Ana Maria Cemin – 4/11/2026
Durante cerca de meia hora, na manhã desta quarta-feira (4), Dona Maria Aparecida dos Santos, 73 anos, servente de escola aposentada que vive com um salário mínimo, em Belo Horizonte, MG, chorou ao relatar a situação de seu filho, Esdras Jonatas dos Santos, 38 anos, detido nos Estados Unidos.
A prisão ocorreu há sete meses. Desde então, Esdras aguarda uma definição das autoridades migratórias americanas enquanto permanece sob custódia do ICE (Immigration and Customs Enforcement), órgão federal responsável pela aplicação das leis de imigração e alfândega nos Estados Unidos, além de atuar em detenções, deportações e investigações relacionadas a crimes transnacionais.
Segundo a mãe, Esdras deixou o Brasil acompanhado da esposa e do filho pouco depois dos acontecimentos de 8 de janeiro. Ela afirma que a decisão não teve relação com presença dele em Brasília, mas com o fato de participar das manifestações realizadas em frente à 4ª Região Militar, em Belo Horizonte, nas proximidades da Avenida Raja Gabáglia, no início de 2023.
A vida no autoexílio trouxe consequências duras. O casamento terminou, as dificuldades financeiras se agravaram e Esdras chegou a enfrentar períodos sem moradia.
“Faz quase quatro anos que não abraço meu filho. Antes de ser preso pelas autoridades americanas, ele me ligava com frequência e dizia que tinha vontade de voltar para o Brasil. Agora ele me liga de dentro do ICE, mas as conversas são rápidas por causa dos custos. Tudo custa dinheiro, e ele vive de doações”, conta Dona Maria.

De acordo com ela, tanto Esdras quanto sua ex-esposa deixaram de regularizar a situação migratória nos Estados Unidos. Os dois estão presos, enquanto a criança permanece sob os cuidados de uma conhecida, longe dos familiares.
Diante da situação, Dona Maria contratou o advogado David Alaila, da Rondon Law Firm, na Flórida.
“Recebo apenas um salário mínimo e assinei um contrato de US$ 10 mil para que ele cuidasse do caso do meu filho. Estamos conseguindo pagar em parcelas, por meio de campanhas de arrecadação, mas ainda faltam US$ 2 mil. Só quero que consigam tirá-lo da prisão para que possa tentar o asilo nos Estados Unidos em liberdade”, afirma.
Uma amiga próxima de Esdras, que vive nos Estados Unidos e acompanha sua trajetória há anos, descreve-o como uma pessoa que batalhou intensamente para melhorar de vida e conquistar estabilidade financeira.
Segundo ela, no período pós-eleitoral de 2022, Esdras passou a participar dos movimentos de contestação ao resultado das eleições. A amiga afirma que ele chegou a solicitar autorização à Prefeitura de Belo Horizonte para instalar um acampamento em frente ao quartel do Exército.
“Era um cidadão pacífico que participava das manifestações juntamente com outras pessoas. Muitas vezes estava acompanhado do filho pequeno, que na época tinha entre sete e oito anos. Ele lia a Bíblia, cantava, orava e explicava aos participantes os motivos da manifestação. Como era muito carismático, atraía bastante gente”, relata.
A amiga afirma ainda que, posteriormente, surgiram acusações de que Esdras teria agredido um repórter e se apropriado de uma câmera durante um episódio ocorrido em uma das manifestações.
“Todas as pessoas que estavam no local desmentiram isso. Mesmo assim, as imagens divulgadas fizeram muita gente acreditar que era ele na gravação, quando não era. Esdras apareceu chorando depois que toda a estrutura do acampamento foi desmontada sob a alegação de que ele estaria ocupando o espaço de forma irregular, apesar de possuir autorização”, afirma.
Após os acontecimentos de 8 de janeiro, embora não tenha estado em Brasília, Esdras decidiu deixar o país e solicitar asilo nos Estados Unidos. Segundo a amiga, pouco depois de sua saída, sua residência em Belo Horizonte teria sido alvo de uma operação para cumprimento de mandado de prisão.

Ela afirma ainda que, sempre que Esdras tentava iniciar algum negócio nos Estados Unidos, terceiros enviavam mensagens a comerciantes locais, dificultando a continuidade de suas atividades e obrigando-o a recomeçar diversas vezes.
Durante esse período, Esdras chegou a viver nas ruas. De acordo com a amiga, integrantes de uma igreja o ajudaram a superar a situação de extrema vulnerabilidade.
“Ele nunca desistiu de trabalhar. Fez todo tipo de serviço que apareceu. O último foi como entregador de comida. E, quando tinha tempo livre, ainda distribuía pizzas e sanduíches para pessoas em situação de rua”, relata.
Segundo a mãe e a amiga, a piora financeira também esteve relacionada ao fim do casamento, cuja divisão patrimonial estaria sendo discutida judicialmente.
Elas relatam que Esdras foi inicialmente encaminhado ao Glades County Detention Center, centro de detenção vinculado ao ICE localizado em Moore Haven, na Flórida. Posteriormente, ele foi transferido para o Broward Transitional Center (BTC), em Pompano Beach, no sul do estado.
Essas unidades recebem pessoas sob custódia migratória que aguardam decisões sobre pedidos de asilo, audiências perante tribunais de imigração, pedidos de fiança, transferências ou processos de deportação.
“Logo que chegou ao Glades, ele quase morreu. Sentiu fortes dores no peito e nas costas e foi colocado em uma cela de isolamento extremamente fria. Quando soubemos do que estava acontecendo, tanto a mãe dele quanto eu ficamos desesperadas, com medo de que não sobrevivesse”, afirma a amiga.
A interlocutora, que preferiu não ter a identidade revelada, diz acompanhar a situação de Esdras há mais de três anos. Segundo ela, o pedido de asilo foi protocolado há bastante tempo e os advogados já ingressaram com medidas judiciais em favor dele.
UM POUCO MAIS SOBRE ESDRAS: O empresário de Belo Horizonte foi apontado pela Polícia Federal como um articulador da mobilização de manifestantes que viajaram de BH para Brasília no início de janeiro de 2023. Ainda na concepção da PF, Esdras era um dos líderes do acampamento em frente ao quartel do Exército em BH. Após deixar o Brasíl em 10 de janeiro de 2023, por receio de perseguição política, Esdras foi considerado foragido e teve todas as contas bloqueadas e passaporte canelado. A detenção ocorrida na Flórida em abril desse ano não representa a extradição ou deportação para o Brasil. O escritório de advocacia não se manifestou a respeito, ainda.
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