Ana Maria Cemin – 16/09/2026
O que conto nesse texto é uma parte ínfima do drama de duas pessoas do 8 de janeiro que de manifestantes foram alçadas à criminosas pela Procuradoria Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal. Suas as ações penais são de número 2285 e 2005. São públicas.
O primeiro caso encerrou com a morte em 3 de março desse ano, quando o ministro Alexandre de Moraes extinguiu a punibilidade de Flávia de Medeiros Ardovino Rosa, que hoje teria 46 anos, devido ao seu falecimento no Hospital Pró-Cardíaco de Botafogo, Rio de Janeiro. Morreu por complicações do coração. A segunda história é de Rodismar Regasse Liro, 56 anos, uma pessoa portadora de autismo, atraso mental, hipertensão, diabetes, dentre outros problemas da saúde. Ele reside na Comunidade Chico Mendes, em Costa Barros, num quartinho cedido por terceiros. A Comarca do Rio de Janeiro informou que Liro cumpriu tudo que foi exigido da pena imposta pelo STF, porém não consegue pagar a multa de mais de R$ 14 mil imposta a ele como parte da pena. A defesa informou que ele sobrevive com a bolsa família no valor de R$600,00, porém tanto a PGR quanto o STF não isentaram o autista da multa. Se ele não cumprir essa parte da pena, pode retornar ao presídio. Crime: participar da manifestação em Brasília.
Tanto a trajetória da falecida Flávia quanto de Rodismar, um homem com transtornos psiquiátricos, expõe um lado pouco conhecido dos processos judiciais relacionados ao 8 de janeiro. O sofrimento silencioso, a desinformação, a demora processual e o impacto direto na saúde e na vida de pessoas vulneráveis.
Esses casos chegaram a mim por outra presa política do Rio de Janeiro, que conviveu com Flávia no fórum, ajudou Rodismar em suas necessidades básicas e testemunhou de perto o peso das decisões judiciais sobre pessoas que não tinham estrutura para suportá-las.
QUEM ERA FLÁVIA
Flávia era uma mulher simples, dedicada ao cuidado da mãe idosa, que raramente viajava e vivia uma rotina de responsabilidade familiar. Em janeiro de 2023, decidiu embarcar em um ônibus gratuito que saía da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, rumo a Brasília. A viagem, segundo ela, era uma oportunidade de ver o tio e descansar um pouco da rotina pesada.
Seu depoimento à Polícia Federal no Rio de Janeiro mostra claramente que ela não tinha papel de liderança, organização ou incitação. Era uma pessoa comum, que chegou ao acampamento do QG do Exército sem planejamento e sem envolvimento com qualquer estrutura criminosa.
✦ Depoimento oficial de Flávia à Polícia Federal
“Eu cheguei a Brasília umas duas e meia da manhã do dia 8, foi uma oportunidade… falaram que havia ônibus saindo aqui do Rio de Janeiro para Brasília… eu tenho parentes em Brasília, era uma oportunidade… não tinha pretensões… queria ver o meu tio… havia muito tempo que não viajava, ficava só cuidando da minha mãe, que é idosa… eu fui para esses ônibus que estavam sendo de graça, estavam saindo aqui da Central do Brasil… disseram que tinha um lugar para ficar no QG… fui dormir numa lona… umas 7 da manhã… fui na loja… comprar uma barraca… voltei para o QG… não deu tempo ver meu tio… só fiquei no QG mesmo… tinha alimentação… era gratuita… tinha algumas pessoas querendo ajuda militar… para verificação de propostas, da situação em si… tinha algumas pessoas ali dentro que estavam instigando para ir nas manifestações…”
Esse depoimento revela uma mulher que estava no local, mas não descreve qualquer participação ativa em atos violentos ou coordenados.
A PRISÃO E A EXECUÇÃO PENAL
Flávia foi presa no dia 9 de janeiro de 2023, no acampamento do QG, e posteriormente condenada pelo STF por organização criminosa e incitação ao crime. Em 5 de setembro de 2025, passou a cumprir execução penal, sendo que desde janeiro de 2023 usava tornozeleira eletrônica e vivia com diversas restrições.
Essas restrições tiveram impacto direto em sua saúde. Flávia sofria de problemas cardíacos graves e precisava realizar exames, consultas e tratamentos contínuos. No entanto, segundo relatos, as autorizações judiciais demoravam, impedindo que ela desse continuidade aos cuidados necessários com a sua saúde. A tornozeleira também dificultava deslocamentos, procedimentos médicos e até internações.
O AGRAVAMENTO DA SAÚDE E A MORTE
Com o passar dos meses, o quadro cardíaco de Flávia se agravou. O estresse da condenação, a vigilância constante, a burocracia para acessar cuidados médicos e a pressão psicológica contribuíram para o declínio acelerado de sua saúde.
Ela faleceu em 27 de fevereiro de 2026, no Hospital Pró‑Cardíaco, em Botafogo, Rio de Janeiro — antes mesmo de conseguir retirar a tornozeleira eletrônica. A certidão de óbito registrou diversas comorbidades que, somadas, levaram ao óbito.
A sobrinha de Flávia ligou para a minha fonte, que prefiro preservar, para avisar sobre a morte. Minha fonte esteve presente no sepultamento e conheceu a família, que relatou o sofrimento vivido nos anos anteriores. “Esse sofrimento foi demais. A gente perdeu a Flavinha”, relata.
Flávia morreu sem ver qualquer revisão de sua condenação, sem ter acesso pleno ao tratamento médico necessário e sem conseguir exercer a sua defesa de forma adequada.
O CASO DE RODISMAR: VULNERABILIDADE IGNORADA
Enquanto Flávia enfrentava problemas cardíacos, outro caso se desenrolava no Rio de Janeiro: o de Rodismar, um homem com transtornos psiquiátricos que também foi envolvido nos processos do 8 de janeiro.
Rodismar foi condenado a prestação de serviços comunitários, que cumpriu corretamente. No entanto, recentemente, o ministro Alexandre de Moraes passou a cobrar dele uma multa de mais de R$ 14 mil — valor completamente incompatível com sua realidade financeira.
O mais grave: Rodismar não sabia que havia sido condenado. Ele só descobriu por que a minha fonte monitora os processos de vários detidos e o avisou.
“Foi uma luta. Ele não sabia de nada. Eu ajudei o Rodismar por algum tempo, a Dra. Tanielli Telles também, com cesta básica, remédios. Ele não tem condições de pagar essa multa.”
Mesmo que Rodismar viva em situação de vulnerabilidade extrema, sem estrutura emocional, financeira ou jurídica para lidar com o processo, ainda assim o ministro Alexandre determinou nos autos, no dia 25 de agosto, que seja mantida a multa.
Flávia morreu esperando justiça.
Rodismar luta para sobreviver a ela.
OS OUTROS DEZ FALECIDOS
1. Antônio Marques da Silva
Operador de máquinas em Barra do Garças (MT). Morreu em 29/10/2023 após cair de um telhado enquanto fazia um “bico”. Com tornozeleira, não podia trabalhar na profissão original.
2. Clériston Pereira da Cunha
Morreu em 20/11/2023 dentro da Papuda. O Ministério Público já havia pedido sua liberdade provisória, não atendida pelo ministro Alexandre de Moraes. É o caso mais emblemático.
3. Giovanni Carlos dos Santos
De São José dos Campos (SP). Morreu em 24/01/2024 ao cair durante um serviço temporário de corte de galhos. Usava tornozeleira e tinha restrições de trabalho.
4. Eder Parecido Jacinto
Caminhoneiro. Após cair do próprio caminhão no fim de 2023, desenvolveu complicações graves: fratura, problemas renais, hemorragia, falência hepática. Morreu em 02/03/2024 após semanas de internação.
5. Kleber Freitas
Preso no QG de Brasília em 09/01/2023. Encontrado morto na casa dos pais em Borrazópolis (PR) em 10/05/2024. Sentia‑se injustiçado pelo tratamento dado aos manifestantes.
6. Jony Figueiredo da Silva
Morreu em 27/09/2024 por parada cardiorrespiratória e edema pulmonar. Usava tornozeleira e comparecia regularmente ao fórum. Foi preso no QG e levado à Papuda.
7. Marco Aurélio
De Cuiabá (MT). Faleceu em abril de 2025, vítima de leucemia. Respondia à Ação Penal 1538 e havia firmado ANPP em agosto de 2024.
8. José Fernando Honorato Azevedo
Policial federal aposentado. Morreu em novembro de 2025 após três anos de deterioração física e financeira: prisão preventiva, cautelares rígidas, bloqueio de bens, internações sucessivas.
9. Cláudio Fernando Gonçalves
Capixaba de Pancas (ES). Morreu em 10/02/2026 após acidente de trabalho que fraturou uma vértebra do pescoço. Ficou 50 dias na UTI. Era réu na AP 2214/DF e havia sido condenado a 13 anos e 6 meses.
10. José Éder Lisboa
Morreu em 28/03/2026 na Argentina, onde vivia exilado desde 2023. Condenado no Brasil, estava em estado gravíssimo. O caso foi relatado pelo Bureaucom.
11. Ronaldo Edison Richard
Gaúcho de Santa Rosa, morreu em 10 de agosto de 2026, aos 63 anos, enquanto ainda respondia a uma ação penal na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. Nunca esteve em Brasília. Mesmo assim, por ter ajudado a organizar ônibus que levariam manifestantes ao ato de 8 de janeiro de 2023, a Polícia Federal esteve em sua casa em 8 de janeiro de 2024, cumprindo busca e apreensão que resultou em seu indiciamento como financiador de um golpe de Estado que jamais ocorreu.
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