Ana Maria Cemin – 16/06/2026
A história da família Melo, de Planaltina, DF, receberá o número 628 nos meus arquivos sobre as perseguições aos manifestantes contrários ao governo Lula. Escrevo sobre prisões arbitrárias de cidadãos comuns há 41 meses e, a cada história, ainda me surpreendo. Cada caso tem suas particularidades, e a prisão de Messias Carneiro de Melo, 44 anos, mexeu comigo mais uma vez, uma prova de que não estou suficientemente calejada. Ao longo do texto, você entenderá o motivo.
Melo é empresário do ramo agropecuário em Planaltina. Filho de dona Teresa, 81 anos, ele tem 11 irmãos. É casado com Marlene, 40 anos; ambos nasceram no Ceará e se conhecem desde a infância. Apaixonaram-se, casaram e construíram uma família. São pais de uma jovem de 21 anos e de um rapaz de 19, que trabalham junto com os pais no negócio da família.
Durante o período pós-eleição, em 2022, Melo esteve algumas vezes no acampamento montado em frente ao Exército, em Brasília. Sua posição sempre foi clara em relação ao governo eleito, assim como a de milhões de manifestantes espalhados pelo Brasil que não aceitaram passivamente a eleição de um homem condenado em três instâncias. Os movimentos de rua são legítimos, assim como reuniões para protestos; portanto, não havia razão para imaginar que protestar fosse algo errado. Discordar, manifestar-se e reunir-se com outros que pensam da mesma forma faz parte da democracia.
No dia 8 de janeiro, Melo também foi à Praça dos Três Poderes, mas saiu cedo, por volta do meio-dia.
PRISÃO APÓS LONGO PROCESSO
Assim como mais de 2 mil pessoas, Melo foi indiciado e respondeu processo pelo 8 de janeiro. Contratou advogado e não perdeu uma única noite de sono, embora tenha ficado apreensivo quando viu seu processo, até então parado, voltar a tramitar no início do ano.
“O Messias não devia nada e, para ele, a vida seguia normalmente: trabalho, cuidados com os filhos e comigo, vida social e cultos na igreja evangélica. Nunca passou pela cabeça dele que algo ruim poderia acontecer, justamente por ter a consciência de que nada fez e sempre cumpriu suas obrigações”, relata a esposa.
Mas, no Brasil da democracia relativa, pessoas como Melo, que cumprem suas obrigações, empreendem correndo riscos e não temem expressar opinião, passaram a representar uma ameaça ao governo Lula e seus aliados.
Tanto é que Melo foi condenado a 14 anos apenas por ter ido à Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro. Não há prova alguma de que tenha depredado patrimônio ou integrado “organização armada”, mesmo assim está preso cumprindo execução penal determinada pelo Supremo.
Melo me surpreendeu por um motivo: por sua despreocupação. Ele estava tão convicto de sua inocência que respondeu a um processo severo, em primeira e última instância, que condenou centenas de pessoas a 11, 12, 14, 16 e 17 anos de prisão, sem jamais imaginar que o mesmo destino o alcançaria.
E aconteceu.
Tenho escrito sobre a inocência dessas pessoas há 41 meses e penso que as vítimas do 8 de janeiro e seus familiares leem pelo menos algumas das histórias que escrevo. Nelas conto quem são essas pessoas simples e como elas caíram na armadilha chamada de “Golpe de Estado”. Um golpe da esquerda no maior movimento de protesto que o Brasil conheceu, isso sim! Essas pessoas não teriam porque temer a justiça, pois não agiram como criminosas. Foram para uma manifestação.
A rotina da família Melo mudou quando, em uma viagem de negócios no dia 17 de abril de 2026, o empresário foi preso em Betim, MG. Ele retornava de São Paulo quando foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal, que identificou um mandado expedido no processo do 8 de janeiro. Hoje, encontra-se no Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem, MG.
Desde então, a defesa de Melo tem peticionado pela transferência para uma unidade prisional no Distrito Federal, onde reside com a esposa e os filhos, buscando preservar vínculos familiares e garantir os princípios da dignidade humana e da individualização da pena.
O pedido foi negado. Em 9 de junho, a defesa reiterou a solicitação, argumentando que a falta de vagas no sistema prisional do DF não pode ser óbice absoluto, pois viola direitos fundamentais.
Também reforçou que Melo corre risco concreto à integridade física, relatado pelo próprio detento na audiência de custódia, devido à alta exposição do caso.
A PRISÃO E O IMPACTO NA FAMÍLIA
“Messias viajava com dois amigos quando recebeu a ligação do advogado avisando que o mandado havia sido expedido. Horas depois, foi detido. Ele nunca usou tornozeleira eletrônica e não tinha antecedentes criminais. A prisão abalou profundamente nossa estrutura familiar. Messias era o responsável direto pela empresa, e eu, junto com nossos dois filhos, precisei assumir tudo de uma hora para outra. Foi desesperador. Ele comandava tudo. Eu e meus filhos tivemos que aprender a tocar a empresa sozinhos”, relata Marlene.
A única conversa que teve com o marido até o momento foi mediada pelo advogado, por videochamada. “Ele estava muito abalado. Preocupado com a gente. A alimentação do presídio é ruim, ele quase não come”, conta.
Ela lembra que, quando a notícia da prisão saiu na imprensa local, a família sofreu novo baque. “Vieram muitas mensagens. Algumas de apoio, mas muitas de ódio. Comentários horríveis. As pessoas são muito maldosas”, lamenta.
A irmã de Messias, Gonçala, 55 anos, entrou em forte abalo emocional. A mãe dele, dona Teresa, 81, que vive no Ceará, também está profundamente afetada.
Evangélica, Marlene diz que a fé tem sustentado a família. “Se não fosse Deus, eu não sei o que seria de mim e dos meus filhos. A gente tem força por eles.” A família realiza cultos em casa e tenta manter a rotina, apesar da dor.
“É muito difícil. Mas a gente precisa trabalhar, manter a cabeça no lugar. Acreditamos que isso vai passar”, diz Marlene, serena.
Publicar comentário