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PRESA DO 8.01 SAI DA PRISÃO NOS EUA

Ana Maria Cemin – 20/10/2026

Uma notícia recebida nesta semana trouxe esperança para familiares e amigos de Michely Paiva Alves, 39 anos, empresária de Limeira, SP, e a última das quatro brasileiras ligadas aos processos do 8 de janeiro que permanecia detida em território americano. Segundo informações obtidas pela reportagem, nessa semana Michely deixou a custódia do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e agora está hospedada na residência de um tio nos Estados Unidos. Na foto da matéria, Michely (cabelo longo) está com Simone Tosato, também uma presa política exilada, na comemoração do aniversário de Simone na Argentina em 2024, quando as duas já tinham saído do Brasil.

A novidade representa uma mudança significativa na situação da brasileira, que permaneceu presa desde sua chegada ao país no início de 2025, quando solicitou asilo político após atravessar a fronteira do México para os Estados Unidos, e se entregar para as autoridades daquele país.

O ICE  é o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos, órgão responsável pela fiscalização das leis migratórias e pela custódia de estrangeiros que aguardam decisões relacionadas à permanência no país. Desde sua chegada, Michely estava sob responsabilidade desse órgão.

A entrada de Michely nos EUA ocorreu justamente quando o presidente Donald Trump voltava ao poder e restabelecia uma política migratória mais rígida. Em janeiro de 2025, nos primeiros dias de seu novo mandato, foram anunciadas medidas que restringiram o acesso ao asilo e ampliaram o controle na fronteira entre México e Estados Unidos, tornando ainda mais difícil a situação dos estrangeiros que buscavam proteção em território americano.

Embora a liberação da brasileira nesse mês de outubro não represente a concessão automática de asilo, o fato de ela ter deixado o centro de detenção e passado a residir junto a familiares é visto como um acontecimento extremamente positivo. Entre pessoas próximas, cresce a expectativa de que o seu pedido possa receber um tratamento diferente daquele dado às demais brasileiras que buscaram proteção em solo americano e foram deportadas.

A última das quatro

O caso de Michely ganhou ainda mais relevância porque ela se tornou a última integrante do grupo de quatro brasileiras que buscaram refúgio nos Estados Unidos após os desdobramentos judiciais relacionados ao 8 de janeiro.

Entre elas está Cristiane da Silva, de Balneário Camboriú, SC; Rosana Maciel Gomes, de Goiânia, GO; Raquel de Souza Lopes, de Joinville, SC; e a própria Michely. Raquel e Rosana seguem presas no Brasil, cumprindo em regime fechado.

As quatro percorreram uma longa rota migratória após deixarem a América do Sul. Buscavam nos Estados Unidos a possibilidade de reconstruir as suas vidas longe dos processos e condenações relacionados aos acontecimentos de Brasília.

Com o passar dos meses, porém, os caminhos do grupo se separaram. As demais brasileiras acabaram retornando ao Brasil deportadas, enquanto Michely permaneceu sob custódia das autoridades migratórias americanas. Agora, ao deixar o ICE, torna-se a única das quatro com perspectivas concretas de continuidade do pedido de proteção migratória.

A acusação de “financiadora do golpe”

No Brasil, Michely Paiva Alves responde à Ação Penal 1352 no Supremo Tribunal Federal. Diferentemente de diversos outros acusados pelos fatos de 8 de janeiro, ela ainda não foi julgada nem condenada.

A empresária responde a acusações que envolvem cinco crimes, entre eles organização criminosa armada, pelo simples fato de ter contratado um ônibus que levou moradores de Limeira a Brasília para participar das manifestações na capital federal, sendo que em Limeira as manifestações sempre foram ordeiras e não havia qualquer possibilidade, na visão dos excursionistas, de que algo grave fosse acontecer.

Pessoas próximas à empresária sustentam que ela acreditava estar organizando a participação em uma manifestação pacífica e ordeira, semelhante a outras das quais já havia participado em sua cidade.

Ainda assim, o seu nome passou a ser constantemente associado à tese de que teria sido uma das “financiadoras do golpe”, em razão de colocar o seu nome como contratante do ônibus que levou os manifestantes a Brasília.

Prisão, tornozeleira e restrições

Após os acontecimentos de Brasília, Michely foi presa e permaneceu encarcerada no Presídio da Colmeia até 8 de março de 2023, quando recebeu autorização para retornar à sua residência por decisão do ministro Alexandre de Moraes.

A liberdade, entretanto, veio acompanhada de diversas medidas cautelares. Ela passou a utilizar tornozeleira eletrônica e ficou sujeita a uma série de restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal, como o impedimento de sair à noite e nos finais de semana e feriados.

Segundo relatos de pessoas próximas, a empresária passou a considerar que não teria perspectivas de obter justiça dentro do sistema brasileiro. Essa percepção acabou influenciando a sua decisão de deixar o país em 2024.

A travessia da Floresta de Darién

Depois de deixar o Brasil, Michely iniciou uma jornada que a levaria até a fronteira dos Estados Unidos, iniciando com outros exilados desde a Argentina, ainda no segundo semestre de 2024.

No final de 2024, integrou um grupo de perseguidos do 8 de janeiro que decidiu enfrentar a perigosa travessia da Floresta de Darién, região situada entre a Colômbia e o Panamá, que é considerada uma das rotas migratórias mais difíceis do mundo, pelo risco de vida.

A caminhada por selvas, rios e terrenos hostis tinha um objetivo claro: chegar aos Estados Unidos para solicitar asilo político.

Após alcançar a fronteira americana, Michely apresentou o seu pedido de proteção migratória, mas acabou sendo colocada sob custódia do ICE, onde permaneceu durante quase dois anos aguardando o andamento de seu caso.

Um novo capítulo

A saída de Michely Paiva Alves do sistema de detenção americano abre agora um novo capítulo em sua história.

Para familiares e apoiadores, a medida representa mais do que a simples libertação de um centro de custódia. Ela simboliza a possibilidade concreta de que as autoridades americanas estejam analisando seu caso sob uma perspectiva diferente daquela que resultou no retorno das demais brasileiras.

Enquanto aguarda as próximas decisões das cortes migratórias dos Estados Unidos, Michely volta a experimentar algo que não tinha havia muitos meses: a liberdade.

E justamente por ser a última das quatro mulheres do grupo ainda em território americano, sua trajetória passa a ser acompanhada com atenção especial por todos aqueles que observam os desdobramentos internacionais dos processos relacionados ao 8 de janeiro.

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