Ana Maria Cemin – 01/06/2025
“Sou uma das perseguidas políticas do 08/01 e me senti obrigada a fugir do Brasil para me refugiar na Argentina. Eu estava indignada com tudo que aconteceu conosco depois de Brasília. Chegando aqui, após analisar a situação percebi que não seria nada fácil sobreviver num país estranho, com língua e cultura diferentes, com hábitos e costumes não familiares, e ainda ter que suportar a humilhação e o descaso para conseguir um trabalho.
Quando completei quatro meses de Argentina, surgiram as primeiras prisões de brasileiros refugiados por aqui. Foram cinco prisões e estas pessoas continuam presas até agora. Isso gerou muito medo, insegurança e então comecei a pensar em um segundo plano: imigrar para os Estados Unidos.

A minha intenção era fazer isso de forma legal, por meio do CBP ONE, um aplicativo criado pelo governo Biden, dos Estados Unidos, para facilitar a entrada legal de migrantes no país. Ainda em território mexicano, as pessoas preenchiam o formulário e solicitavam um agendamento para se apresentarem nos postos de entrada da fronteira.
Essa era a minha perspectiva até então.
Por não ter passaporte, percorri a rota mais perigosa do mundo, a floresta de Darién, onde matam, estupram, sequestram, roubam, mas graças a Deus nada me aconteceu, mas presenciei coisas terríveis e absurdas.
Para chegar ao México, atravessei dez países em dois meses e enfrentei muitas dificuldades. Quando cheguei, o Trump cancelou a CBP ONE com o objetivo de restringir a entrada de imigrantes.

Fiquei sem opção alguma de entrar, então resolvi retornar para a Argentina, mas não pelo mesmo caminho, porque a experiência de Darién foi muito dolorida e traumática.
O que eu não sabia era que a volta seria muito pior: na travessia entre Panamá e Colômbia peguei uma lancha ilegal com 27 imigrantes e ficamos cerca de oito horas em mar aberto. Passamos horrores! Segurança zero! Jamais senti tanto medo e a cada onda forte sentia as batidas do corpo naquela pequena embarcação, eram dores fortes, muitos gritavam de dor, algo indescritível. E foram horas intermináveis em mar aberto. Ao concluir a travessia senti novamente que sobrevivi a algo muito perigoso. Se a embarcação virasse, todos nós morreríamos e nossos familiares jamais saberiam.
Ao todo, levei 33 dias terríveis para voltar do México para a Argentina. Passei fome e sede, fiquei sem banho por dias, dormi na rua e na beira de rodovias. Estava totalmente vulnerável, dependendo da ajuda de amigos e familiares.
Eu tinha em mente que não seria fácil chegar até o México, mas eu tinha uma motivação e a esperança de encontrar um abrigo nos Estados Unidos. Tudo deu muito errado e a volta se revelou de muito sofrimento, angústia, ansiedade e, principalmente, vivi intensamente a incerteza de conseguir chegar.

Sobrevivi e estou de volta ao refúgio na Argentina com documentos em dia. Estou aqui aguardando a justiça de Deus, que me brindou e me livrou dos piores perigos que se possa imaginar. Hoje sei que não deveria ter saído daqui (Argentina), pois não podemos confiar em políticos, não podemos colocar o nosso futuro nas mãos do homem. Por mais desafiadora que seja a Argentina para nós, que vivemos no autoexílio, temos aquela sensação de estarmos perto de casa, somos mais acolhidos. Essas são as conclusões depois de passar por diversos países como imigrante. Aqui trabalho é raro e difícil e ainda tem quem queira se aproveitar da nossa situação para escravizar, infelizmente. Também sofremos com o custo de vida ser muito caro. Quando retornei para cá, precisei de ajuda e fui muito bem acolhida. E ficou a lição: às vezes reclamamos de onde estamos, mas há coisas muito piores a serem vividas para quem está fora de sua pátria.”
Edilaine da Silva Santos, 38 anos, estava em Brasília em 8.01.2023, acampada no QG em frente ao Exército. Foi presa e levada junto com mais de 2 mil pessoas e ficou dentro do Presídio Colmeia até o dia 20.01.2023. Mãe de um garoto de 16 anos que está aos cuidados de seus pais, ela sonha em voltar para o Brasil, para Birigui, SP, sua casa.
Durante um ano e meio utilizou uma tornozeleira eletrônica na perna que a monitorou 24 horas por dia e cumpriu uma série de restrições de liberdade, como não se ausentar da comarca, ficar dentro de casa à noite e finais de semana, assinar no fórum toda a segunda-feira.Com todos esses limites, teve prejuízo no seu comércio de calçados e se desfez do mesmo.

Em meados de 2024,antes mesmo das pessoas presas no QG serem julgadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de associação criminosa e incitação ao crime, dos quais foi acusada pela Procuradoria-Geral da República (PGR),Edilaine saiu do Brasil. Optou em não fazer o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), pois muitos fizeram e depois do acordo cumprido o acordo foi revogado, com o processo voltando à estaca zero, com a volta do uso de tornozeleira e, ainda, continuidade da ação penal.
Por esses receios, chegou em junho na Argentina e imediatamente deu entrada no pedido de refúgio. Até hoje não teve emprego regular e acredita que um dos motivos da dificuldade de achar trabalho é o fato de utilizar um documento de refugiada. Há preconceito em relação a pessoas como ela, segundo o seu entendimento.
Em 18.11.2024, depois das prisões de cinco presos políticos brasileiros refugiados na Argentina, ela rumou para o Chile cujo destino eram os Estados Unidos.
Passou por alguns países que a ONU e a ONG ACNUR ofereciam ajuda humanitária. Ela conta que os integrantes da ONU levavam os imigrantes de um país a outro em segurança (Panamá, Costa Rica e Honduras). Nicarágua é um caso diferente, não tem ONU, então a travessia foi feita num barco no breu da noite, seguindo o caminho com imigrantes de todas as nacionalidades que estavam vivendo o mesmo sonho de entrar nos Estados Unidos.

Nas bases da ONU e na ACNUR, Edilaine e os demais imigrantes encontravam um lugar para dormir, tomar banho, comer e ainda recebiam um kit para higiene, além de atendimento médico e psicológico. Inclusive após sair da floresta de Darién foi atendida na ONU do Panamá.
Somente em 18.01.2025 a presa política brasileira conseguiu chegar no México. O plano de entrar de forma legal nos Estados Unidos foi frustrado dois dias depois, com o Trump determinando o fim da entrada dos imigrantes. O fato é que outros presos políticos conseguiram entrar através do CBP ONE e estavam bem. Ela sabia que a viagem não seria em vão se não fosse a política imigratória ter mudado radicalmente em meados de janeiro, mas saber isso não ajudou em nada o que veio depois.
Na sequência, soube da prisão de quatro presas políticas brasileiras que saíram da Argentina como ela com a intenção de entrar nos Estados Unidos: Michely Paiva Alves, Raquel de Souza Lopes, Rosana Maciel Gomes e Cristiane da Silva.
A prisão das quatro mostrou o fim do sonho que a impulsionou a chegar nos Estados Unidos. Permanecer no México estava fora de questão, por ser um país inseguro, e então começou a preparação do roteiro de volta para a Argentina. Somente no começo de março conseguiu sair do México, porque a realidade de volta era outra, não se tinha mais ajuda.
Edilaine conta que alguns países que ofereciam ajuda humanitária com voos, mas seria somente para o país de origem (Brasil), lugar para onde ela não poderia retornar por ser uma presa política. Na volta, ela contou com pouquíssimas ajudas da ONG ACNUR, em geral kits higiênicos, um pão com café, médico, psicológico, remédios e palavras de conforto. Isso porque, com a proibição da entrada de imigrantes nos Estados Unidos, as pessoas não tinham mais motivo para imigrar e a maioria das ONGs encerram o serviço humanitário.
As travessias nas fronteiras foram muito complicadas e na maior parte das vezes Edilaine desviou o caminho para não passar pela imigração. Viveu experiências de fome, sede, falta de banho e teve noites dormidas em rodovias e em rodoviárias.
Em abril, de volta à Argentina, Edilaine guarda essas lembranças recentes, vívidas e sofridas, de ser maltratada e malvista, e repete para si “o que não é bênção é lição”.

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