Ana Maria Cemin – 27/08/2026
A trajetória de Sirlene Souza Zanotti, 54 anos, atravessa muros, fronteiras e silêncios institucionais. Em 22 de agosto, publicamos com exclusividade a sua carta, um documento visceral, escrito dentro da Colônia Penal de Ezeiza, Argentina. Na carta, Sirlene revelou o colapso físico e emocional de uma mulher que, apesar de estar legalmente no país, vivia como se não existisse. Agora, quatro dias depois, anunciamos em primeira mão: a Justiça argentina determinou sua soltura em regime domiciliar.
“Sirlene va a salir con domiciliaria. Ya está aprobado por la justicia. Solo faltan los trámites de rigor”, informou na noite de 26 de agosto o advogado argentino Pedro Gradin, que acompanha o caso.
A carta enviada por Sirlene, e publicada em 22 de agosto, é um documento que não deveria existir em um sistema penal que se pretende civilizado. Ela descreve, com precisão e dor, o que viveu desde 28 de fevereiro, quando sofreu uma desidratação tão severa que desmaiou na lavanderia da unidade prisional. Era sábado. Não havia médicos.
O que se seguiu foram quatro dias de delírios, confusão mental, perda de coordenação motora e ausência total de assistência adequada. Só depois que outra detenta escreveu uma denúncia contra o centro médico, Sirlene recebeu o primeiro atendimento.
Mas atendimento não representou tratamento. Ela não recebeu soro. Não recebeu reposição de vitaminas. Não recebeu acompanhamento médico contínuo. Recebeu apenas uma consulta apressada com uma psicóloga que, segundo ela, “olhava o relógio”. Desde então, sua saúde entrou em colapso: dores incapacitantes, perda de coordenação, falhas motoras, crises digestivas e um relato que assusta pela profundidade:
“Meu corpo me diz que já não tenho mais emoções, sejam elas positivas ou negativas.”
🟥 UMA CIDADÃ INVISÍVEL
Sirlene não era clandestina. Entrou legalmente na Argentina, solicitou documentação e possui DNI há mais de dois anos. Tinha pedido de asilo formulado. Mesmo assim, dentro do sistema penal, tornou-se invisível.
Tentou escrever ao juiz responsável por seu caso, o magistrado Daniel Rafecas, mas não conseguiu enviar a carta. Tentou pedir exames básicos, mas não foi ouvida. Tentou sobreviver, mas o Estado falhou. O que sua carta revela é mais do que negligência: é violência institucional.
“Peço, por misericórdia, a gentileza de me autorizar um check-up de saúde fora do Penal 7 de Ezeiza”, escreveu Sirlene. Era um pedido simples. Era um pedido básico. Era um pedido humano.
Na noite de 26 de agosto, após dias de mobilização, Sirlene será solta do presídio. Cumprirá prisão domiciliar, que representa o impedimento de sair de casa. A decisão já está aprovada. Faltam apenas os trâmites burocráticos. Para uma mulher que passou meses sem acesso ao mínimo, essa decisão representa a chance de recuperar a saúde, a dignidade e a própria vida. A luta pela liberdade, no entanto, está longe de chegar ao fim.
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