“CAÍMOS NUMA ARMADILHA DA ESQUERDA”

Ana Maria Cemin – Jornalista

16/02/2024 – (54) 99133 7567

Na noite de 15 para 16 de fevereiro, Simone soube de sua condenação a 14 anos de prisão, dada pelo ministro Alexandre de Moraes.

Uma das últimas fotos de Simone com os dois filhos, antes de Caio falacer.
Simone orgulhosa com os seus dois filhos: “debaixo de suas asas”.

“A infraestrutura do acampamento em Brasília era muito boa, com barracas para alimentação para todos os acampados, além do ambiente ser muito colaborativo, com todo mundo se ajudando. A presença de muitos idosos passava a sensação de estarmos num movimento muito pacífico”, relata.

“Nós estávamos no QG e o presidente Jair Bolsonaro nos chamou para ir até a casa dele, exatamente no dia da diplomação do presidente Lula. Penso até que foi intencional para que ninguém do QG fosse para a Esplanada criar alguma confusão. É a minha opinião. Ficamos lá durante todo o dia”, diz a publicitária.

“No dia 10 de dezembro, começou a chegar uma gente muito estranha no QG, que não tinha o mesmo jeito de falar dos patriotas. E chamavam os patriotas a adotar atitude violenta em função da prisão do índio. A reação dos patriotas era negar aquilo, por ser errado. Mas o fato é que tinha uma multidão acampada em Brasília e tinha os incitadores. A gente desconfia que foram infiltrados, porque uma pessoa que ama a sua pátria age de acordo com a Constituição jamais iria quebrar o patrimônio”, avalia.

“Entre nós tinha muitos senhores e senhoras, não faria qualquer sentido o nosso grupo ser autor de tais crimes, porque nem fisicamente seriam capacitados a fazer aquele tipo de ato. Até mesmo as mídias mostraram muitas imagens com black blocs fazendo as ações de depredação naquele dia. Eu me sentei perto de um shopping com outras pessoas, pedindo a soltura do índio e, depois, voltei para o QG. Depois do dia 12 tive a certeza de que aquelas pessoas estranhas que tinham chegado no dia 10 não eram as nossas pessoas, porque elas simplesmente sumiram depois da depredação. Vieram com uma missão, executaram e foram embora”. narra.
Simone é capelã hospitalar. Com a prisão, descobriu que quer ser capelã prisional também.

“Quando a gente soube disso, logo pensou que tinha alguma coisa errada acontecendo, inclusive com registro de votos depois das 11 horas da noite. No dia da apuração, um argentino chamado Fernando Cerimedo fez uma live, afirmando que as urnas mais antigas não poderiam ser auditadas, e justo nessa hora mudou a mensagem no site do TSE”, comenta Simone.

“Não era isso que estávamos buscando; queríamos a transparência das eleições e estávamos em frente dos quartéis pelas razões que já expliquei. Desde a campanha tudo indicava erro nas eleições, como a distribuição das campanhas nas rádios de forma desigual, o que também sinalizava com alguma possibilidade de anulação do pleito”, diz ela.

“Penso, no entanto, que o direito de expressar a sua vontade é de cada um. Estávamos nos manifestando num mesmo local, com visões diferentes, sem um líder. As pessoas subiam no caminhão do som e falavam o que queriam e, talvez por isso, vivemos uma bagunça de informações naquele início de janeiro. Tinha muita gente no 8 de janeiro e algumas eram esquisitas, sem nenhum jeito de patriota. Com gírias estranhas. O discurso era de patriota, mas era fácil perceber que não eram”, relata.

“Quando acordei, vi no Instagram uma postagem com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha Barros Junior, afirmando que a Esplanada estava pronta para receber a manifestação pacífica. Foi então que decidi ir. Eu não iria por saber que a autorização para ir à Praça dos Três Poderes não era para domingo, mas para segunda-feira ou terça-feira. E toda manifestação precisa ter prévio aviso e consentimento, até porque precisa de todo um aparato de segurança. O post do Ibaneis foi uma garantia de ordem no local”, relembra.

“Pensei comigo: Está tudo certo! Nesse momento uma amiga ligou e disse que estava com o meu carregador de celular e me chamou para ir até a frente da bandeira do Estado do Rio Grande do Sul. Subi e encontrei ela, então ficamos conversando um bom tempo e ela falou que estava com um pouco de medo. Eu disse que poderia ir comigo até o meio da manifestação, mas ela preferiu não ir por cautela”, relata.

“Eu estava com o celular gravando tudo aquilo, fazia live e colocava no Instagram, quando a conexão da internet estava melhor. Gravei o STF todo cercado e as bombas sendo jogadas em nós. Me desloquei até o Palácio do Planalto para gravar mais um pouco e depois pensei em voltar o mais rápido possível ao QG”, recorda.

“Lá na rampa acreditava que os policiais dos helicópteros não jogariam bombas, mas começaram a tacar bombas na rampa também e achei que ela cederia, que todos nós cairíamos”, diz Simone, revelando o forte o instinto de sobrevivência. “Um senhor fardado, que estava próximo a mim, disse para eu entrar no Palácio do Planalto e me sentar lá dentro. Afirmou que o Exército Brasileiro estava lá dentro para proteger as pessoas. Acreditei e entrei”, relata.

“A Polícia de Choque entrou de forma agressiva, falando muitos palavrões. E eu pensava…Será que o Choque está falando com a gente mesmo? Não pode ser! Fomos chamados de terroristas e outras tantas coisas mais, nos trataram como se fôssemos criminosos. Aliás, nem quem comete crime hoje no Brasil é tratado daquela forma. Enquanto éramos tratados aos gritos, eu olhava para os lados e só via gente idosa e pacífica por ali. Não tinha o menor sentido o que estava acontecendo”, narra.  

“A gente percebia que do lado de fora do Palácio tinha uma guerra e nós caímos na armadilha. Éramos pessoas corretas e nos foi ensinado a confiar na polícia, então foi fácil nos enganar. Em primeiro lugar, eu confiei no convite feito pelo govenador do DF pelas mídias sociais para uma manifestação pacífica. A minha leitura era de que seríamos protegidos se participássemos dos atos, que os policiais impediriam qualquer tipo de ato agressivo para que a nossa manifestação acontecesse. Tudo estava invertido naquele momento”, conta Simone.

“Quem viveu a experiência não tem qualquer dúvida que caiu numa armadilha da esquerda, tanto que o relatório da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que Alessandro Moretti tinha feito, e que o Lula mandou embora, responsabiliza o governo pelo 8 de janeiro. Nós chegamos a essa conclusão dentro do Presídio Colmeia. Eu tive voz de prisão dentro do Palácio do Planalto, com outras mais de 200 pessoas, depois de ser convidada por uma pessoa fardada para entrar e me proteger das bombas.

Todas as pessoas que estavam ali eram pacíficas e, além de bater na Daniela, o Choque bateu num outro rapaz que disse que não éramos terroristas. Esse patriota foi arrastado por cima de algumas senhoras que acabaram sendo machucadas. Bateu também num senhor que estava do meu lado por ele estar enviando mensagem de celular. Deram dois chutes nas costelas dele, pisaram no celular dele. Nessa hora fomos obrigados a guardar as nossas bandeiras do Brasil. Os policiais pisavam na Bandeira do Brasil sem qualquer respeito ao símbolo de nossa pátria.

Começaram a nos algemar, mas tinha no máximo 20 algemas. Eu seguia com a minha consciência tranquila. Não acreditava que algo ruim aconteceria comigo. Prenderam as minhas mãos com enforca gato e todos nós fomos levados para cinco ônibus, com capacidade para 50 pessoas, com pessoas sentadas no chão, inclusive. Dois policiais iam conosco e aí vem uma pergunta: dois policiais iriam tranquilamente dentro de um ônibus com 50 pessoas violentas: Não, jamais!”, conclui.

“Possivelmente porque estavam acreditando na narrativa de que éramos terroristas e que estávamos fazendo um golpe de estado, como os veículos de Comunicação estavam divulgando. Só que para ter golpe de estado é preciso ter uma instituição liderando, alguém para colocar no lugar e uma tropa armada. Não foi o caso”, diz Simone, e continua: “Outra acusação é de abolição do Estado Democrático de Direito, outro absurdo porque nós estávamos nos manifestando justamente fazendo valer o nosso direito Constitucional.”

“Do nada fomos levadas presas às 3 horas da madrugada do dia 9 de janeiro. Tínhamos que ficar nuas e abaixar três vezes de frente e três vezes de costas. Abrir as pernas para ver se tinha alguma coisa escondida. Depois entregaram uma roupa sujas, mofadas e furadas, cheirando mal. Muitas senhoras e senhorinhas choravam muito naquele momento, então eu tentava acalmar dizendo que estava tudo bem, que a gente sairia logo, após tudo esclarecido. Se para mim foi traumatizante, eu fico imaginando para uma avó de 60 e 70 anos que foi presa”, relata.

“Foi terrível chegar naquele corredor horrível, que lembrava cenas de filmes que você pensa nunca ter que viver, como “A espera de um milagre” ou “Milagre na Cela 7”. Uma pessoa que sempre viveu com honestidade, lutou pelo bem e sempre foi justa jamais espera chegar num lugar assim e passar por aquilo”, lamenta.

“Esse momento do corredor do Presídio Colmeia só não foi pior do que a morte do meu filho, mas foi bem traumatizante. Abriram aqueles portões de ferro e nos levaram para uma ala imunda e fedorenta. Nós estávamos há muitas horas sem poder ir ao banheiro e quando fomos usar o vaso estava totalmente entupido. Tivemos que tirar de cinco a seis sacos de cocô de dentro do vaso antes de usar.

Quando entramos na cela, ganhamos colchão novo e descobrimos que eles foram comprados poucos dias antes. Até entregamos as etiquetas para os parlamentares que foram nos visitar para mostrar que era verdade o que contamos a eles. E até mesmo conversando com as próprias internas do presídio a gente concluiu que foi tudo armado para a gente estar lá. Na véspera, trocaram de ala algumas presas, outras criminosas foram liberadas, só para a gente poder entrar.”

“Ao chegarmos às 3 horas da madrugada, dormimos um pouquinho e, por volta das 7 horas da manhã, começaram a chegar mais mulheres que foram presas no Planalto e no Senado. Só no dia 10 de janeiro, começaram a chegar as mulheres presas no QG.

Passamos muita fome no presídio e nem colher para comer nos forneceram nos primeiros dias; usávamos a mão. Tínhamos dois vasos sanitários usáveis e um chuveiro para 137 mulheres. Num único tanque a gente lavava roupa e toma água. Aquela era a única fonte de água que tínhamos e saía escura da torneira.

Com a chegada dos advogados, passamos vergonha por estarmos sem calcinha e sem sutiã, vestindo roupas usadas e surradas. E, para piorar, a policial brigava conosco por não termos sutiãs. Não tínhamos por que tiraram de nós. Então pegamos os sacos dos colchões novos e amarramos no peito improvisando sutiãs. Foi a forma de passar pelos policiais sem sermos novamente humilhadas e criticadas.”

“Dentro do presídio comemos comida azeda e com bicho. Nos entregavam uma pasta que depois descobrimos que era resto de gordura com outros produtos que não era carne, mas foi servido como se fosse. O arroz e o feijão chegavam crus e com cabelos, bichos, pedaços de luvas e cacos de vidro. Era um horror, não tem nem como descrever. Isso tudo somado fez com que as senhoras passassem muito mal, seja pelas condições de higiene, pela água suja que éramos obrigadas a tomar por ser a única possível, tinham diarreia. Também foi comum as mulheres vomitarem muito naqueles primeiros dias em decorrência dos gases respirados na Praça dos Três Poderes, inclusive com sangue”, lembra.

“Dentro do presídio Colmeia, a gente conversou muito. Tinha gente que esteve dentro do prédio do Supremo Tribunal Federal e a polícia olhou os infiltrados quebrando, mas somente os patriotas tentaram defender o patrimônio público.
Como as pessoas comuns, como nós, poderiam conter aquilo tudo se a polícia estava parada olhando, sem agir?
Essas pessoas violentas estão acostumadas a fazer aquilo. Não eram pessoas da nossa índole. Muito parecido com as invasões e quebra-quebras do Movimento dos Sem-terra (MST) e dos Black Blocs. Nada parecido com o movimento patriótico de direita. São pessoas sem medo e sem dó de quebrar”, reclama, com justa indignação.

5 comentários sobre ““CAÍMOS NUMA ARMADILHA DA ESQUERDA”

  1. José Carlos Marcondes

    Chegamos onde mesmo a maioria das pessoas mais conscientes não acreditava que chegaríamos tão cedo a 30% disso ,patriotas inocentes tratados como bandidos e bandidos soltos com outros privilégios,inclusive de sair logo após cometer um crime ,pra mim essa armação impiedosa e maligna é um crime ediondo brutal que está sendo normalizado.

  2. Ediana Oliveira Assad

    Muito triste.
    Vejo nisso tudo, que eu poderia estar lá e ser como estes, empurrada a essa armadilha.
    No mundo e no nosso país a lei humana, cada dia mais, é injusta e mentirosa.
    Mas há um Deus justo e a Sua justiça é certa.

  3. LEONISSON FERNANDEZ FERREIRA GOMES

    STF DONO DE TODO CARTEL DA CORRUPÇÃO DESSE PAÍS BEM ABAIXO DOS EXCREMENTOS DA COVARDIA DESUMANA, DA CANALHICE SOBERBA, EM BUSCA DO PODER EM AMOR A RIQUEZA ILÍCITA !! SÃO DEMÔNIOS, BÁRBAROS ASSASSINOS GENOCIDAS, LÓGICO COVARDES, SEUS ALIADOS SÃO COMPRADOS PELO DINHEIRO DOS IMPOSTOS DO POVO !! E AS FAA SÃO O PRINCIPAL APOIADORES DO REGRESSO DO DESGOVERNO COM IMPLANTAÇÃO DO COMUNISMO GENOCIDA !! E AGORA O STF É O DONO DO CRIME SEM LEI !! O CRIME É A LEI !! E A LEI É O CRIME !! …POVO VAMOS PRA RUA !!

  4. OXIURANOS

    Um Horroroso, Tenebroso,Imundo, Holocausto ao Povo Brasileiro, Um Ato TERRORISTA Monstruosamente, a Nível da Alemanha Nazista!!

    Juro,com 68 anos,me sinto acabado por tudo isso ao meu povo e a Nossa Nação,pesadelo de terror fato nunca vivido pelo povo Brasileiro!!

    Todos os Autores Deste Genocídio Teram Que Ir Pra Um Paredão, e Fritado Com Uma Grande Rajada de Tiros de Fuzil Automático, 338 Lapua Magnum,no minimo,

    Ter os Bens Confiscados, e Suas Famílias,Degredadas do Brasil!! Nem como cadáveres merecem o Solo Brasileiro!!

    Pobre Senhora e os Demais…Que Deus na Sua Infinita Misericórdia,Sempre se Faça Sobre Todos os Acometidos Por Tamanho CRIME de Guerra e Terror, Jamais,Impresquitivel!!

  5. SUSANA PRIETO

    Conheci a Simone, quanta tristeza estamos vivendo. Parece mentira que tudo isso aconteceu e continua acontecendo em nosso país . Quando isso tudo vai acabar e quando será feita a justiça aos patriotas que tanto sofreram na prisão e hoje sofrem por essas condenações absurdas? Deus tenha misericórdia do Brasil e dessas pessoas que nada fizeram de arradocpara passarem por tudo isto.

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