 de junho, Eduardo recebeu a notícia de que o ministro Alexandre de Moraes havia determinado a sua volta ao regime fechado, novamente na penitenciária da zona rural. Um retrocesso difícil de compreender, se o juiz já tinha confirmado o seu direito ao semiaberto. Depois de poucos dias em casa, Eduardo volta à estaca zero.
Quanto ao juiz que havia concedido o semiaberto, não citamos o nome, mas ele foi transferido de comarca. Uma nova juíza assumiu rem seu lugar e constatou que Eduardo realmente tem direito ao regime semiaberto. Então ela organizou toda a documentação necessária para auxiliar o apenado.
Agora, a decisão está nas mãos de Moraes. Ele manterá Eduardo no regime fechado?
O problema é mais grave do que parece, porque também afeta a direção da Penitenciária Estadual de Santa Maria. Se Eduardo tem direito ao semiaberto, mantê-lo no regime fechado significa contrariar a lei e assumir um enorme compromisso sobre a integridade física dele. Em outras palavras, essa falha do sistema coloca a direção em uma posição delicada.
É a cobra comendo o próprio rabo. O sistema entrando em colapso.
Quem conta essa situação de Eduardo é a sua própria mãe, Zenira, de 75 anos, que o visita praticamente todos os finais de semana no presídio localizado na zona rural de Santa Maria, onde se encontra preso desde o dia 15 de junho de 2024. Deste o 8 de janeiro de 2023 até hoje, Eduardo só esteve fora do presídio por 10 meses, quando usou tornozeleira eletrônica e sofreu sérias restrições de liberdade.
A história de vida de Eduardo, e o que aconteceu para ele ser preso e condenado, ele mesmo me contou antes de ser recolhido novamente. Recomendo a leitura: https://bureaucom.com.br/policia-conduziu-patriotas-para-dentro-dos-predios/
FIQUEM COM A VOZ DA DONA ZENIRA:
“Desde que o meu filho foi levado para o presídio, em junho de 2024, ele ficou primeiro na área da cozinha, trabalhando, e depois foi para a lavanderia. Quando chegaram máquinas novas para secagem, enormes, ninguém sabia operar. Ele logo aprendeu. Eduardo é muito esperto, pegou o jeito rápido e já começou a trabalhar.”
Eduardo está isolado, Zenira? Como ele está?
“Não, ele está junto com os presos que trabalham como ele. Não ficou com o pessoal das galerias. Ficou na frente, perto dos guardas. Mais recentemente, deixaram ele circular mais dentro da estrutura da penitenciária, porque também estão preocupados: ele já deveria ter saído. A situação processual dele veio oficialmente e está comprovado o direito à progressão de regime desde o dia 22 de janeiro de 2026. Então ele já poderia estar em casa. A progressão de regime significa que ele poderia dormir em casa ou dormir num presídio aqui na cidade de Santa Maria e vir para casa durante o dia, dependendo do trabalho que ele fosse fazer.”
E o que está atrasando a saída do Eduardo, Zenira?
“É o ministro Alexandre de Moraes que não deixa sair. Teve uma semana em que o juiz daqui de Santa Maria liberou ele. Eu até disse: ‘Agora ele vai ficar sete dias em casa e depois volta para um presídio estadual aqui perto, onde dormiria à noite e viria para casa de dia.’ Mas mandaram recolher ele de volta e até agora não liberam.
E como ficou o emocional dele?
“Ele está triste por continuar preso em regime fechado, por não poder sair como já tinha sido definido pelo juiz da comarca de Santa Maria, por não poder vir para casa. Ele diz: ‘Eu queria ir para casa, terminar minha faculdade, trabalhar, estar junto de vocês.’ E eu digo: ‘O que vamos fazer?’”
E quando ele saiu, para onde foi transferido?
“Ele foi para um presídio aqui perto, o Presídio Regional de Santa Maria, onde ficam os apenados que entram na progressão de regime. Era para ele ficar ali uns dois meses, vir para casa de dia e dormir lá. Estávamos esperando isso. Mas de repente veio o aviso de que ele tinha voltado para o presídio anterior, o Presídio Estadual de Santa Maria. Voltou para lá e está lá até agora, sem esperança nenhuma. Não sei o que vai acontecer.”
E a defesa do Eduardo?
“O advogado manda tudo para Brasília, mas acredita que nem olham. As datas estavam erradas, documentos faltando. A juíza daqui foi ao presídio, ele conseguiu falar com ela e pediu para ela olhar o processo dele. Ela corrigiu tudo e mandou para Brasília. Agora veio tudo certinho, confirmando que ele deveria estar na progressão desde o dia 22 de janeiro deste ano.”
E a juíza, qual o nome dela?
“A doutora Luiza. Ela já saiu daqui. O primeiro juiz que deu a progressão do Eduardo foi transferido logo em seguida. Depois veio essa juíza que organizou e mandou os papéis dele para Brasília.”
Quantos dias ele ficou em casa?
“Ele ficou sete dias em casa no mês de junho. Era para vir na sexta, antes do aniversário dele, no dia 8 de junho, mas acabou vindo no dia 9. Ficou sete dias e voltou. Depois recolheram ele de novo.”
A Polícia Federal bateu na casa de vocês?
“Não. Ele já tinha voltado para lá (presídio na cidade). Ele ficou sete dias em casa e voltou para o presídio para eles avaliarem o trabalho que ele faria no regime semiaberto. O pessoal do presídio viria aqui para ver o serviço dele, porque ele poderia trabalhar em casa, na nossa ferragem ou no nosso mercado. Depois desse acerto, ele começaria a rotina de trabalhar de dia e dormir no presídio perto de casa.”
E não existe nenhuma perspectiva do semiaberto, Zenira?
“Não. O advogado não dá nenhuma esperança.”
E você o vê regulamente?
“Eu visito todos os sábados, menos um sábado por mês, que é o sábado das crianças, quando só os pais que têm filhos pequenos podem entrar. Nos outros sábados eu vou sempre. Até hoje não faltei nenhum sábado que eu podia ir.”
E os filhos dele?
“O mais velho trabalha no mercado, é responsável pelo mercado, está sempre ali. O mais novo trabalha na ferragem. Eles estão desempenhando muito bem, são uma bênção. Eles visitam o pai.”
E como você está, Zenira?
“Apesar de toda a dor, eu estou em paz. Eu vou lá, e ele me dá muita força. Ele diz: ‘Mãe, não te preocupa por causa de mim. Eu consigo me virar aqui. Tenho saudade, quero ir para casa, terminar minha faculdade, trabalhar, estar com vocês. Mas eu consigo sobreviver aqui. Você não pode adoecer, tem que ficar bem.’ Ele me dá uma força enorme. Se ele estivesse mal, eu não sei o que seria de mim.
E ele mesmo diz: ‘Mãe, você tem que vir. Se você não vem, eu fico mal.’ Eu vou cedo, às seis da manhã, pego o carro, fico lá na frente para pegar os primeiros lugares. Às nove a gente entra, e eu só saio às quatro da tarde. Temos bastante tempo para conversar.
A gente fica na cela. Ele divide a cela com mais dois, muito caprichosos. Eles lavam tudo, limpam tudo. Como ele trabalha na lavanderia, pega roupa de cama e roupa dos outros, leva para lavar e traz tudo dobradinha e sequinha. A cela deles é a melhor do presídio, porque eles são muito caprichosos. Quando eu vou lá, ainda passam cheirinho, deixam tudo arrumado. Eu dou risada. Ele sempre me pede amaciante de roupa, para deixar a cela cheirosa.
A gente o quer em casa. Manter uma criatura presa assim… credo. Ele sempre gostou de se atualizar, estava sempre estudando, pesquisando na internet. Agora, com essa história de inteligência artificial, ele estava começando a se inteirar. Eu estou sempre estudando, fazendo cursos, me atualizando, para levar as coisas para ele, para contar tudo o que está acontecendo.
O serviço de sublimação dele eu não parei. Continuo fazendo, para manter vivo o negócio para quando ele sair. As canecas principalmente, que são mais fáceis. Quando ele ia sair, eu pensei: ‘Vou comprar uma máquina laser para ele ter mais trabalho quando voltar.’ Ele sempre quis comprar. Aí disse: ‘Pai, acho que não vou poder comprar agora. Quando vou poder comprar?’ Eu pensei: ‘Eu vou comprar.’ Comprei a máquina, e até agora ele não veio. Então comecei a aprender e fazer as coisas na laser. Já tenho uma noção, para ensinar para ele depois.”

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