Ana Maria Cemin – 13/07/2026
Este é o terceiro texto que escrevo em sequência nesse mês de junho sobre 8 pessoas da mesma família que foram presas em Brasília, sequestradas pelo Governo Lula e que até hoje estão sofrendo as consequências do 8 de janeiro de 2023. Construí o texto na narrativa da primeira pessoa, pela voz da minha entrevistada, a campineira Eliane Vargas.
A família toda foi acusada de dois crimes e a sua pena é de: 225 horas de prestação de serviços à comunidade, curso sobre Democracia, Estado de Direito e Golpe de Estado, com 12 horas; proibição de ausentar-se da Comarca em que reside até a extinção da pena; proibição de utilização de redes sociais, até a extinção da pena; manutenção da suspensão dos passaportes emitidos pela República Federativa do Brasil, em nome do condenado; revogação de registro ou porte de arma de fogo, se existente; e multa individual de cerca de 15 mil; além de pagamento de R$ 5 milhões compartilhados entre todos os condenados do 4921.
O texto a seguir flui conforme as lembranças de Eliane e espero que revele a verdade para você.
“Nós, de Campinas, duas irmãs e nossos maridos, viajamos no dia 30 de dezembro de 2022 para o Mato Grosso, para passar 15 dias de férias. Ela viajou com o filho e o marido, e eu fui com meu neto, minha cachorra e meu esposo. Passamos a virada do ano na viagem.

Tínhamos a esperança de que um milagre acontecesse antes do Lula subir a rampa, que a verdade aparecesse. Era surreal o que tinha acontecido, e tudo o que queríamos era ver o resultado das urnas com clareza e transparência. Porém, Lula subiu a rampa, e nós desabamos, sentindo que tudo estava perdido. Em Brasília, depois disso, o QG dos patriotas começou a esvaziar, as pessoas voltando para as suas casas.
No entanto, ainda no começo do ano de 2023, iniciou uma movimentação orgânica no Brasil inteiro. Pessoas de todos os lados se organizando para viajar a Brasília e fazer uma manifestação, para mostrar a quantidade de pessoas que tinha votado na direita, enquanto do outro lado não havia movimentação. Era um protesto, como tantos outros que fizemos em frente aos quarteis Brasil afora.
Nós estávamos em Sinop havia três dias quando surgiu essa movimentação para ir a Brasília. Como estávamos de férias, fomos. A família inteira é de direita, então foram as quatro filhas, os maridos e um neto dos nossos pais. Veja bem, nossos pais são dois senhores idosos e imagine o dor de saber que as quatro filhas, os três genros e o neto foram presos. Foram dias aterrorizantes em Brasília.
Chegamos na Praça dos Três Poderes às 17h e quando os policiais começaram a jogar bombas, estávamos no gramado. Jogaram um spray de pimenta, uma espécie de bomba que solta um gás que arde e asfixia. Não sei exatamente o que era, mas queimava. Jogaram em cima de nós. A gente se abaixou e começou a rastejar na grama. Um foi para um lado, outro para o outro. Não dava para enxergar nada. Acabamos nos perdendo por alguns momentos.
A minha irmã mais nova, a Daiane, acabou machucando o olho com aquele gás de pimenta. Ela esfregou e feriu o olho. O meu cunhado a levou para uma ambulância que estava nas proximidades dos prédios, no gramado, para ver se algum médico podia socorrê-la. A ambulância acabou levando-a para o hospital. Ela estava sem bateria no celular, e nós também e tínhamos viajado de ônibus, não dava para carregar. Lá também era difícil: todo mundo estava sem bateria, porque havia apenas um gerador no QG, e as pessoas tinham que revezar para carregar os celulares.
Depois da experiência trágica na Praça, voltamos para o quartel e, nesse meio tempo, nos reencontramos. A nossa intenção era de voltar logo para casa, porque não tínhamos ido para aquilo. Porém, com a minha irmã no hospital, sem saber para qual hospital ela tinha sido levada, não sairíamos do QG. A saída foi esperar por ela.
À noite, uma enfermeira que a atendeu no hospital veio trazê-la ao QG, porque ela não tinha bateria no celular para falar com a gente e pedir ajuda. Inclusive, a enfermeira pagou o Uber para a Daiane. Naquele momento, tentou entrar por duas entradas, mas o quartel já estava cercado e fechado, ou seja, não deixavam mais ninguém entrar ou sair. Na terceira entrada, Daiane entrou, inclusive com a ajuda da enfermeira que deixou o Uber esperando, trouxe minha irmã até onde estavam as barracas do pessoal de Sinop, porque ela não conseguia enxergar direito.
A opção foi dormir no QG para ir embora no dia seguinte. Só que, quando amanheceu, o quartel já estava cercado. Parecia cena de filme. Aquela noite inteira, o barulho de helicóptero sobrevoando. A gente não sabia se ia amanhecer vivo, com medo de eles atirarem nas barracas. O barulho do helicóptero da polícia era constante.
Depois da noite aterrorizante, no amanhecer apareceu uma pessoa dizendo que nós tínhamos uma hora para sair do QG e entrar nos ônibus, onde seria feita uma triagem para pegar os nossos dados e depois nos liberar, cada um para seu destino. Essa foi a conversa.
Lembro que a cena daquela manhã era terrível. As pessoas saiam das barracas e caminhavam com malas de rodinha, tentando encontrar uma saída. Iam para um lado, mas não dava para sair porque estava tudo fechado; voltavam de novo. Aquelas pessoas carregando malas para cá e para lá… uma imagem desesperadora. Havia uma barreira humana de soldados impedindo que a gente saísse, um ao lado do outro, e uma fila de ônibus esperando.
Obedientes, entramos nos ônibus e, a partir daí, todos sabem o que aconteceu: ficamos o dia inteiro rodando dentro daqueles ônibus por Brasília, com o temor de cair numa prisão.
Depois da “triagem” com os delegados na Polícia Federal fomos separados. As quatro mulheres foram para a Colmeia e os quatro homens foram para a Papuda, ambos no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. A partir desse momento, perdemos o contato com os nossos maridos, e eles também perderam contato conosco. Não sabíamos como estavam sendo tratados, e eles não sabiam como nós estávamos sendo tratadas.


Dentro o presídio, circulavam conversas: “eles estão assim”, “eles estão assado”, mas não tínhamos certeza se era verdade ou mentira. Depois, quando saímos, descobrimos que muita coisa era mentira. Era muito triste, porque não sabíamos o que estava acontecendo nas nossas casas. A família inteira presa: os pais idosos sem saber de nós, as quatro filhas presas, assim como os três genros e o neto. Foram dias de terror para eles também, coitados, já idosos. Não mereciam passar por isso.
Essa é a síntese do que aconteceu na nossa ida para Brasília, do nosso sofrimento e muita coisa ainda aconteceu depois disso. Quando você está lá dentro, presa, a ansiedade para sair é enorme. A adrenalina é tão grande que você não tem noção. No dia em que dizem que você vai sair, é uma alegria imensa. Porém, quando você chega aqui fora, parece que a ficha cai. Lá dentro, você sofre, mas está “em modo de sobrevivência”. Aqui fora, vem a depressão, a tristeza profunda, uma dor na alma por tudo o que você passou sem merecer, pela emboscada em que caiu sem dever nada, pelo tratamento lá dentro e pelo tratamento aqui fora, com as restrições que continuaram.

Ficamos mais de dois anos sem poder ir à igreja. Perdemos o casamento da sobrinha, perdemos o noivado. Há quatro anos que eu não visito minha mãe e meu pai, que são idosos, porque estou impedida até hoje de sair de Campinas. Todo fim de ano nós íamos ao Mato Grosso visitar os nossos pais. Meu cunhado, aqui de Campinas, visitava a mãe dele em Rondônia duas vezes por ano. Depois que foi preso, nunca mais pôde ir. A mãe dele faleceu, e ele não pôde ir ao enterro.
Nós, as quatro irmãs, sempre passávamos o Natal juntas. Eu não podia mais ir à casa da minha irmã porque estava de tornozeleira, e ela também não podia vir à minha casa. Assim foi por muito tempo, até retirarem a nossa tornozeleira. Mesmo assim, ainda há restrições. As cautelares ainda não encerraram. Os processos ainda não foram arquivados.
Nesse momento, estamos na expectativa da última tornozeleira ser retirada. É uma sensação de festa. Tanto que, no sábado que vem, vou fazer um churrasco aqui em casa para comemorar. Minha irmã poderá me visitar depois de quase quatro anos, num sábado à noite. Você consegue compreender? Duas irmãs morando na mesma cidade e não podendo se visitar à noite nem no fim de semana por causa das restrições. É algo muito grave, muito forte de se viver.
Sei apenas que no próximo sábado vamos comemorar a liberdade dela. E a nossa expectativa é poder visitar em breve nossa mãe e nosso pai, e retomar as nossas vidas a partir do ano que vem, se Deus quiser. A nossa esperança é que a direita entre e que tudo se esclareça, que tudo seja anulado; toda essa injustiça que foi feita com a gente.”
Os oito presos políticos da família, as suas idades, os seus vínculos e as suas situações jurídicas:
Moradores de Campinas (SP)
Eliane de Vargas Santos, 53 anos, esposa de Jason Pereira Santos, 55 anos.
Jason já foi julgado e cumpriu trabalho comunitário. Eliane já foi julgada e está cumprindo trabalho.
Silvane Machado de Vargas Paula, 48 anos, esposa de Reinaldo de Souza Paula, 60 anos.
Reinaldo já foi julgado e está cumprindo pena. Silvane ainda não foi julgada e irá ao fórum na segunda-feira para agendar a retirada da tornozeleira, tornando-se a última dos oito a conquistar esse passo.
Moradores do Mato Grosso
Cleonice Machado de Vargas, 56 anos, a irmã mais velha das quatro. Já foi julgada e cumpriu o trabalho.
É mãe de Eriel Vargas de Lima, 36 anos, que recebeu no começo de julho a notícia de que teria a tornozeleira retirada, mesmo sem ter sido julgado. A central de monitoramento do MT abriu no sábado exclusivamente para fazer essa retirada, após pedido da advogada Ana Maria Magro. Eriel foi o primeiro preso político a retirar a tornozeleira antes do julgamento.
Daiane Machado de Vargas Rodrigues, 38 anos, a irmã mais nova. Já foi julgada e concluiu o cumprimento da pena. Ela é esposa de Roberto Carlos Rodrigues, 50 anos, também já julgado e cumprindo pena.
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