Ana Maria Cemin – 15 de junho de 2026
“Meu marido não vai aguentar a vida na prisão. Ele está muito doente. Em vez de mandarem ele para uma penitenciária federal, que fica a 170 km longe de casa, poderiam colocá-lo em prisão domiciliar, onde teria condições de se tratar.”
A frase, carregada de desespero, é de Tatiane Barra, esposa do agricultor Fábio Barra, 51 anos, após visitá-lo no último sábado, 13 de junho. Foi a sua primeira visita desde a prisão do marido pelo 8 de janeiro, em maio desse ano.
A preocupação da família de Fábio coincide com o alerta formal enviado pela direção do Presídio de Canápolis, MG, ao Supremo Tribunal Federal, relatando que a unidade não possui condições mínimas de manter o reeducando vivo, devido ao grave estado de saúde e à falta de estrutura.
O caso: do vídeo em Brasília à prisão emMinas Gerais
Fábio Barra, agricultor de Capinópolis, MG, participou das manifestações em Brasília em protesto à eleição de Lula no início de janeiro de 2023. Ao chegar à Praça dos Três Poderes, gravou um vídeo de poucos segundos que acabou sendo usado contra ele.
“Somos bem-vistos aqui na região, nossa família é trabalhadora, nunca cometemos qualquer crime, fazemos ações sociais e entregamos cestas básicas. Isso que está acontecendo com o meu marido é em função de um vídeo feito em Brasília, uma denúncia feita por alguém que teve a intenção de prejudicá-lo”, relata Tatiane.
A primeira prisão do agricultor ocorreu em 19 de abril de 2023, em função dessa denúncia. A Polícia Federal prendeu Fábio em casa e o Supremo boqueou todos os bens. “Até o carro ficou bloqueado. Ele ficou 98 dias no presídio de Uberlândia, de segurança máxima, sem julgamento”, conta a esposa.
Na época, Fábio já fazia tratamento cardíaco, acompanhamento com neurologista, usava CPAP para apneia do sono, tomava remédios para pressão e tratava labirintite. Naquela época, sem acesso aos médicos no presídio, a defesa conseguiu que ele aguardasse o julgamento em liberdade provisória, com tornozeleira eletrônica.
“Quando foi dia 19 de maio desse ano, sem que ninguém soubesse, perto das 20 horas, a Polícia Federal foi em nossa casa de Barra para prendê-lo novamente”, relata Tatiane. Ele havia sido condenado, no final de 2025, a 14 anos de prisão, além do pagamento de multas.
Situação atual: saúde em colapso e presídio sem condições
Agora novamente preso, Fábio enfrenta um quadro ainda mais grave. A direção do Presídio de Canápolis enviou ao STF relatórios médicos comprovando que ele necessita de:
- acompanhamento psiquiátrico
- acompanhamento cardiovascular
- uso contínuo de CPAP devido à apneia do sono
O documento afirma que:
- o presídio não possui núcleo de saúde com capacidade de internação
- as celas não têm tomadas, por força da Lei nº 24.496/2023, impossibilitando o uso do CPAP
- o município de Canápolis, com cerca de 10 mil habitantes, não tem estrutura hospitalar para atendimentos especializados
- a unidade prisional não dispõe de logística nem pessoal para manter o tratamento
A direção conclui que não tem condições de garantir a saúde e a vida do reeducando, solicitando sua transferência urgente.
Pedido de domiciliar ignorado
Em função do quadro clínico grave, a defesa e a família pediram prisão domiciliar, alegando que o estado de saúde de Fábio é incompatível com o cárcere. O pedido, porém, não foi acolhido, mesmo diante do relato da direção do presídio onde ele se encontra no momento. Não há dúvidas que o preso político não tem condições mínimas de saúde para enfrentar uma prisão.
Decisão judicial: Moraes determina transferência e reorganização da execução penal
Em 12 de junho de 2026, o ministro Alexandre de Moraes determinou:
“DETERMINO ao Juízo da Comarca de Uberlândia, com a efetivação da transferência, a emissão do ATESTADO DE PENA A CUMPRIR do apenado, bem como efetuar providências relacionadas à execução da pena.”
O ministro também ordenou que Fábio será transferido para Uberlândia, a 170 quilômetros de Capinópolis, aumentando a distância da família e dificultando as visitas.
Esposa teme pela vida do marido
Tatiane Barra reforça que o marido está debilitado e sem acesso ao tratamento básico. “Ele não consegue dormir sem o aparelho. Está fraco, cansado, com falta de ar. Eu vi nos olhos dele que ele está piorando. Se continuar assim, eu tenho medo de que ele não saia vivo do cárcere.” A distância de 170 km, segundo ela, torna tudo ainda mais doloroso: “Agora vai ficar ainda mais difícil visitar, mas o que mais me preocupa é ele sobreviver a essa situação.”
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