Ana Maria Cemin – 22/08/2026
Recebi uma carta com o relato desesperado de uma brasileira que luta para sobreviver no sistema penal argentino. Compartilho com vocês a carta de Sirlene Souza Zanotti, 54 anos, que se encontra no cárcere na Colônia Penal de Ezeiza, na Argentina. É um grito que atravessa fronteiras. Um pedido de socorro que revela não apenas a deterioração física de uma mulher, mas também a falência de um sistema que deveria garantir o mínimo: dignidade, cuidado e humanidade.
Sirlene não é uma clandestina. Entrou legalmente no país, solicitou documentação e possui DNI argentino há mais de dois anos. Ainda assim, vive como se não existisse. Sem atendimento médico adequado, sem acesso a direitos básicos, sem sequer conseguir enviar uma carta ao juiz responsável por seu caso. Uma cidadã invisível que recorreu a esta jornalista para buscar uma sobrevida no caos em que vive.
DESMAIO, DIAS DE DELÍRIOS E ASSISTÊNCIA PRECÁRIA
O que acontece atrás dos muros dos presídios em que se encontram os presos políticos da Era Lula pouco sabemos. Sirlene, na tentativa de ser ouvida pelas autoridades brasileiras e argentinas escreveu uma carta relatando a crise de saúde que vive, com sérios riscos de vida.
Ela revela na carta que, no dia 28 de fevereiro desse ano, sofreu uma desidratação tão severa que desmaiou na lavanderia da unidade prisional. Foi encontrada caída no chão por outra detenta. Era sábado. Não havia médicos.
O que se seguiu foram quatro dias de delírios intensos, confusão mental, perda de controle do corpo e da própria percepção da realidade. As demais presas pediram ajuda por ela. Só depois de uma detenta escrever, de próprio punho, um documento contra o centro médico, Sirlene recebeu o primeiro atendimento.
ATENDIMENTO SEM TRATAMENTO
Ela precisava de soro. Não recebeu. Precisava repor vitaminas e minerais. Não recebeu. Precisava de acompanhamento médico contínuo. Recebeu apenas uma consulta apressada com uma psicóloga que olhava o relógio. Desde então, sua saúde só piorou. Sente dores incapacitantes, perda de coordenação e um corpo que parece desligar.
Por quase três meses, Sirlene convive com dores intensas por todo o corpo. Suspeitou de fibromialgia, mas a duração e a intensidade ultrapassavam qualquer crise conhecida. Seu braço direito, da base do pescoço até a ponta dos dedos, dói diariamente. A dor é tão forte que ela não consegue levantar um copo de água. A coordenação motora falha. As pernas também. As dores de cabeça são constantes.
E ela descreve algo ainda mais alarmante: “Meu corpo me diz que já não tenho mais emoções, sejam elas positivas ou negativas.”
O sistema digestivo e intestinal está “se decompondo”, nas palavras dela. Sem médicos, recorre a água com maisena crua. Repetiu um eletrocardiograma, mas nunca recebeu o resultado.
UM PEDIDO SIMPLES: SOBREVIVER
Sirlene implora por um check-up fora da Unidade Penal 7, Pavilhão 5, Unidade 2 de Ezeiza, onde ela se encontra presa na Grande Buenos Aires. Ela pede na carta por exames cardíacos e neurológicos. Sirlene pede o básico. Pede o que qualquer pessoa presa, em qualquer país, tem direito de receber.
O seu pedido não chega ao juiz. Ela tentou escrever ao magistrado Daniel Rafecas, conhecido por manter presos os manifestantes do 8 de janeiro na Argentina, mas não pode enviar a carta. Está isolada até da burocracia.
A carta de Sirlene expõe a negligência institucional que transforma prisões em depósitos de pessoas. A Constituição argentina, assim como tratados internacionais dos quais o país é signatário, garante atendimento médico digno a pessoas privadas de liberdade. O Brasil também reconhece esse direito universal.
O que Sirlene denuncia é a falha do Estado em proteger quem está sob sua custódia, uma falha que atinge a sua própria humanidade.
Sirlene não pede privilégios. Pede vida e faz um chamado à responsabilidade internacional. E exige atenção das autoridades argentinas e de organismos de direitos humanos, porque estava legalmente documentada quando foi presa, com pedido de asilo formulado. Agora está presa, doente, vulnerável e esquecida.
Sirlene é uma invisível.
A omissão diante do sofrimento extremo é uma forma de violência e entendo que a violência institucional não pode ser normalizada.
Quando leio Sirlene, me dá uma angústia profunda.
“PEÇO, POR MISERICÓRDIA…”
A carta termina com uma súplica que deveria envergonhar qualquer sistema penal que se pretenda civilizado: “Peço, por misericórdia, a gentileza de me autorizar um check-up de saúde fora do Penal 7 de Ezeiza.” – Sirlene Souza Zanotti -DNI 96.423.590
Segue a carta na íntegra e quatro matérias que fiz com Sirlene para que você conheça a história dessa vítima do 8 de janeiro com mais profundidade.


Quatro matérias em ordem cronológica:
Publicar comentário