Ana Maria Cemin – 26/05/2026
O agricultor de Capinópolis, MG, Fábio Barra, 51 anos, sentiu-se no compromisso de participar da manifestação em Brasília no início de janeiro de 2023. Ele queria expressar a sua opinião junto com milhares de brasileiros. Ao chegar na Praça dos Três Poderes, ele fez um vídeo de poucos segundos que acabou sendo usado contra ele. “Somos bem-vistos aqui na região, até porque promovemos ações sociais em prol das pessoas mais carentes, inclusive com entrega de cestas básicas. E somos, infelizmente, vizinhos de um deputado federal da esquerda, e ele achava que o Fábio tinha pretensão política e fez uma denúncia do vídeo”, conta a esposa, Tatiane Barra, 47 anos.
“Aí, quando foi no dia 19/04/2023, a Federal veio aqui prender o meu marido, na nossa casa. O Supremo bloqueou todos os nossos bens, que é pouca coisa, mas é nosso. Até o carro dele, para andar, ficou bloqueado. E ele foi preso. Fábio ficou 98 dias no presídio de Uberlândia, de segurança máxima. Cumpriu essa pena sem ter sido julgado. Na época, ele já fazia tratamento cardíaco, fazia tratamento com neurologista porque tem um problema sério de apneia do sono. Também já tomava remédio para pressão e controlava a labirintite. Como ele tinha tratamento regular com neuropsiquiatra e, no presídio, ficou impedido de continuar, a defesa conseguiu que ele ficasse em liberdade provisória até o julgamento, usando tornozeleira eletrônica e cumprindo uma série de exigências do Supremo para que pudesse voltar para casa depois de mais três meses preso em 2023”, relata a esposa.

Ficou três anos usando tornozeleira eletrônica. Nunca descumpriu uma medida, nunca saiu do perímetro autorizado e nunca deixou de cumprir os horários. Todas as segundas-feiras assinava presença no fórum.
Quando foi dia 19/05/2026, sem que ninguém soubesse, perto das 20 horas, a Polícia Federal chegou à casa de Barra para prendê-lo novamente. Ele havia sido condenado, no final de 2025, a 14 anos de prisão, além do pagamento de multas.
“De dezembro para cá, desde que foi condenado, ele ficou emocionalmente muito doente. Entrou num pânico muito grande, porque imagina: você ser preso, ficar 98 dias num presídio junto com aquele pessoal perigoso e ter que voltar para cumprir 14 anos. Ele entrou numa depressão, quase não saía de casa nos últimos meses. Eu tive que tomar a frente dos negócios. Tive que ser, infelizmente, a mulher e o homem da casa (pausa para se recompor do choro preso na garganta). Isso me pesou muito, sabe? Mas eu fazia por ele. Ele é uma pessoa maravilhosa, todo mundo gosta do Fábio aqui na cidade. Você não tem noção! É evangélico, é pastor, arrecadava cestas básicas para dar às pessoas que passam fome, sempre ajudou os outros”, relata Tatiane, muito emocionada.

A esposa conta que o grau de debilitação do marido está muito alto. É um homem que precisa estar constantemente acompanhado. “Tenho medo de ele dar fim na própria vida. Não que ele queira morrer, mas ele adoeceu. Eu entendo”, desabafa.
Para avaliar o impacto do que aconteceu com Fábio por ele estar na Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro, é preciso entender quem ele é e o que o Estado brasileiro fez com ele depois disso.
Sua vida sempre foi na roça. Seu trabalho é na agricultura, especificamente na Fazenda Baixada, onde nasceu. O pai era arrendatário da fazenda, mas, com sua morte, Fábio assumiu o contrato de arrendamento e os cuidados com a família que constituiu, além da mãe e das irmãs.


Com o trabalho de sol a sol, o casal Fábio e Tatiane conseguiu comprar, em parcelas, o que chamavam de “uma terrinha”, mas, com o 8 de janeiro, descontinuaram a compra para cumprir outras obrigações que vieram com a prisão e com a falta de crédito bancário decorrente das perseguições do Estado. O dinheiro que tinham no banco o Supremo bloqueou, assim como tudo que está no nome de Fábio.
“Voltamos à estaca zero, e ele doente ainda por cima. O pior de tudo foi ele adoecer”, relata a esposa. A maior preocupação de Tati Barra, como é conhecida, é o abandono do tratamento de saúde. Em casa era possível acompanhar e controlar a medicação do marido. Os muitos laudos juntados ao processo mostram a fragilidade de Barra, inclusive problemas cardíacos graves.

“Minha preocupação é que aconteça algo com ele no presídio, sabe? Eu não tenho paz. Acabou a nossa vida. Ele é uma pessoa maravilhosa. Ele não quebrou nada. Inclusive, ele estava na Praça dos Três Poderes no dia, mas na audiência nós conseguimos provar que ele não estava quando depredaram os prédios. Ele nem entrou! Nem mesmo foi ao QG, porque estava num hotel junto com os amigos. Às 13 horas, quando o pessoal estava descendo do QG para a praça, Fábio estava no Madero comendo um sanduíche. Ao saber que o pessoal descia, ele e os amigos também foram até a praça. Ele é incapaz de quebrar. Ele não entrou em nenhum prédio. Não entrou! Ele foi preso só por causa do vídeo. Ele estava aqui dentro de casa, depois das 19 horas da noite, e até os policiais que chegaram pediram licença e falaram: ‘Fábio, infelizmente temos que te levar.’ Até os policiais gostam dele, porque a cidade é pequena, todo mundo se conhece”, diz, emocionada.



Tati Barra relata o quanto tudo isso abateu o marido. Depois da condenação era preciso muita conversa para tirar ele da cama e superar o desânimo. “Lhe foi receitado um remédio para dar ânimo e isso me deixa com dó dele, porque somos casados há 30 anos e eu sempre estive ao lado de um homem batalhador, cheio de vida. Agora ele está totalmente abatido, depende de remédios para dormir e para se manter acordado com algum ânimo. É só olhar para as suas mãos calejadas para saber quem ele é. Sempre contribuiu para o Brasil, com a sociedade. Temos funcionários. Na nossa correria para dar conta de tudo, Fábio não tinha tempo para sentar num bar nem para beber um refrigerante, porque o coitado nunca teve tempo. Era da casa para o serviço, do serviço para a casa. Agora está no presídio para cumprir 14 anos de prisão por opinião. Isso dói demais.”
“E depois do dia 8 de janeiro, quando ele voltou e começaram a bloquear os bens, ele falou para mim: ‘Tati, eu vou ser preso.’ Eu falei: ‘Não, não vai, não.’ Ele respondeu: ‘Vou. Eu tenho certeza de que vou.’ E a polícia veio e levou ele em 2023.
Ele começou a adoecer nessa época, antes mesmo de ser preso. Tinha pânico à noite, resistia ao tratamento. Começou a passar mal. Um dia ele desmaiou nos meus braços. Depois começou a ter muitas incontinências. No dia em que a polícia veio prender, ele assustou demais e o intestino dele soltou. Você acredita que o policial teve que entrar dentro do banheiro com ele, porque não deixavam ele sozinho?

Em 2023, ele foi levado daqui para uma cidade a 170 km. E ele foi com aquilo na cabeça: que dentro da cadeia todo mundo era petista e iam matar ele. Chegou ao ponto de não sair para o banho de sol por receio. E quando saiu do presídio em liberdade provisória, usando tornozeleira, ele saiu bem diferente, ao ponto de eu ter que tomar a frente aqui em casa. Ele não dava conta de negociar. E cobrador cobrando, dívida chegando, oficial de justiça… Em 30 anos que eu sou casada com o Fábio, nunca tinha batido na nossa porta alguém para entregar intimação. E agora vivemos isso!
Quando você não tem o hábito de conviver com isso e passa a conviver, dói demais. O oficial de justiça na sua porta, oficial para ir buscar o seu implemento agrícola… Chegou num ponto em que o Fábio adoeceu, perdeu as forças. Ele se entregou.
O dinheiro que tínhamos no banco não pode ser mexido, nem para pagar a dívida com o próprio banco. Então o Fábio viu as colheitadeiras dele irem embora porque o banco buscou. É uma vergonha para a gente. Aos poucos ele foi se sentindo uma pessoa incapaz.

Fábio hoje é dependente de remédios para dormir. Ele só dorme com Rivotril. De manhã ele acorda e tem que tomar remédio. E às vezes, quando ele saía, tinha que voltar para casa porque sentia medo de tudo. Precisa ainda tomar remédio para o coração, remédio para pressão. Então acabou a vida dele. Sinto que, no fundo, o Fábio tem receio de eu abandoná-lo. Só que eu nunca, na minha vida, vou fazer isso. Nunca, nunca, nunca! Eu cuido dele. O que precisar fazer, eu vou fazer por ele. Eu o amo.
Nesses últimos tempos tem sido difícil lidar. Ele acorda às 10h30 por causa da medicação, dava uma voltinha e voltava para dormir de novo. Então a vida dele tem sido isso depois do 8 de janeiro. É uma pessoa que perdeu a saúde mental. Por quê? Como que pode? De repente você está no topo, aí você cai, perde tudo, perde o nome. A gente não pode financiar nada, não pode comprar nada porque deve ao Banco do Brasil, Sicoob, Caixa. Então, se o dinheiro ficou preso, como é que você vai pagar? E o banco não perdoa, não. Ele vem pegando tudo o que você tiver.

A minha mãe nos ajuda muito, porque ela tem a aposentadoria dela. E os amigos ajudam a comprar os insumos para a gente pelo menos rodar. Nós temos amigos que ajudam, dão assistência na roça também. Tem meu filho, tem um primo nosso que está com a gente há muitos anos. Todos pegam firme com a esperança de que o Fábio melhore e volte para dirigir os nossos negócios.
A nossa vida está assim há quase três anos e meio. Quando a gente pensa que pode melhorar, a polícia vem e leva o Fábio de novo. Eu não imagino como ele está com essa recaída que ele teve, porque ele está lá sem todo mundo. Fiz de tudo para passar a medicação dele à polícia, só que o medicamento fica lá com ele. Já teve dia em que ele tomou 30 gotas de Rivotril e eu chegar em casa e encontrar ele dopado. Eu me preocupo com ele preso, dele estar com esse remédio na mão. Porque a tristeza na alma dele é muito grande. Nossa! Ele era um cara muito diferente antes do 8 de janeiro.
Tem hora que eu olho ele dormindo e peço: ‘Meu Deus, devolve o nosso Fábio.’ Eu sei que não é porque ele quer. Eu falo: ‘Fábio, Deus tem um plano na sua vida. Você ajuda tantas pessoas, você aconselha, você fala… luta contra isso.’ Falo para ele: ‘Você está passando por isso para amanhã ou depois ajudar outras pessoas que dependem de você.’

E ele ama a igreja. Ele era pastor na Assembleia de Deus, mas há três anos não é mais pastor. Ele nem pode ir mais à igreja. E nem vai. E a primeira coisa que ele pediu para levar para ele no presídio foi a Bíblia dele, porque lá pelo menos a Bíblia ele consegue ler. Ele se converteu com 14 anos. Quando ele tinha 22 anos e eu, 17, casamos. A nossa vida é para servir, viver para a igreja, para cuidar dos jovens, dos adolescentes, das pessoas que precisam da gente.
Um dos nossos trabalhos sociais é servir um café colonial aos carentes na igreja. Mesmo sem termos condição, eu saio pedindo doações. As pessoas da comunidade, ou quem quiser ir lá tomar o nosso café colonial, pode.
A gente serve sopa, temos um bazar com roupas que a gente recolhe, lava e põe para doar para a comunidade. Também entregamos cestas básicas. São doações de pessoas que acreditam no nosso trabalho.
Em média, ajudamos entre 30 e 40 crianças na igreja, mas vamos além com o trabalho externo, com as famílias.


Eu tenho um trabalho que a gente chama de ‘Uber de Jesus, levando você para o céu’. Eu pego as crianças em casa, os idosos que não podem caminhar, e os levo para a igreja. Tem muitas crianças cujos pais nem evangélicos são, e deixam os filhos vir. Já colhemos frutos desse trabalho, pois temos jovens que hoje trabalham em empresa, que estavam condenados a ir para a rua, a sofrer. Viraram a chave, mudaram, estão na sociedade. A gente conseguiu reintegrar eles. Então os pais aqui de Capinópolis ficam satisfeitos com esse trabalho que o Fábio Barra, principalmente, faz.”

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