Ana Maria Cemin – 23 de setembro de 2026
Escrever a história de Bela me fez “reviver” outras tantas histórias que narrei de perseguição política do Estado. Bela é o apelido de Wênia Morais Silva, 37 anos, mãe de Camile, de 15 anos, e de Lorenzo, que tem apenas 7 meses. Demorei para identificar o caminho para expor publicamente esse longo texto (sugiro que quem não tem o hábito pode ler em capítulos), pela riqueza de informações que Bela traz para todos os brasileiros. Há demonstração de força na sua mensagem. Decidi deixar a entrevista na forma de perguntas e respostas, exatamente como aconteceu a entrevista em 6 de setembro, quando conversamos.
Bela dormiu e acordou num determinado dia de dezembro de 2022 no centro do palco de uma das mais graves crises políticas e humanitárias do Brasil, iniciadas no pós-eleitoral. Descobriu que estava entre as pessoas investigas no âmbito da PET 10.776. A Operação Nero da Polícia Federal recolheu para a prisão ativistas da direita naquele final de ano, por conta do incêndio de veículos em frente a sede da PF em Brasília. Recolhiam para a prisão sem nenhuma prova. Um desses ativistas procurados era ela, mesmo sem ter passado por perto da sede da PF em Brasília naquele 12/12/2022.

O documento mais recente dessa investigação, a famosa PET 10776, quase quatro anos depois, mostra que a Procuradoria-Geral da República (PGR) decidiu denunciar 11 investigados pelos eventos daquele dia. Ao mesmo tempo, o órgão pediu o arquivamento da investigação em relação a outros seis nomes. A manifestação da PGR foi acolhida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do processo no Sumpremo Tribunal.
Bela foi abençoada com o arquivamento do seu processo.
Em outra matéria publicada nesse site relaciono todos os nomes de quem “respira com liberdade” e de quem enfrentará o julgamento do STF, caso você queira consultar.

Aqui você lerá sobre Bela, os meses em que viveu escondida, o exílio no Paraguai, a entrega voluntária à Interpol, a prisão pela Polícia Federal e os 79 dias de privação de liberdade durante o curso das investigações. Ao longo desse período, viu a sua vida pessoal ser desmontada: afastou-se da filha, vendeu praticamente todos os bens para sobreviver fora do país, conviveu com a incerteza sobre o futuro e passou por diferentes unidades prisionais até conquistar a liberdade provisória, com uso de tornozeleira.
A entrevista que o leitor encontrará a seguir vai muito além dos aspectos jurídicos do caso. Ao longo de quase duas horas de conversa, Bela reconstrói a trajetória inciada muito antes da investigação. Conta sobre a infância marcada por violência, os motivos que a levaram para a militância política, os bastidores dos movimentos de direita dos quais participou, a convivência com parlamentares e assessores ligados ao bolsonarismo, os acampamentos formados após as eleições de 2022 e, principalmente, o impacto humano de tudo o que veio depois.
O depoimento ganha força especial quando ela descreve a experiência dentro do sistema prisional. Em vez de uma narrativa centrada apenas em si mesma, Bela conta as histórias das mulheres que encontrou na prisão, seus dramas familiares, abusos sofridos na infância, trajetórias de abandono e os aprendizados que afirma ter levado daquele período. Segundo ela, foi justamente atrás das grades que aconteceu sua maior transformação humana e espiritual.
E é justamente esse relato profundo, humano e frequentemente desconfortável que convidamos você a ler agora.
- ORIGEM, INFÂNCIA, ABUSO SOFRIDO NA INFÂNCIA E INÍCIO DO ATIVISMO POLÍTICO POR MEIO DO MOVIMENTO REVOLTADOS ONLINE.
Ana Cemin: Tu tens hoje 37 anos e és de qual cidade?
Bela: Sou paraibana, mas moro há mais de 20 anos na capital do Rio de Janeiro.
Ana Cemin: E tu és casada?
Bela: Não, sou solteira.
Ana Cemin: Tem filhos?
Bela: Tenho dois filhos. Minha filha Camile está com 15 anos e meu filho Lorenzo tem 7 meses.
Ana Cemin: Me conta a tua história. Vamos começar do zero.
Bela: Então, primeiro, eu sou ativista política de direita. Tenho paixão pelo meu país. O motivo de eu ter me envolvido em questões políticas, movimentos e manifestações vem de uma situação muito difícil que aconteceu na minha infância.
É algo sobre o qual eu não converso muito. Hoje já não me abala tanto porque aprendi a lidar com isso, mas continua sendo um assunto muito sensível para a minha família.
Quando eu era criança, sofri um abuso por parte de um vizinho. Minha família realmente não gosta de falar sobre isso, e eu também raramente abordo o assunto.
Foi justamente por causa desse abuso que sofri na infância que comecei a me envolver em pautas políticas.
Em 2012, conheci um grupo de pessoas de São Paulo que participava de um movimento chamado Revoltados Online.
O fundador desse movimento começou sua atuação caçando pedófilos nas redes sociais. A filha dele havia sido vítima de abuso. Ele chegou a agredir o responsável, foi processado, preso, e depois decidiu dedicar-se a identificar pedófilos na internet.
Foi nessa época que ele conheceu Jair Bolsonaro. Segundo ele, Bolsonaro disse:
“Não adianta vocês ficarem enxugando gelo. Vocês precisam transformar isso em ação política, por que quem faz as leis neste país? Vocês precisam ter força.”

15/12/2015 – Bela com Bolsonaro

A partir daí, o Revoltados Online se transformou em um movimento político.
Passamos a liderar manifestações e defender pautas ligadas ao combate à corrupção, voto impresso, PEC 300, redução da maioridade penal e defesa da vida.
Durante muitos anos, o movimento esteve à frente dessas pautas, participando de audiências públicas e mobilizações.
Porém, o Ministério Público acabou com o nosso movimento. Fomos processados, acabamos envolvidos na CPI dos Crimes Cibernéticos e ficamos proibidos de atuar nas redes sociais.
O movimento simplesmente acabou. Eu podia continuar me manifestando como Bela. O Marcelo podia continuar como Marcelo. Mas o Revoltados Online foi banido.
Ana Cemin: Banido do ambiente virtual e das ruas também?
Bela: Exatamente. Foi banido do virtual e das ruas.
Ana Cemin: Isso aconteceu em 2016?
Bela: Sim, em 2016.
Ana Cemin: Até o banimento, há quanto tempo tu já militavas?
Bela: Cerca de quatro anos.
Ana Cemin: E esse ativismo era principalmente no Rio de Janeiro?
Bela: Sim. No Rio, mas também participávamos de atividades em Brasília e em São Paulo.


2. ATUAÇÃO EM CAMPANHAS POLÍTICAS, ASSESSORIA PARLAMENTAR E PARTICIPAÇÃO NOS ACAMPAMENTOS DE 2022.
Ana Cemin: Depois de 2016, vocês ficaram sem movimento e tiveram que aderir a outras formas de atuação?
Bela: Exatamente. Tivemos que nos adaptar e mudar a forma de ir para as ruas. Na verdade, continuamos participando de audiências públicas e de todas as atividades que já fazíamos antes. A diferença é que perdemos a visibilidade.
Para você ter uma ideia, em 2016 nossa página no Facebook já tinha mais de um milhão de seguidores. Desde aquela época, nós já fazíamos campanha para que Jair Bolsonaro fosse presidente. Em 2016, por exemplo, já usávamos camisetas com a frase “Bolsonaro Presidente”.
Eu sempre trabalhei em campanhas políticas, ajudando pessoas que conhecia, pedindo votos, organizando ações. Dentro da política, acredito que já fiz praticamente de tudo.
Na campanha de 2018, trabalhei ativamente e, depois, recebi uma proposta para me tornar assessora.
Ana Cemin: Assessora de quem?
Bela: De um deputado estadual do PL chamado Renato Zaca, PL, RJ, policial militar.
Uma das causas que mais me motivam é a segurança pública, muito em razão de tudo o que passei na infância. Nós fazíamos um trabalho de assistência e apoio a familiares de policiais militares assassinados. Foi nesse contexto que ele me convidou para trabalhar com sua equipe.
Fiquei como assessora de 2019 até 2022, quando pedi exoneração.
Em 2019, também participei da campanha de Max Guilherme Machado de Moura, que era assessor especial do presidente Jair Bolsonaro.


Ana Cemin: Ele concorreu a qual cargo?
Bela: A deputado federal. Inclusive, ele também chegou a ser preso pela PF em maio de 2023, na Operação Venire, relacionada aos cartões de vacinação.
Ana Cemin: E qual foi o resultado daquela campanha?
Bela: Ele não foi eleito. Ficou como suplente.
Ana Cemin: E o que aconteceu depois das eleições de 2022?
Bela: Nós fomos nos manifestar em frente ao quartel aqui no Rio de Janeiro.
Chegamos lá e, no início, ninguém tinha intenção de montar um acampamento. Quando saí de casa, no dia 1º de novembro, fui apenas para me manifestar juntamente com outras pessoas.
O meu objetivo, assim como o de muitos que estavam lá, era chamar atenção para a importância do voto auditável e do voto impresso.
É claro que havia pessoas defendendo intervenção militar, mas essa não era a minha pauta principal. Eu estava ali para defender a questão da transparência eleitoral.
Só que a manifestação começou a crescer.
Eu publicava nas redes sociais que estava no local e os amigos começaram a ajudar. Mandavam água, cadeiras, barracas e outros materiais.
Aos poucos, aquilo foi tomando proporções maiores.
Começamos a organizar a estrutura do local e o acampamento cresceu a ponto de chegarmos a ter aproximadamente 400 barracas simultaneamente.
Foi nesse momento que acabei me tornando uma das lideranças do acampamento do Rio de Janeiro.
Passei praticamente dois meses vivendo ali.
Na verdade, eu só ia em casa para pegar roupas e voltava para o acampamento. Fazia comida, ajudava os idosos e tentava manter a organização.
Sempre existem pessoas mais exaltadas, que querem transformar as coisas em algo diferente do propósito inicial. Havia quem falasse em ações mais radicais, como queimar pneus e fazer outros tipos de manifestação.
Eu sempre tentei impedir isso.
Graças a Deus, consegui evitar qualquer situação desse tipo dentro da área que coordenava.
Ana Cemin: Havia mais de um acampamento?
Bela: Sim. Existia outro grupo, ao lado do nosso, composto por pessoas que defendiam abertamente a intervenção militar.
Optamos por manter os espaços separados justamente para evitar conflitos.
O nosso acampamento dava apoio estrutural para eles. Por exemplo, o banheiro que existia no local era pago por nós. A alimentação também era fornecida pela nossa equipe.
A separação era apenas para que cada grupo pudesse defender suas pautas livremente.
Como havia divergências entre quem defendia intervenção militar e quem não defendia, entendemos que aquela era a melhor forma de evitar discussões.
Assim, cada grupo permaneceu no seu espaço e conseguiu se manifestar da maneira que considerava adequada.
Ana Cemin: E em que momento as coisas saíram do controle?
Bela: Na minha opinião, tudo começou a mudar quando tivemos a ideia de ir até Brasília para conhecer o acampamento que estava montado lá.
Ana Cemin: Quando foi isso?
Bela: Se não me engano, no dia 10 de dezembro.
Aluguei um carro e fui para Brasília com outros quatro colegas.
Quando chegamos, percebemos que não existia estrutura suficiente para acomodar todas as pessoas que estavam chegando.
Por isso, três de nós decidimos ficar em um hotel. Outras duas meninas preferiram permanecer no acampamento.
Durante o dia visitávamos o local, conversávamos com as pessoas e reencontrávamos amigos que já conhecíamos de outros estados.
Até aquele momento, tudo estava tranquilo.
3. VIAGEM A BRASÍLIA, INVESTIGAÇÃO, VAZAMENTO DO NOME E PERÍODO ESCONDIDA NO RIO DE JANEIRO.
Ana Cemin: Então vocês chegaram a Brasília por volta do dia 10 de dezembro e ficaram entre o hotel e o acampamento?
Bela: Isso. Nós ficávamos no hotel e passávamos os dias no acampamento, conversando com as pessoas e reencontrando conhecidos de outros estados.
No dia da diplomação do Lula, passamos praticamente o dia inteiro na casa do Jair Bolsonaro. Muita gente foi para lá naquele dia.
À noite, uma colega que estava hospedada no acampamento me procurou e disse que precisava ir ao centro da cidade.
Perguntei o motivo.
Ela respondeu que havia prometido ajudar um rapaz a comprar combustível para um gerador que estava sendo utilizado no acampamento.
Eu não sabia exatamente qual combustível era. Acho que era querosene.
Concordei em acompanhá-la.
No Rio de Janeiro não é comum comprar combustível em recipientes avulsos, então até perguntei se aquilo era permitido.
Fomos até um posto de combustível para fazer a compra.
Foi justamente naquele momento que Brasília começava a viver toda aquela confusão ocorrida nas proximidades da sede da Polícia Federal.
Acontece que nossa imagem apareceu no posto comprando combustível exatamente no mesmo dia em que ônibus haviam sido incendiados.
Mas nós não participamos de nenhuma daquelas ações.
Compramos o combustível para o gerador, voltamos ao acampamento e, vendo toda a situação se agravando na cidade, decidimos retornar ao Rio de Janeiro.
Sempre evitamos qualquer participação em atos de vandalismo.
Voltamos normalmente, sem qualquer problema.
Alguns dias depois, em 28 de dezembro, uma pessoa conhecida nossa, chamada Átila, foi presa.
Na época, disseram que a prisão estava relacionada aos acontecimentos de Brasília.
Até então, nada havia acontecido comigo.
No dia seguinte, porém, as coisas mudaram completamente.
Ana Cemin: O que aconteceu?
Bela: Na manhã de 29 de dezembro, meu telefone começou a tocar sem parar.
Eu não estava atendendo, até que uma amiga conseguiu falar comigo e perguntou:
“Bela, onde você está presa?”
Eu respondi:
“Como assim presa?”
Ela disse que meu nome estava aparecendo em reportagens informando que eu havia sido presa.
Achei que fosse um engano.
Então ela me enviou uma matéria.
Quando vi a reportagem, percebi que existia alguma coisa acontecendo.
Eu estava no acampamento naquele momento.
Peguei minhas coisas e saí imediatamente porque precisava entender o que estava acontecendo.
Só que ninguém tinha informação concreta.
Sabíamos apenas que haviam sido expedidos doze mandados de prisão naquele dia.
Foi nesse momento que começou uma fase muito difícil da minha vida.
E é justamente aí que eu costumo dizer que Deus começou a agir de forma muito clara.
Entre as doze pessoas que tinham mandados de prisão, apenas o meu nome vazou para a imprensa.
Só o meu.
E foi justamente isso que me permitiu sair antes de ser encontrada.
Fiquei aguardando para entender a situação.
Entrei em contato com advogados, mas ninguém conseguia acessar informações sobre o processo.
Não aparecia nada.
Não havia detalhes sobre mandado, investigação ou qualquer documento relacionado à minha prisão.
Foi assim que permaneci escondida no Rio de Janeiro durante aproximadamente três meses, sem acesso a praticamente nenhuma informação sobre o que estava acontecendo.
Nesse período, a Polícia Federal esteve na minha casa.
Eles reviraram tudo.
Quebraram coisas, mexeram em armários, abriram gavetas e chegaram a revirar até o lixo do banheiro.
Na prática, não encontraram nada além de documentos e papéis pessoais.
Depois vieram os acontecimentos de 8 de janeiro.
Eu acompanhei tudo pela televisão, do lugar onde estava escondida.
Foi um período em que eu orava todos os dias.
E foi durante esse tempo que comecei a sentir que Deus estava me mostrando que a situação estava sob o controle d’Ele.
Lembro que houve uma noite em que eu estava extremamente angustiada.
Eu estava escondida, sem notícias, sem acesso aos autos do processo e sem saber o que aconteceria comigo.
Naquele dia, senti uma insistência muito forte para orar pelo Alexandre de Moraes.
Eu não queria.
Dizia a Deus que não queria orar por ele.
Mas não conseguia encontrar paz.
Passei horas sem conseguir dormir.
Até que me ajoelhei e disse:
“Senhor, vou orar não porque eu quero, mas porque o Senhor está me mandando.”
E orava.
Foi naquele momento que comecei a compreender o significado de orar por aqueles que nos fazem mal.
Depois disso, consegui dormir.
Mas, por volta das três da manhã, acordei novamente com a mesma sensação.
Mais uma vez senti que precisava orar.
E fiz isso.
A partir daquele dia, passei a orar pela vida do Alexandre de Moraes todos os dias.
Sem exceção.
Foi algo que mudou meu coração.
Aos poucos, fui deixando de agir com revolta e passei a acreditar que tudo estava nas mãos de Deus.
Passei a entender que as coisas não aconteceriam no meu tempo, nem da forma como eu imaginava.
Foi então que surgiu a decisão de deixar o Brasil.
Ana Cemin: E quando surgiu a ideia de ir para o Paraguai?
Bela: Em abril de 2023.
Foi quando deixei o Rio de Janeiro e fui para o Paraguai sem conhecer praticamente ninguém por lá.

4. IDA AO PARAGUAI, PEDIDO DE REFÚGIO E DIFICULDADES VIVIDAS NO EXTERIOR.
Ana Cemin: Chegando ao Paraguai, como foi esse começo?
Bela: Eu fui de carro do Rio de Janeiro até o Paraguai com a ajuda de um amigo. Tinha ouvido falar que havia outros brasileiros por lá e comecei a procurar contato com algumas pessoas.
Foi então que encontrei uma moça de São Paulo chamada Jaci. Ela não tinha mandado de prisão, mas havia participado do acampamento em São Paulo e decidiu sair do Brasil por medo do que pudesse acontecer.
Conversei com ela pelas redes sociais e ela me disse:
“Pode vir, você fica aqui comigo.”
Eu aceitei.
Um amigo me levou até a região de Salto del Guairá, na fronteira. Foi lá que conheci a Jaci pessoalmente.
Confesso que senti um alívio inicial por estar fora do Brasil. Mas foi justamente ali que começou uma das fases mais difíceis da minha vida: o processo de solicitação de refúgio.
Muitas pessoas imaginam que pedir refúgio é algo simples, mas não é.
Logo no início, enfrentei uma grande demora para conseguir atendimento.
Quando você chega ao Paraguai, precisa enviar um e-mail contando a sua história e aguardar o contato do órgão responsável.
Eu cheguei em abril de 2023, mas minha entrevista só aconteceu em junho.
Durante aqueles meses, eu me sentia completamente vulnerável.
Não tinha documento paraguaio, não tinha proteção formal, nada.
A única prova de que eu havia iniciado o processo era o e-mail enviado às autoridades.
Era uma sensação constante de insegurança.
Ana Cemin: E como eram tratados os brasileiros que estavam pedindo refúgio?
Bela: Havia muito medo entre as pessoas.
Alguns refugiados voltavam das entrevistas relatando situações de intimidação.
Diziam que ouviam comentários como:
“Vocês são bandidos. Nós sabemos quem vocês são.”
Isso deixaria todos ainda mais apreensivos.
Quando finalmente chegou minha vez de ser entrevistada, apresentei tudo o que tinha.
Mostrei minha trajetória política, minha atuação como ativista, os documentos relacionados à investigação no Brasil e os fatos que haviam ocorrido na minha vida.
Depois da análise, consegui receber o protocolo de solicitação de refúgio.
Aquilo me trouxe um pouco de tranquilidade.
Pelo menos eu tinha algum documento que comprovava minha situação.
Mas surgiu outro problema.
Como sobreviver em outro país?
Minhas contas bancárias no Brasil haviam sido bloqueadas.
O dinheiro que eu tinha ficou indisponível.
Então comecei a vender tudo o que possuía.
Vendi móveis, objetos pessoais, eletrodomésticos e até panelas.
Foi assim que consegui me manter durante os meses que passei no Paraguai.
Mesmo assim, eu continuava orando todos os dias e pedindo orientação a Deus.
Eu queria saber qual caminho deveria seguir.
Ana Cemin: Em algum momento tu pensaste em voltar?
Bela: Sim. Em setembro de 2023, conversei com algumas pessoas que estavam comigo e chegamos a comentar que, se nada mudasse até novembro, talvez a solução fosse retornar ao Brasil e enfrentar a situação.
Pouco tempo depois, alguns refugiados receberam mensagens convocando-os para comparecer ao órgão responsável pelo refúgio.
Parecia um procedimento normal.
Mas não era.
Era uma armadilha.
Uma das pessoas que recebeu essa convocação me pediu para acompanhá-la.
Fomos juntas.
Quando chegamos ao local, encontramos agentes da Polícia Federal e da Interpol aguardando.
A pessoa que eu acompanhava foi presa ali mesmo, dentro do órgão que deveria proteger refugiados.
Eu estava ao lado dela quando aconteceu.
Quando ela saiu da sala já estava cercada pelos agentes.
Ela olhou para mim e disse:
“Eles vão me mandar de volta para o Brasil.”
Entrou no elevador acompanhada pelos policiais.
Eu tentei perguntar para onde a levariam, mas ninguém respondeu.
Ela foi colocada em um carro e desapareceu.
Naquele momento comecei a procurá-la.
Fui até a sede da Interpol, liguei para advogados, entrei em contato com familiares e passei horas tentando descobrir onde ela estava.
Muitas pessoas me telefonavam pedindo para sair dali imediatamente.
Diziam:
“Vai embora. Eles vão te prender também.”
Mas eu me recusava a sair.
Só queria saber o que havia acontecido com ela.
Depois de horas de espera, finalmente vi quando a trouxeram de volta e a transferiram para ser entregue às autoridades brasileiras.
Quando o carro saiu, sentei no chão e chorei.
Foi nesse momento que uma mulher que eu nunca tinha visto se aproximou de mim.
Ela parou na minha frente e disse:
“Vai haver choro, vai haver dor e vai haver sofrimento. Mas também haverá vitória. Só que tudo acontecerá no tempo de Deus. Acalme o seu coração.”
Ela falou aquilo e foi embora.
Nunca mais a vi.
Mas aquelas palavras ficaram comigo.
Voltei para casa pensando em tudo o que havia acontecido.
Naquele dia, muitos refugiados decidiram ir embora ou mudar de cidade.
Alguns ficaram com medo.
Outros resolveram desaparecer.
Eu permaneci onde estava.
E foi naquele momento que entendi algo importante.
Eu havia estado diante da Polícia Federal, diante da Interpol, dito que tinha mandado de prisão no Brasil, e mesmo assim ninguém me levou.
Na minha interpretação, aquilo era um sinal de Deus.
Foi quando comecei a considerar seriamente a possibilidade de retornar por conta própria.
Ana Cemin: E quando a decisão de voltar se tornou definitiva?
Bela: Pouco tempo depois.
Recebi uma ligação relacionada ao meu caso e conversei com autoridades que queriam saber se eu pretendia retornar.
Respondi que sim.
Disse que voltaria ao Brasil e me apresentaria voluntariamente.
A partir daquele momento começaram as conversas para organizar minha entrega.
E foi assim que se iniciou o processo que acabou me trazendo de volta ao país.
5. RETORNO VOLUNTÁRIO AO BRASIL, APRESENTAÇÃO À INTERPOL E PRISÃO.
Ana Cemin: Então tu decidistes voltar ao Brasil voluntariamente?
Bela: Sim. A decisão foi amadurecendo aos poucos.
Eu já estava convencida de que precisava voltar e enfrentar a situação. Inicialmente, pensei em atravessar a fronteira sozinha e me apresentar diretamente às autoridades brasileiras.
Mas, nesse período, conheci uma pessoa ligada à Interpol que me orientou de outra forma.
Ela me explicou que eu deveria me apresentar formalmente à Interpol, informar que possuía um mandado de prisão no Brasil e solicitar que todo o procedimento fosse documentado.
A orientação era importante porque demonstraria que eu estava me entregando espontaneamente e não havia sido localizada ou capturada.

Segui exatamente esse caminho.
No dia 29 de setembro, cheguei à sede da Interpol.
Já havia um agente da Polícia Federal aguardando.
A Interpol me encaminhou para os procedimentos necessários, incluindo exame de corpo de delito, e produziu um documento registrando que eu estava me apresentando de forma voluntária.
Isso era muito importante para mim.
Eu queria que constasse oficialmente que estava retornando por decisão própria.
Depois de tudo pronto, agentes da Interpol me acompanharam até a região da Ponte da Amizade.
Foi ali que fui oficialmente presa pela Polícia Federal.
Não fui expulsa do Paraguai.
Assinei os documentos relativos ao encerramento do meu pedido de refúgio e fui entregue às autoridades brasileiras.
Ana Cemin: E qual era o acordo em relação à tua transferência?
Bela: O combinado era relativamente simples.
Eu me entregaria na sexta-feira, em Foz do Iguaçu, permaneceria ali durante o final de semana e, na segunda-feira, seria transferida para Brasília.
Mas nada aconteceu como haviam informado.
No domingo, fui transferida para a penitenciária estadual de Foz do Iguaçu sem que minha família, meus advogados ou qualquer outra pessoa fossem avisados.
Ninguém sabia onde eu estava.
Minha advogada entrou em contato com a Polícia Federal tentando obter informações e recebeu apenas a resposta de que eu já não estava mais lá.
Sem explicações.
Sem detalhes.
Sem notícia alguma.
Durante alguns dias, as pessoas simplesmente não sabiam o meu paradeiro.
Ana Cemin: E quanto tempo permanecestes em Foz do Iguaçu?
Bela: Mais de quarenta dias.
A transferência que deveria ocorrer em poucos dias levou mais de um mês.
Foi uma fase muito complicada.
Logo no primeiro dia, a direção da penitenciária me chamou para conversar.
Disseram que aquele local nunca havia recebido uma presa ligada a questões políticas e que não sabiam como as demais detentas reagiriam.
Inicialmente, permaneci em silêncio.
Mas nunca tive intenção de mentir.
Se alguém me perguntasse por que eu estava presa, eu responderia a verdade.
Foi exatamente o que aconteceu.
Certo dia, uma policial comentou na frente de outras presas:
“Eu também sou Bolsonaro. O que estão fazendo com você é uma covardia.”
A partir daí, todo o presídio soube o motivo da minha prisão.
E os problemas começaram.
Passei a receber ameaças constantes de outras detentas.
Gritavam das celas.
Chamavam nomes.
Diziam que eu iria morrer.
Foi um período bastante tenso.
Ana Cemin: Como a direção reagiu?
Bela: Eles decidiram me colocar no chamado “seguro”.
Na prática, era o setor utilizado para proteger presos que corriam risco de sofrer agressões.
Eu ficava sozinha em uma cela.
Sem contato com outras pessoas.
Sem atividades.
Sem banho de sol.
Praticamente isolada vinte e quatro horas por dia.
Havia apenas uma abertura por onde passavam a comida.
E acabou.
Foi um período muito duro.
Lembro que houve fortes chuvas em Foz do Iguaçu e parte da unidade começou a alagar.
As outras presas foram retiradas das celas.
Eu permaneci lá dentro.
A água subindo.
Sozinha.
Sem saber exatamente o que aconteceria.
Toda vez que precisava sair para atendimento médico ou psicológico, montavam uma operação especial.
As outras detentas ficavam recolhidas para evitar qualquer contato comigo.
Se eu precisava conversar com um advogado, era levada diretamente à sala de atendimento e retornava imediatamente para a cela.
Tudo era feito para impedir qualquer aproximação.
Ana Cemin: E quando veio a transferência para Brasília?
Bela: Em novembro.
E foi uma situação que parecia cena de filme.
Eu estava no aeroporto de Foz do Iguaçu cercada por viaturas, algemada pelos pés e pela cintura.
Um avião da Polícia Federal pousou especialmente para fazer a transferência.
Havia diversos agentes envolvidos na operação.
Passei por procedimentos de revista e depois fui levada para a aeronave.
O que mais me chamou atenção foi que o avião era enorme.
Tinha capacidade para aproximadamente cem pessoas.
Mas havia apenas alguns agentes a bordo.
Na prática, a aeronave havia sido enviada exclusivamente para me transportar.
Ana Cemin: Qual o sentimento naquele momento?
Bela: Era uma situação surreal.
Mas aconteceu algo que me marcou.
Antes da decolagem, o piloto se aproximou de mim.
Olhou diretamente para mim e disse:
“A senhora me desculpe por toda essa situação. Nós sabemos que a senhora não é criminosa.”
Eu respondi que compreendia que ele estava apenas cumprindo sua função.
Mesmo assim, ele insistiu em pedir desculpas.
Disse que queria fazer aquilo em nome das pessoas que ainda considerava decentes dentro da instituição.
Aquilo me trouxe certo conforto.
Foi um gesto simples, mas que me marcou profundamente.
Depois de tudo isso, segui para Brasília, onde uma nova etapa da minha trajetória começaria.
6. TRANSFERÊNCIA PARA BRASÍLIA, DEPOIMENTO E CHEGADA À COLMEIA.
Ana Cemin: O que aconteceu a partir daí?
Bela: Quando cheguei a Brasília, já havia uma viatura me aguardando no aeroporto.
Fui levada para a Superintendência da Polícia Federal e, novamente, passei por exame de corpo de delito.
Depois disso, permaneci presa nas dependências da Polícia Federal por mais dois dias.
O mais impressionante é que, até aquele momento, eu ainda não havia sido ouvida formalmente.
Eu já estava presa havia mais de quarenta e cinco dias e ninguém tinha colhido meu depoimento.
Ana Cemin: Quarenta e cinco dias presa sem prestar depoimento?
Bela: Exatamente. O depoimento finalmente aconteceu na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
Começou pela manhã e se estendeu por praticamente todo o dia.
Eu cheguei decidida a não esconder absolutamente nada.
Levei notas fiscais, documentos, comprovantes e todo o material que pudesse ajudar a esclarecer minha participação nos acontecimentos.
Inclusive, pedi que minha advogada imprimisse comprovantes referentes aos banheiros químicos que havíamos alugado para o acampamento do Rio de Janeiro, além de extratos bancários e registros de despesas.
Minha posição sempre foi muito clara: eu não mentiria, não ocultaria informações e não tentaria criar versões alternativas dos fatos.
Expliquei que minha atuação estava ligada ao acampamento do Rio de Janeiro e que eu não tinha qualquer função de comando ou financiamento do acampamento de Brasília.
Contei toda a minha trajetória política, os trabalhos que havia realizado e as atividades das quais participei ao longo dos anos.
Entreguei tudo o que me pediram.
Ana Cemin: Como foi o tratamento durante esse depoimento?
Bela: O delegado responsável pelo interrogatório tinha um posicionamento político muito diferente do meu e deixou isso claro durante toda a conversa.
Em vários momentos, ele me chamou de golpista.
Disse que nós teríamos passado quatro anos arquitetando um golpe.
Eu respondia às perguntas com tranquilidade e explicava os fatos como aconteceram.
Mas percebia que muitas perguntas voltavam repetidamente, apenas formuladas de formas diferentes.
A impressão que tive era que tentavam encontrar alguma contradição no meu relato.
Só que eu não tinha motivo para mudar minha versão porque estava falando a verdade.
Ana Cemin: O que eles procuravam?
Bela: Minha impressão é que esperavam descobrir algum envolvimento de grande repercussão política.
Parecia haver uma expectativa de encontrar ligação direta entre os acampamentos e lideranças políticas nacionais.
Eu já tinha um histórico de militância, assessoria política e participação em movimentos de rua. Talvez por isso imaginassem que eu pudesse apresentar algum fato que implicasse pessoas mais conhecidas.
Mas isso simplesmente não existia.
Ana Cemin: E havia imprensa acompanhando?
Bela: Sim. Pelo que soube, havia jornalistas na parte externa do prédio, mas eu não tive contato com ninguém.
Entrei e saí sempre por acessos internos.
Quando chegava de viatura, era conduzida diretamente para áreas reservadas da Superintendência, sem passar pelos acessos públicos.
O mesmo aconteceu quando fui transferida posteriormente para a Colmeia.
Tudo era feito por áreas internas.
Ana Cemin: Durante o depoimento, qual foi a principal acusação apresentada?
Bela: Basicamente a compra daquele combustível em Brasília.
Eles perguntaram várias vezes sobre isso.
Eu expliquei exatamente o que havia acontecido.
Mostrei registros de localização do meu telefone celular e indiquei detalhadamente os locais por onde passei naquele dia.
Informei onde estacionei o carro, os horários aproximados e todo o trajeto realizado.
Não omiti nada.
Perguntaram quantos galões havíamos comprado.
Respondi.
Perguntaram para onde o combustível foi levado.
Respondi.
Perguntaram quem estava comigo.
Respondi.
Tudo foi esclarecido.
Eu nunca escondi que havíamos comprado o combustível para o gerador do acampamento.
O que sempre deixei claro foi que não participei de qualquer ato de vandalismo ou ataques a prédios públicos.
Em nenhum momento estive envolvida com aquilo.
O curioso é que, apesar de estar diante daquela situação, eu me sentia muito tranquila.
Falava com eles da mesma forma que estou conversando agora.
Sem nervosismo.
Sem desespero.
Sem medo.
Eu realmente acreditava que precisava apenas contar a verdade e deixar que as coisas seguissem seu curso.
Ana Cemin: E o que aconteceu depois do depoimento?
Bela: Depois do interrogatório, fui transferida para a Penitenciária Feminina do Distrito Federal, conhecida como Colmeia.
E ali começou uma nova experiência, completamente diferente de tudo o que eu já tinha vivido até então.
Ana Cemin: Como foi a chegada?
Bela: Curiosamente, ao contrário do que aconteceu em Foz do Iguaçu, eu não sofri ameaças dentro da Colmeia.
As pessoas já estavam acostumadas com a presença de outras mulheres presas em razão dos acontecimentos políticos.
O ambiente era diferente.
E aconteceu algo que eu jamais imaginei viver.
Diversas presas se aproximavam para dizer que torciam por mim.
Algumas afirmavam que eu não era criminosa e que acreditavam que eu sairia daquela situação.
Eu ouvi isso de mulheres condenadas por crimes graves.
Ouvi de pessoas que haviam cometido homicídios, roubos e outros delitos.
Aquilo me chamou muito a atenção.
Independentemente do crime que cada uma tivesse cometido, muitas demonstravam compreensão em relação à diferença entre suas situações e a das mulheres que estavam ali por questões ligadas aos acontecimentos políticos.
Foi uma experiência que me fez refletir muito sobre justiça, humanidade e sobre as histórias que cada pessoa carrega consigo.
7. CONVIVÊNCIA COM ANA PRISCILA E REFLEXÕES SOBRE A REALIDADE PRISIONAL.
Ana Cemin: Como foi a adaptação à Colmeia?
Bela: Foi uma experiência muito diferente daquela que vivi em Foz do Iguaçu.
Quando cheguei, encontrei uma realidade que jamais imaginei conhecer tão de perto. E uma das maiores surpresas foi conhecer a Ana Priscila.
Antes de chegar lá, eu tinha a mesma impressão que muita gente tinha dela. Imaginava uma pessoa explosiva, agressiva e difícil de conviver.
Mas encontrei alguém completamente diferente.
Vi uma mulher inteligente, calma, muito ligada à fé e plenamente consciente do que fez e do que não fez.
Ana Cemin: Ficaram juntas?
Bela: Sim. Dividimos a mesma cela.
Quando cheguei, a única pessoa que estava comigo era a Ana Priscila.
Passamos semanas convivendo diariamente, conversando sobre tudo.
E aquilo me permitiu enxergar não apenas a situação dela, mas também a realidade do sistema prisional como um todo.
Ana Cemin: Como era a rotina na cela?
Bela: A rotina era bastante limitada.
Não tínhamos contato constante com outras presas, mas acabávamos encontrando algumas delas nos deslocamentos para atendimento jurídico, médico ou psicológico.
Havia momentos em que várias detentas aguardavam juntas até serem chamadas pelos advogados.
Era nessas ocasiões que conversávamos.
Com o tempo, comecei a ouvir as histórias de muitas mulheres que estavam ali.
Histórias extremamente pesadas.
Histórias de abandono, violência, abuso, alcoolismo dentro da família e destruição emocional desde a infância.
Aquilo me marcou profundamente.
Ana Cemin: De que forma?
Bela: Eu costumo dizer que minha maior transformação espiritual aconteceu dentro da Colmeia.
Porque foi ali que parei de enxergar apenas o crime cometido e comecei a enxergar a história que existia antes dele.
Conversei com dezenas de mulheres.
E percebi que muitas carregavam trajetórias de sofrimento muito profundas.
Não estou justificando os crimes.
Mas comecei a entender que existe uma diferença enorme entre condenar um ato e compreender como uma pessoa chegou até aquele ponto.
Isso mudou minha forma de ver o mundo.
Ana Cemin: Chagastes a fazer amizade com algumas delas?
Bela: Sim. Conversávamos bastante. Muitas vezes eu escutava as histórias e tentava aconselhá-las.
Havia mulheres muito jovens ali dentro. Lembro de uma que tinha apenas dezoito anos.
Perguntei sobre sua vida e ela me contou que o pai tinha envolvimento com o crime.
Eu perguntei:
“Mas ele nunca disse para você não seguir esse caminho?”
Ela respondeu:
“Dizia. Mas fazia exatamente aquilo que falava para eu não fazer.”
Aquilo me fez refletir muito sobre o peso do exemplo dentro da família.
Ana Cemin: Houve alguma história que te marcou especialmente?
Bela: Muitas. Uma delas era de uma empresária bem-sucedida, dona de um estúdio de tatuagem em Balneário Camboriú. Ela tinha dinheiro, estrutura e uma vida confortável.
Mesmo assim, começou a praticar crimes porque sentia prazer na adrenalina.
Ela própria dizia isso.
Não era necessidade financeira.
Era emoção.
Outra mulher havia sido presa por extorsão.
Outra estava presa por envolvimento em um homicídio.
E havia dezenas de histórias igualmente difíceis.
O mais impressionante era perceber que muitas tinham plena consciência do que haviam feito.
Algumas falavam disso com naturalidade.
Outras demonstravam arrependimento.
Cada uma reagia de uma forma diferente.
Ana Cemin: E como elas te viam?
Bela: Muitas vezes elas mesmas diziam:
“Você nunca imaginou estar aqui conosco, não é?”
E era verdade.
Eu nunca imaginei.
Mas, ao mesmo tempo, elas me receberam com muito respeito.
Havia brincadeiras, comentários e provocações pontuais, mas sempre dentro de um ambiente de convivência relativamente tranquilo.
Eu aprendi muito com aquelas conversas.
Muito mais do que imaginava.
Ana Cemin: Falastes que passou a enxergar a prisão de outra forma. Por quê?
Bela: Porque antes eu imaginava a cadeia apenas como um lugar de punição.
Quando você convive com aquelas pessoas diariamente, percebe que existe uma realidade muito mais complexa.
Existem criminosos perigosos, sem dúvida.
Mas também existem pessoas destruídas emocionalmente desde a infância.
Pessoas que nunca tiveram apoio.
Pessoas que cresceram cercadas pela violência.
Pessoas que jamais receberam orientação.
Foi ali que entendi que muitos problemas começam muito antes do crime acontecer.
Começam dentro de casa.
Começam na infância.
Começam na ausência de estrutura familiar.
Ana Cemin: E isso mudou a tua visão?
Bela: Mudou bastante. Hoje continuo acreditando na responsabilização pelos crimes, mas também passei a enxergar a importância de compreender as causas.
Porque, muitas vezes, o crime é apenas o último capítulo de uma história que começou décadas antes.
Foi uma lição muito forte para mim.
Uma lição que jamais teria aprendido se não tivesse vivido tudo aquilo pessoalmente.
8. ROTINA NO PRESÍDIO, ALIMENTAÇÃO, ATENDIMENTO MÉDICO E FORTALECIMENTO ESPIRITUAL.
Ana Cemin: Como era o dia a dia de vocês dentro da Colmeia?
Bela: Era uma rotina muito limitada e completamente diferente de qualquer coisa que eu já tinha vivido.
Acordávamos cedo, com os horários determinados pelo presídio. Tudo funcionava de acordo com regras rígidas. Horário para acordar, para receber alimentação, para atendimento médico, para conversar com advogado e para qualquer movimentação dentro da unidade.
Eu dividia a cela com a Ana Priscila. Como era apenas nós duas naquele espaço, acabávamos passando muitas horas conversando.
Falávamos sobre fé, família, processo, futuro e sobre tudo o que estávamos vivendo ali dentro.
Foram muitas conversas.
Às vezes passávamos horas discutindo passagens bíblicas, outras vezes apenas tentando entender como nossas vidas tinham chegado até aquele ponto.
Ana Cemin: Vocês passavam o dia todo dentro da cela?
Bela: Na maior parte do tempo, sim.
Existiam momentos em que éramos retiradas para atendimento jurídico, psicológico ou para alguma atividade específica, mas a maior parte do dia era passada dentro da cela.
Por isso, criávamos nossa própria rotina.
Líamos bastante.
Conversávamos.
Orávamos.
Tentávamos manter a mente ocupada o tempo todo.
Porque o pior inimigo da prisão é o tempo.
Quando você fica olhando para uma parede durante horas, a sua cabeça começa a trabalhar contra você.
Então eu procurava me manter ocupada.
Ana Cemin: Como funcionava o contato com as outras presas?
Bela: Nós encontrávamos outras detentas principalmente nos locais de espera para atendimento jurídico ou médico. Era comum várias mulheres aguardarem juntas para serem chamadas. Nesses momentos surgiam as conversas. E foi aí que comecei a conhecer as histórias delas. Muitas delas também vinham conversar comigo.
Perguntavam sobre política, sobre minha família, sobre o que estava acontecendo fora da prisão.
Outras simplesmente queriam conversar.
Queriam alguém para ouvir.
E eu ouvi muita coisa.
Muito mais do que imaginava ouvir um dia.
Ana Cemin: Havia banho de sol diariamente?
Bela: Não. Esse era um dos problemas. Não existia uma regularidade. Alguns dias tínhamos banho de sol. Outros não.
Havia dias em que podíamos permanecer mais tempo na área externa.
Em outros, eram poucos minutos.
Tudo dependia da rotina interna da unidade.
Era algo que gerava muitas reclamações entre as presas.
Ana Cemin: E como eram as condições dessa área externa?
Bela: Bastante precárias. Havia uma cobertura metálica que esquentava muito. Em determinados horários o calor era praticamente insuportável.
Na época em que estive lá, também não existia um ponto adequado para hidratação próximo da área onde muitas detentas permaneciam.
Era uma reclamação constante. As mulheres passavam bastante tempo expostas ao calor.
Depois, segundo relatos das próprias presas, algumas melhorias foram feitas. Mas, quando cheguei, esse era um problema frequente.
Ana Cemin: Como era a alimentação?
Bela: Sinceramente, foi uma das partes mais difíceis para mim. Eu praticamente não conseguia comer. O cheiro da comida me causava mal-estar. Cheguei a tentar algumas vezes, mas passava mal.
Minha alimentação acabou ficando baseada no que minha família conseguia enviar e no pouco que eu conseguia consumir.
Comia pão pela manhã, algumas frutas, bolachas e coisas mais simples.
Perdi muito peso naquele período.
Houve dias em que me senti extremamente fraca.
Foi uma fase complicada fisicamente.
Ana Cemin: E o atendimento de saúde?
Bela: Eu vi situações muito preocupantes. Havia muitas reclamações relacionadas à demora nos atendimentos.
Presenciei pessoas passando mal, desmaiando e aguardando atendimento.
Também ouvi diversos relatos de detentas que se sentiam ignoradas quando procuravam ajuda médica.
Era um tema recorrente nas conversas.
Tanto a área da saúde quanto a alimentação eram assuntos constantes entre as presas.
Ana Cemin: O que mais te marcou naquela convivência?
Bela: A humanidade que eu encontrei em pessoas que a sociedade muitas vezes já havia descartado.
Ouvi histórias duríssimas.
Vi mulheres que erraram gravemente.
Mas também vi mulheres ajudando umas às outras.
Dividindo o que tinham.
Perguntando se alguém precisava de alguma coisa.
Consolando quem recebia notícias ruins da família.
Havia muito sofrimento ali dentro e solidariedade.
Isso me marcou bastante.
Ana Cemin: E espiritualmente, como tu estavas naquele período?
Bela: Muito próxima de Deus. Eu orava todos os dias. Muito.
Talvez mais do que em qualquer outra fase da minha vida.
A prisão tirou muitas coisas de mim, mas também me obrigou a olhar para dentro.
Sem celular, sem trabalho, sem compromissos externos, você acaba ficando frente a frente com seus próprios pensamentos.
Foi um período de muito crescimento espiritual.
Eu lia, orava e refletia constantemente.
Hoje consigo olhar para trás e dizer que Deus me sustentou durante todo aquele período.
Porque, humanamente falando, era uma situação muito difícil.
Ana Cemin: Em algum momento pensastes que passaria muitos anos presa?
Bela: Sim. Principalmente nos momentos em que não havia notícias do processo.
Havia dias em que eu pensava que talvez demorasse muito tempo para sair.
Mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma paz muito grande.
Não consigo explicar de outra forma.
Eu não sabia qual seria o resultado, mas tinha a convicção de que Deus continuava no controle da situação.
E foi essa convicção que me manteve firme durante todos aqueles dias.

9. CARTA ESCRITA A DEUS, ALVARÁ DE SOLTURA E SAÍDA DA PRISÃO.
Ana Cemin: Em que momento surgiu a possibilidade de tu saires da prisão?
Bela: Foi no mês de dezembro de 2023.
Eu me lembro que o advogado Helio Júnior foi me visitar e trouxe uma notícia que, naquele momento, me desanimou bastante.
Ele me disse que o ministro Alexandre de Moraes estava entrando em recesso e que os últimos alvarás de soltura já haviam sido assinados.
O meu não estava entre eles.
Na prática, aquilo significava que eu provavelmente passaria o Natal e o Ano Novo dentro da prisão.
Ana Cemin: Como reagistes?
Bela: Curiosamente, eu não entrei em desespero. Fiquei triste, claro, mas não entrei em pânico.
Voltei para a cela e fiquei refletindo sobre tudo o que havia acontecido ao longo daquele ano.
Naquele período eu estava lendo um livro que contava a história de uma mulher que enfrentava um problema na Justiça e que havia escrito uma carta para Deus.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Então peguei papel e caneta e resolvi fazer a mesma coisa.
Escrevi uma carta.
Uma carta muito sincera.
Contei a Deus o que estava sentindo, falei da minha filha, da minha família, do quanto acreditava que não havia cometido crime algum e pedi que Ele me tirasse daquele lugar.
Foi uma conversa escrita entre mim e Deus.
Sem filtros.
Sem formalidades.
Só eu e Ele.
Inclusive coloquei a data. Era 14 de dezembro de 2023.
Depois de escrever, voltei à rotina normal da cela.
Naquele dia eu já estava me preparando emocionalmente para permanecer presa por mais algum tempo.
Comecei até a organizar minhas coisas.
Separei roupas, itens de higiene e objetos pessoais.
Uma parte eu pretendia deixar para a Ana Priscila.
Outra parte eu queria doar para algumas detentas que tinham menos recursos.
Na minha cabeça, eu ainda teria bastante tempo pela frente dentro da Colmeia.
Lembro da Ana Priscila brincando comigo. Quando comecei a separar meus pertences, ela disse:
“Para com isso. Nós ainda vamos passar o Natal, o Ano Novo e até o Carnaval aqui dentro.”
Nós duas acreditávamos que seria assim.
Não havia qualquer sinal concreto de que algo estivesse prestes a mudar.
Ana Cemin: E o que aconteceu depois?
Bela: Naquela mesma tarde tivemos mais uma conversa sobre fé. A Ana costumava dizer que Deus falava com ela por meio da Palavra.
Eu estava emocionalmente cansada.
Em determinado momento, acabei dizendo algo que hoje nunca esqueço.
Falei:
“Parece que Deus nem está me ouvindo.”
Foi um momento de fraqueza.
Depois seguimos o dia normalmente.
Anoiteceu.
As luzes foram apagadas e nos preparamos para dormir.
Então aconteceu algo completamente inesperado.
Ana Cemin: O quê?
Bela: Já era noite quando acenderam as luzes do corredor e chamaram pelo meu nome.
Achei estranho.
Uma agente penitenciária se aproximou da cela e disse:
“Assina aqui o teu alvará.”
Eu nem entendi.
Perguntei o que era aquilo.
Ela repetiu:
“É o teu alvará de soltura.”
Achei que fosse algum engano.
Perguntei novamente.
Ela conferiu meu nome, o nome da minha mãe e confirmou:
“É teu. Tu não quer ir embora?”
Foi uma sensação difícil de descrever.
Ana Cemin: E qual foi a tua reação?
Bela: Primeiro veio o choque.
Depois a emoção.
Peguei o documento na mão e fui conferir a data.
Quando olhei, quase não consegui acreditar.
O alvará havia sido expedido exatamente no mesmo dia em que eu havia escrito aquela carta.
14 de dezembro de 2023.
A mesma data.
A carta e o alvará tinham o mesmo dia.
Para mim, aquilo teve um significado muito forte.
Ana Cemin: Mostrastes isso para a Ana Priscila?
Bela: Sim. Voltei para a cela e mostrei tudo para ela. Peguei a carta que havia escrito poucas horas antes e entreguei em suas mãos.
Ela leu.
Depois olhou para o alvará.
Os dois documentos estavam datados no mesmo dia.
Foi um momento muito emocionante para nós duas.
Porque, independentemente da interpretação que cada pessoa tenha, eu enxerguei aquilo como uma resposta de Deus.
Ana Cemin: Tu saistes imediatamente?
Bela: Não. Como já era tarde da noite, informaram que eu passaria mais aquela noite ali.
Precisavam concluir os procedimentos relacionados ao monitoramento eletrônico.
Então permaneci na cela até a manhã seguinte.
Mas dormi de uma forma completamente diferente.
Pela primeira vez em muito tempo, sabendo que iria para casa.
Ana Cemin: Quando tu deixastes a Colmeia?
Bela: No dia 16 de dezembro de 2023.
Recebi a tornozeleira eletrônica e fui liberada.
Depois de tudo o que havia vivido naquele ano, finalmente estava voltando para o Rio de Janeiro.
Ana Cemin: E o que encontrou quando chegou?
Bela: Praticamente recomecei do zero.
Eu não tinha mais casa montada.
Não tinha móveis.
Não tinha cama.
Não tinha utensílios básicos.
Fui morar temporariamente com a minha irmã.
E lembro que, mesmo depois de sair da prisão, continuei fazendo a mesma oração que fazia lá dentro:
“Senhor, eu tenho uma filha. Preciso trabalhar. Preciso reconstruir minha vida. Me mostra o caminho.”
Eu não sabia como faria aquilo.
Mas tinha certeza de que precisava começar novamente.
E foi exatamente o que fiz.
10. RECONSTRUÇÃO DA VIDA, RETORNO AO TRABALHO, GRAVIDEZ E RETIRADA DA TORNOZELEIRA.
Ana Cemin: Como foi a reconstrução da tua vida depois da prisão?
Bela: Foi praticamente um recomeço. Naquele momento, meu foco era apenas recomeçar.
Eu continuava orando muito e pedindo direção a Deus. Pensava na minha filha, nas responsabilidades que tinha e em como reconstruiria minha vida dali para frente.
Lembro que repetia constantemente:
“Senhor, eu preciso trabalhar. Preciso cuidar da minha filha. Preciso recomeçar.”
E, aos poucos, as coisas começaram a acontecer.
Ana Cemin: Como surgiu a primeira oportunidade de trabalho?
Bela: De uma forma até inesperada.
Uma pessoa que me devia dinheiro há bastante tempo entrou em contato e resolveu quitar a dívida.
Aquilo me ajudou naquele primeiro momento.
Consegui contribuir com algumas despesas da casa da minha irmã e comecei a respirar um pouco melhor.
Pouco tempo depois, um amigo me chamou para conversar.
Ele sabia de toda a minha situação.
Durante a conversa, disse algo que nunca esqueci.
Falou:
“Eu ainda não sei exatamente o que você vai fazer aqui, mas sei que você precisa trabalhar e não vai passar por isso sozinha.”
Aquilo me emocionou muito.
Porque, depois de tudo o que eu havia vivido, ouvir alguém dizer que eu não estava sozinha foi algo extremamente importante.
Ana Cemin: E qual foi o trabalho que ele ofereceu?
Bela: Inicialmente, comecei a trabalhar como secretária dele.
Era uma pessoa ligada à política e ao meio empresarial.
Ele pretendia disputar uma eleição municipal e disse que, caso a candidatura se concretizasse, eu poderia ajudá-lo na campanha. Caso contrário, continuaria auxiliando na administração de seus negócios.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Comecei a organizar documentos, resolver questões administrativas e cuidar de atividades do escritório.
Foi o meu primeiro passo de volta à vida profissional.
Ana Cemin: E durante esse período ainda estavas com a tornozeleira eletrônica?
Bela: Sim. Todas as determinações judiciais continuavam valendo.
Eu precisava respeitar horários, manter os equipamentos funcionando corretamente e seguir todas as regras impostas.
Nunca tive problema com isso.
Sempre cumpri rigorosamente tudo o que foi determinado.
Minha preocupação era mostrar que estava fazendo exatamente o que a Justiça exigia.

Ana Cemin: Em algum momento essas medidas mudaram?
Bela: Sim, mas por causa da gravidez.
Naquela época eu já havia retomado contato com meu ex-marido.
Nós tivemos uma tentativa de reconciliação.
O relacionamento acabou não dando certo, mas dessa reaproximação nasceu o Lorenzo.
Foi uma gravidez muito difícil.
De alto risco desde o início.
Passei boa parte do período fazendo acompanhamento médico rigoroso.

Ana Cemin: E a tornozeleira se tornou um problema?
Bela: Bastante.
Minha perna inchava muito.
Mesmo seguindo as orientações médicas, o inchaço não diminuía.
A tornozeleira começou a causar ferimentos, bolhas e machucados.
A situação ficou preocupante.
Foi então que a médica responsável pelo meu pré-natal produziu um relatório recomendando a retirada do equipamento.
Minha defesa apresentou toda a documentação.
Depois de algum tempo, foi autorizada a retirada da tornozeleira.
Ana Cemin: Lembras quando isso aconteceu?
Bela: Sim.
Em dezembro de 2024.
Meu filho nasceu em janeiro, então a retirada ocorreu aproximadamente um mês antes do parto.
Foi um grande alívio.
Principalmente por causa da gravidez.
Ana Cemin: Todas as medidas cautelares foram encerradas?
Bela: Não. Apenas a tornozeleira foi retirada. As demais restrições continuaram valendo.
Eu ainda precisava cumprir outras determinações judiciais normalmente.
Ana Cemin: Como ficou tua vida familiar nesse período?
Bela: Hoje eu e o pai do Lorenzo não estamos mais juntos.
Mas temos uma relação respeitosa.
Ele participa da vida do nosso filho e procura ajudar dentro das possibilidades dele.
Quanto à minha filha, a Camile, acredito que ela foi uma das pessoas que mais me surpreenderam durante toda essa história.
Ana Cemin: Por quê?
Bela: Porque ela demonstrou uma maturidade muito maior do que eu imaginava.
Desde o início procurei ser honesta com ela.
Nunca escondi a realidade.
Expliquei o que estava acontecendo, quais eram os riscos e por que eu estava passando por tudo aquilo.
Ela acompanhou todo aquele período ao lado da minha mãe.
Quando surgiram os mandados de prisão, conversei com ambas.
Expliquei que poderiam acontecer coisas difíceis e preparei as duas para essa possibilidade.
Ana Cemin: Tua família chegou a te visitar na prisão?
Bela: Não. Foi uma decisão minha.
Minha mãe queria fazer os cadastros necessários para visitas em Brasília.
Minha filha também demonstrava vontade de ter algum contato.
Mas eu não permiti.
Ana Cemin: Por quê?
Bela: Porque eu não queria que elas guardassem aquela imagem.
Não queria que minha filha me visse vestida como uma presa.
Não queria que minha mãe carregasse aquela lembrança.
Foi uma escolha muito difícil.
Talvez uma das mais difíceis de toda essa história.
Mas eu realmente acreditava que era o melhor para elas.
Preferia que recebessem notícias por meio dos advogados do que me vissem naquela situação.
Ana Cemin: E como tua mãe reagiu a tudo isso?
Bela: Ela sofreu muito.
Muito mesmo.
Minha mãe emagreceu de forma impressionante.
Foi um período extremamente doloroso para toda a minha família.
Às vezes eu acredito que elas sofreram mais do que eu.
Porque, dentro da prisão, eu pelo menos sabia onde estava e o que estava acontecendo comigo.
Já quem estava do lado de fora vivia diariamente com incertezas e preocupações.
Ana Cemin: E a Camile?
Bela: A Camila fez acompanhamento psicológico durante aquele período, mas os próprios profissionais diziam que ela demonstrava uma compreensão muito madura da situação.
Ela costumava dizer:
“Eu sei que a minha mãe não é criminosa. Eu sei que isso vai passar.”
Ouvir isso de uma adolescente me dava muita força.
Muitas vezes eu olhava para ela e pensava que talvez fosse eu quem deveria aprender com a serenidade dela.
Foi uma das maiores bênçãos que recebi durante todo aquele processo.
11. REFLEXÕES SOBRE POLÍTICA, FÉ E AMADURECIMENTO PESSOAL.
Ana Cemin: Depois de tudo, tu imaginavas voltar a trabalhar com política?
Bela: Muita gente me faz essa pergunta.
Inclusive a minha mãe.
Quando saí da prisão, ela dizia:
“Você passou por tudo isso e, em vez de se afastar da política, continua trabalhando com política.”
A verdade é que eu nunca consegui me enxergar fazendo outra coisa.
É algo que faz parte da minha vida há muitos anos.
Não estou falando de idolatrar políticos ou defender pessoas cegamente.
Estou falando de militância, mobilização, organização e participação política.
Sempre gostei dos bastidores.
Sempre gostei de organizar movimentos, campanhas e ações.
É algo que me realiza.
Ana Cemin: Então voltastes para a política?
Bela: Sim. Depois de algum tempo, recebi uma proposta para atuar novamente em campanha.
E aceitei.
Hoje continuo trabalhando nessa área porque é algo que gosto de fazer.
Tem dias em que saio de casa muito cedo e volto tarde da noite.
Mesmo cansada, continuo feliz.
Porque estou fazendo algo que faz sentido para mim.
Ana Cemin: Depois de tudo o que aconteceu, a tua visão sobre os políticos mudou?
Bela: Mudou bastante.
Na verdade, algumas convicções ficaram ainda mais fortes.
Meu pai sempre me ensinou que político não é patrão do povo.
É empregado do povo.
Eu já acreditava nisso antes.
Hoje acredito ainda mais.
Talvez porque tenha aprendido, da forma mais dura possível, que não devemos depositar nossa esperança em pessoas.
Políticos são seres humanos.
Erram.
Acertam.
Falham.
E, muitas vezes, decepcionam.
Ana Cemin: Sentistes decepcionada com os políticos?
Bela: Em alguns casos, sim.
Principalmente porque passei muitos anos trabalhando ao lado de determinadas pessoas.
Participei de campanhas.
Ajudei em mobilizações.
Construí relações de confiança.
E quando surgiram os momentos mais difíceis da minha vida, muitas dessas pessoas simplesmente desapareceram.
Isso machuca.
Eu esperava, pelo menos, uma demonstração de preocupação humana.
Uma ligação.
Uma mensagem.
Qualquer coisa.
Porque, durante muitos anos, quando essas pessoas precisaram de nós, nós estivemos presentes.
E quando chegou a nossa vez de precisar, muitos desapareceram.
Essa foi uma das maiores decepções que vivi.
Ana Cemin: E isso mudou tua posição política?
Bela: Não. Mudou minha visão sobre algumas pessoas, mas não mudou minhas convicções.
Continuo sendo uma pessoa de direita. Continuo conservadora.
Continuo defendendo as pautas em que sempre acreditei.
A diferença é que hoje tenho muito menos apego a figuras políticas.
Passei a separar melhor as ideias das pessoas.
Ana Cemin: Tu acreditas que os acampamentos poderiam ter terminado de forma diferente?
Bela: Sim. Eu penso nisso com frequência. Havia muitas pessoas idosas nos acampamentos.
Muitas mesmo.
Homens e mulheres já aposentados, gente simples que realmente acreditava estar lutando por algo importante.
Se determinadas lideranças tivessem orientado essas pessoas a voltar para casa no momento certo, acredito que muita coisa poderia ter sido evitada.
Talvez não tudo.
Mas muita coisa.
Ana Cemin: Existe mágoa?
Bela: Houve. Não vou negar. Mas aprendi a transformar isso em outra coisa.
Hoje procuro não alimentar ressentimentos.
Até porque passar anos carregando mágoa é como continuar preso mesmo depois que a prisão acabou.
Então prefiro seguir em frente.
Ana Cemin: Depois de tudo o que aconteceu, qual a principal lição que ficou?
Bela: Que a fé precisa estar acima das circunstâncias.
Porque houve momentos em que perdi casa, estabilidade financeira, liberdade, contato com a família e praticamente tudo aquilo que considerava seguro.
Se minha fé estivesse baseada em pessoas, eu teria desmoronado.
Mas ela não estava.
E isso fez toda a diferença.
Outra lição foi entender que a verdade precisa ser mantida, mesmo quando parece custar muito caro.
Durante todo o processo eu procurei não mentir.
Não inventei versões.
Não escondi informações.
Entreguei documentos, expliquei fatos e assumi aquilo que realmente fiz.
Talvez tenha sido o caminho mais difícil em alguns momentos.
Mas foi o único caminho que me permitiu dormir com a consciência tranquila.
Ana Cemin: E olhando para trás, mudarias alguma coisa?
Bela: Algumas decisões, talvez.
Algumas estratégias, certamente.
Mas não abriria mão daquilo que acredito.
Porque existe um preço para agir e existe um preço para se omitir.
E eu sempre preferi viver com as consequências das minhas escolhas a com o peso de não ter feito aquilo que considerava certo.
Ana Cemin: E como tu defines a tua história hoje?
Bela: Como um testemunho.
Não apenas político.
Não apenas jurídico.
Mas principalmente espiritual.
Porque houve muitos momentos em que, humanamente falando, eu não enxergava saída.
E, ainda assim, as coisas continuaram avançando.
Por isso, quando olho para tudo o que aconteceu, vejo uma história de perdas, aprendizado, reconstrução e fé.
É dessa forma que escolho contar essa trajetória hoje.
Acho que hoje consigo separar melhor as coisas.
Durante muito tempo, convivi diretamente com pessoas influentes dentro da direita. Frequentei gabinetes, participei de campanhas, organizei mobilizações e mantive contato próximo com lideranças políticas.
Naturalmente, quando você passa anos trabalhando ao lado de determinadas pessoas, cria expectativas em relação a elas.
E uma das maiores lições que aprendi foi justamente não criar essas expectativas.
Eu sabia que muitas delas tinham conhecimento da situação que estávamos vivendo.
Não estou falando de obrigação jurídica ou política.
Estou falando de humanidade.
Houve momentos em que algumas pessoas sabiam exatamente onde eu estava, conheciam as dificuldades que eu enfrentava e, ainda assim, optaram por se afastar completamente.
Isso foi doloroso.
Principalmente no Paraguai.
Porque houve dias muito difíceis.
Dias em que faltava dinheiro.
Dias em que faltava comida.
Dias em que não sabíamos o que aconteceria no dia seguinte.
E, mesmo assim, muitas pessoas que conheciam a situação simplesmente desapareceram.
Ana Cemin: Tu chegastes a receber alguma ajuda?
Bela: Sim, mas em alguns casos ela veio muito tarde.
Houve situações em que determinados aliados entraram em contato quando eu já havia tomado a decisão de voltar ao Brasil.
Quando isso aconteceu, sinceramente, eu já não precisava mais.
Durante meses eu havia enfrentado tudo aquilo praticamente sozinha.
Por isso, naquele momento, aquelas ofertas perderam completamente o sentido para mim.
Ana Cemin: Tu ainda acreditas na política?
Bela: Acredito.
Mas acredito de uma forma diferente.
Antes, talvez eu acreditasse mais nas pessoas.
Hoje acredito muito mais nos princípios.
Pessoas falham.
Pessoas erram.
Pessoas mudam.
Princípios não.
É por isso que continuo defendendo as ideias em que acredito, independentemente dos nomes que estejam ocupando os cargos.
Ana Cemin: O que pensas quando olha para tudo o que viveu desde 2022?
Bela: Vejo uma sequência de acontecimentos que me transformaram profundamente.
Foi um período em que perdi muita coisa.
Perdi estabilidade.
Perdi patrimônio.
Perdi amizades.
Perdi a sensação de segurança que tinha anteriormente.
Mas também ganhei outras coisas.
Ganhei maturidade.
Ganhei experiência.
Ganhei uma compreensão muito maior das pessoas.
E fortaleci minha fé.
Ana Cemin: Existe algum momento específico nessa trajetória que não dá para esquecer?
Bela: Vários.
Alguns ficarão para sempre comigo.
A noite em que descobri que havia um mandado de prisão contra mim.
O dia em que deixei o Brasil.
A prisão da minha colega dentro do órgão de refúgio no Paraguai.
A chegada à Colmeia.
A carta que escrevi para Deus.
O momento em que recebi o alvará de soltura.
O nascimento do meu filho.
São acontecimentos que marcaram minha vida para sempre.
Ana Cemin: Tu te consideras uma sobrevivente?
Bela: Talvez.
Mas gosto mais da palavra “reconstrução”.
Porque sobreviver é apenas continuar existindo.
E eu não fiz apenas isso.
Eu reconstruí minha vida.
Reconstruí minha relação com a fé.
Reconstruí minha família.
Reconstruí minha carreira.
Ainda existem coisas sendo reconstruídas.
Sigo caminhando.
Ana Cemin: Qual a mensagem que tu queres passar?
Quando eu estava escondida.
Quando estava no Paraguai.
Quando estava na prisão.
Houve momentos em que parecia não existir saída.
Mas existia.
Às vezes ela apenas não era visível naquele instante.
Por isso digo que ninguém deveria tomar decisões baseado apenas no que está vendo naquele momento.
A vida muda.
As circunstâncias mudam.
As pessoas mudam.
E Deus continua trabalhando mesmo quando a gente não consegue enxergar.
Essa é a principal mensagem que ficou para mim.
Eu tenho esperança mais do que nunca.
Porque a esperança não está baseada em políticos, processos ou circunstâncias.
Está baseada naquilo que eu vivi.
E depois de tudo o que aconteceu, se tem algo que ninguém consegue tirar de mim, é justamente isso.
A esperança.
12. MUDANÇAS DE VISÃO SOBRE MOVIMENTOS POLÍTICOS, RESPONSABILIDADE E MILITÂNCIA.
Ana Cemin: Depois de tudo o que aconteceu, acreditas que houve uma mudança na forma como enxerga os próprios movimentos políticos?
Bela: Sem dúvida. Acho que uma das maiores mudanças foi deixar de olhar os movimentos apenas pela emoção.
Durante muitos anos, participei de manifestações, campanhas e mobilizações. Vivi intensamente tudo aquilo.
Mas depois de passar por investigação, exílio, prisão e reconstrução da vida, comecei a enxergar as consequências de forma muito mais ampla.
Hoje procuro analisar cada situação com mais cautela.
Quando estamos dentro de um movimento, muitas vezes olhamos apenas para o objetivo final.
Mas existe um caminho inteiro entre o início de uma mobilização e suas consequências.
E quem normalmente sofre mais são as pessoas comuns.
As lideranças continuam suas vidas.
Os políticos continuam suas carreiras.
Mas quem está lá na ponta, muitas vezes, é uma senhora aposentada, um pai de família, uma pessoa simples que acredita estar fazendo o melhor.
Foi isso que aprendi observando tudo o que aconteceu.
Ana Cemin: Houve ingenuidade por parte de algumas pessoas?
Bela: Sim. Muita. E houve boa-fé.
A maioria das pessoas que conheci nos acampamentos realmente acreditava estar defendendo algo importante.
Não eram criminosos.
Não eram terroristas.
Eram pessoas comuns.
Pessoas que tinham convicções e acreditavam estar exercendo um direito legítimo de manifestação.
Claro que havia grupos diferentes e pensamentos diferentes dentro dos acampamentos.
Mas a maioria era formada por gente simples.
Ana Cemin: E qual foi o impacto disso na tua vida pessoal?
Bela: Gigantesco.
Porque antes de tudo isso eu tinha uma vida relativamente organizada.
Trabalhava, participava de campanhas, mantinha minha rotina normal.
Depois vieram as investigações, o período escondida, a saída do Brasil, a prisão e toda a reconstrução posterior.
Praticamente todas as áreas da minha vida foram afetadas.
Relacionamentos.
Trabalho.
Finanças.
Família.
Saúde emocional.
Tudo.
Mas vejo isso também como um processo de amadurecimento.
Ana Cemin: Em algum momento pensastes em desistir?
Bela: Houve momentos muito difíceis.
Principalmente quando estava sozinha.
No Paraguai, por exemplo.
Ou quando estava na prisão sem saber quanto tempo tudo aquilo duraria.
Mas desistir nunca foi uma opção real.
Eu podia ficar triste.
Podia chorar.
Podia sentir medo.
Mas desistir, não.
Sempre tive a sensação de que precisava continuar caminhando.
Mesmo sem entender exatamente para onde.
Ana Cemin: O que mais te sustentou?
Bela: A fé.
Sem dúvida.
Eu sei que algumas pessoas podem achar essa resposta simples demais.
Mas foi exatamente isso.
Em muitos momentos não havia outra coisa.
Não havia garantias.
Não havia soluções à vista.
Não havia respostas jurídicas imediatas.
O que eu tinha era a fé.
E foi nela que me apoiei.
Ana Cemin: Hoje tu consegues olhar para trás sem revolta?
Bela: Consigo.
Talvez essa seja uma das maiores mudanças.
Antes eu tinha muitas perguntas.
Queria entender por que determinadas coisas aconteceram.
Porque algumas pessoas desapareceram.
Porque outras tomaram certas decisões.
Hoje não sinto mais necessidade de encontrar todas essas respostas.
Entendi que algumas coisas simplesmente fazem parte da caminhada.
E que continuar preso ao passado impede qualquer reconstrução.
Ana Cemin: Qual é o próximo capítulo da tua vida?
Bela: Continuar vivendo.
Cuidando dos meus filhos.
Trabalhando.
Participando daquilo em que acredito.
E contando minha história quando ela puder ajudar alguém.
Porque, no final das contas, tudo o que vivi só faz sentido se servir para alguma coisa.
Se puder ajudar alguém a manter a esperança num momento difícil, então tudo isso já terá valido a pena.
Ana Cemin: E quem é a Bela de hoje?
Bela: Uma mulher muito mais forte.
Não porque seja melhor do que antes.
Mas porque foi obrigada a atravessar situações que jamais imaginou viver.
Quando você perde a liberdade, recomeça do zero, vê sua família sofrer e precisa reconstruir cada parte da própria vida, inevitavelmente muda.
E eu mudei.
Ana Cemin: O que tu gostarias que teus filhos compreendessem quando lessem esta história no futuro?
Bela: Que a dignidade vale a pena.
Que a verdade vale a pena.
Que a fé vale a pena.
Mesmo quando tudo parece difícil.
Mesmo quando você não consegue enxergar resultado imediato.
Porque existem momentos da vida em que a única coisa que ninguém consegue tirar de você é aquilo em que acredita.
E isso faz toda a diferença.
Ana Cemin: Há algo que tu gostarias de acrescentar?
Bela: Apenas agradecer.
A Deus.
À minha família.
Às pessoas que me ajudaram quando eu não tinha nada.
E às pessoas que me decepcionaram.
Porque elas me ensinaram lições importantes.
Hoje não guardo ódio de ninguém.
Apenas sigo em frente.
Ana Cemin: Valeu a pena contar essa história?
Bela: Valeu.
Porque durante muito tempo as pessoas ouviram versões sobre mim.
Agora tiveram a oportunidade de conhecer a minha versão.
E isso, para mim, já é suficiente.


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