Ana Maria Cemin – 13/07/2026
Parece piada de mau gosto, mas oito pessoas da mesma família foram presas por se manifestarem em 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Hoje, 13 de julho de 2026, a Silvane retirará a tornozeleira em Campinas, sendo que os demais retiraram ao longo dos últimos meses e estão cumprindo pena ou já cumpriram pena. A exceção fica por conta dos familiares Eriel e Silvane, pois ambos estão na fila de espera para serem condenados pela Supremo Tribunal Federal. De forma inédita, o ministro Moraes autorizou a retirada das tornozeleiras e recolhimento noturno nesse mês.
Acompanhe a história e você entenderá. Assim eu espero.
No dia 9 de janeiro de 2023, oito membros de uma mesma família, quatro homens e quatro mulheres, foram presos no acampamento de Brasília e levados aos presídios do Distrito Federal. Alguns meses depois saíram em liberdade provisória. Seis deles já foram julgados, porém dois ainda não foram julgados, mas se tornaram os primeiros presos políticos a receber autorização de Alexandre de Moraes para a retirada da tornozeleira antes do julgamento.
A história ganha contornos ainda mais dramáticos quando se percebe quem são essas oito pessoas: quatro irmãs, seus três maridos e o filho da quarta irmã. E, atrás delas, dois pais idosos que viram todas as filhas serem levadas. Uma cena que nenhuma família deveria suportar.
Hoje, a última dos oito está indo ao fórum para agendar a retirada da tornozeleira. É o fim de um ciclo de quase quatro anos de restrições, separações e dor.
Quatro familiares são moradores de Campinas, SP: Eliane de Vargas Santos, 53 anos, esposa de Jason Pereira Santos, 55 anos. Jason já foi julgado e cumpriu trabalho comunitário. Eliane já foi julgada e está cumprindo trabalho comunitário.
Silvane Machado de Vargas Paula, 48 anos, é esposa de Reinaldo de Souza Paula, 60 anos. Reinaldo já foi julgado e está cumprindo a pena. Silvane ainda não foi julgada e foi ao fórum hoje para agendar a retirada da tornozeleira, tornando-se a última dos oito a conquistar esse passo.
Outros quatro da família são moradores do MT: Cleonice Machado de Vargas, 56 anos, a irmã mais velha das quatro. Já foi julgada e cumpriu o trabalho comunitário. Ela é mãe de Eriel Vargas de Lima, 36 anos, que recebeu no início desse mês a notícia de que teria a tornozeleira retirada, mesmo sem ter data de julgamento marcado. Detalhe: a central de monitoramento do MT abriu no sábado exclusivamente para fazer essa retirada, após pedido da advogada Ana Maria Magro.
Eriel foi o primeiro preso político do grupo a retirar a tornozeleira antes do julgamento.
Daiane Machado de Vargas Rodrigues, 38 anos, a irmã mais nova já foi julgada e concluiu o cumprimento da pena. Ela é esposa de Roberto Carlos Rodrigues, 50 anos, também já julgado e cumprindo pena.
Ou seja, é uma tragédia familiar: quatro irmãs presas, três genros e um filho. Por trás dessa lista, existe uma imagem que marca qualquer leitor: dois pais idosos, em Mato Grosso, recebendo a notícia de que todas as suas filhas haviam sido presas no mesmo dia. E que, junto delas, estavam também três genros e um neto.
É uma ferida que atravessa gerações.
Hoje, a última dos oito, a Silvane, agendará a retirada da tornozeleira. É o fechamento de um ciclo que começou com prisões, helicópteros, bombas, triagens, presídios, separações familiares, enterros perdidos, Natais vazios e quatro anos de restrições.
Para essa família, o sábado será de churrasco, reencontro e liberdade. Depois de quase quatro anos, duas irmãs que moram na mesma cidade finalmente poderão se visitar à noite, no fim de semana, sem medo, sem tornozeleira, sem restrições.
E, pela primeira vez desde 2022, surge a esperança de que poderão visitar os pais idosos no Mato Grosso, e retomar a vida que foi interrompida.
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