Ana Maria Cemin – 10/06/2026
Há 3 anos e 6 meses em regime fechado, o patriota Thiago de Assis Mathar foi finalmente transferido, em 8 de maio de 2026, do presídio de Riolândia para o Centro de Ressocialização de Araçatuba, onde passou a aguardar a implementação do regime semiaberto. A mudança trouxe um período de dor para a família, porque, durante a transferência, Thiago ficou em lapso de adaptação, período em que presos não podem receber visitas. Isso impediu Lucy de abraçar o filho no dia 12 de maio, data de seu aniversário. Ele completou 46 anos, o quarto aniversário longe da família. “Chorei muito hoje com saudade dele e por saber que estará mais uma vez sem a família na passagem de seu aniversário”, me contou Lucy, emocionada, no próprio dia 12.
Mesmo depois de todo esse tempo preso, tendo trabalhado e estudado dentro do cárcere, o ministro Alexandre de Moraes colocou nos autos, no dia 7 deste mês (junho), que o pedido de progressão do regime fechado para o semiaberto não procede por não existir registro de remições homologadas, conforme transcrição abaixo:
“A condenação é de 14 (quatorze) anos de reclusão e, tendo em conta o requisito objetivo, o réu poderá progredir para o regime menos rigoroso depois de cumprir 1.277 (mil duzentos e setenta e sete) dias de pena, sendo que o réu cumpriu até a presente data 1.212 (mil duzentos e doze) dias no total.”
A defesa requereu a progressão do regime fechado para o aberto ainda em 29 de maio deste ano, argumentando o seguinte: “Por fim, caso Vossa Excelência entenda como necessário, que determine às Secretarias de Estado de Administração Penitenciária do Distrito Federal, bem como à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), que confirmem a autenticidade dos respectivos documentos em anexo:
• Atestado de Trabalho e Comportamento 2025
• Certidão de Remissão 77941589 de 19 jun. 26
• ENEM 2023
• ENEM 2024
• ENEM 2025
• Atestado de Trabalho 6 jan. 26 094-2026
• Relatório Carcerário 13 mar. 26
• Atestado de Comportamento Carcerário 1 abr. 26
A pergunta que fica no ar: qual a razão de as remições não terem sido homologadas, quando outros presos políticos condenados posteriormente ao Thiago já estão com a documentação das remições em dia?
VAMOS RELATAR ESSA HISTÓRIA

Em 14 de setembro de 2023, Lucy Dalva de Assis Mathar assistiu, no plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgamento que condenou seu filho, Thiago de Assis Mathar, então com 43 anos, a 14 anos de prisão pelos eventos de 8 de janeiro. Foi um dos três julgamentos presenciais concedidos aos réus do 8 de janeiro. Os outros dois foram Aécio Lúcio Costa Pereira e Matheus Lima de Carvalho Lázaro, ambos condenados a 17 anos. A partir do julgamento dos três, o Supremo decidiu iniciar ciclos de julgamentos virtuais, condenando patriotas em lotes, sendo que a defesa apenas pode postar alguns minutos gravados no sistema para defesa de seu cliente. O primeiro lote de julgamentos virtuais iniciou em 25 de setembro de 2023 e vale para todos os demais presos políticos. Modo virtual e por lotes — e isso continua acontecendo até hoje. Depois da prisão do filho, a vida de Lucy, hoje com 68 anos, se transformou em uma peregrinação constante entre Votuporanga, SP, e Brasília, DF. Uma distância de 800 km para visitar o filho e levar o seu abraço e conforto. Isso foi até 17 de março de 2025, quando Thiago foi transferido para uma penitenciária de São Paulo, na cidade de Riolândia, cerca de 45 km da residência materna.
JULGAMENTOS QUE DEFINIRAM A VIDA DE MILHARES DE PESSOAS
Naquele setembro de 2023, Lucy acompanhou o julgamento presencial e lembra do impacto emocional. “Passaram vídeos do Thiago andando dentro do Planalto, mas em nenhum momento ele aparece mexendo em algo. Ele entrou porque as portas estavam abertas. Ele é curioso, não criminoso.” Thiago estava sem celular, documentos ou carteira, pois tudo havia ficado no ônibus que o levou a Brasília. Os pertences só foram recuperados meses depois. A sentença o condenou por golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Lucy contesta a narrativa apresentada no julgamento. “Disseram que ele morava em Penápolis e que era produtor rural. Nada disso é verdade. Ele só embarcou no ônibus de lá porque o de São José do Rio Preto estava lotado.” Ela também critica o uso de um episódio da juventude de Thiago — um churrasco barulhento na época da faculdade — como argumento para chamá-lo de “arruaceiro”. “Algo de décadas atrás foi levantado como se fosse um histórico criminal. Não faz sentido.”
A PRIMEIRA VISITA DAS CRIANÇAS APÓS 11 MESES
Um dos momentos mais marcantes na vida recente da família ocorreu em 11 de dezembro de 2023, quando, após 11 meses de prisão, Thiago recebeu a visita de sua família: a esposa Vanessa levou os filhos pequenos, Aníbal, 6 anos, e Samira, 4 anos, para reencontrar o pai no presídio. Lucy lembra da emoção: “As crianças estavam tão felizes, e eu contei para o Thiago na visita que fiz antes deles. Ele ficou radiante, mas ainda estava muito triste com a morte recente do Clezão.” A visita foi autorizada apenas para Vanessa e as crianças. Lucy, que viajou até Brasília, não pôde entrar. “Eu queria tanto ver aquela cena linda. Fiquei esperando do lado de fora, imaginando o abraço deles.”

O IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS
A ausência prolongada do pai deixou marcas profundas. Aníbal desenvolveu ansiedade severa e dificuldades de aprendizagem. “Ele dizia que o pai tinha ido morar com o Lula, ou que aviões jogaram bombas e o pai morreu. Ele chegava da escola e olhava atrás das portas para ver se o pai estava escondido.” Samira sofre especialmente em datas comemorativas. “No Dia dos Pais, ela fica muito triste. As colegas perguntam onde o pai está, por que ele não vem. Ela sente muita falta dele.” Ambos fazem acompanhamento psicológico.
O REENCONTRO COM O PAI E O DESGASTE DA FAMÍLIA
Em agosto de 2024, após 21 meses de prisão, Thiago recebeu pela primeira vez a visita do pai, Ademir Mathar, hoje com 69 anos. Lucy o preparou antes da viagem: o filho estava 24 quilos mais magro, com o cabelo muito curto. “O Ademir tinha medo de encontrar o filho transtornado, mas ficou aliviado ao ver que ele estava lúcido”, conta Lucy. O reencontro foi emocionante. “Quando o Thiago viu o pai, quase correu para abraçá-lo. Eles ficaram um tempo só se olhando, chorando.”
A ROTINA DE LUCY: FÉ, CANSAÇO E RESISTÊNCIA
Apesar do alto custo das viagens a Brasília, Lucy nunca deixou de visitar o filho. Hospedava-se inicialmente na casa de Sheila Fernandes e depois na casa da amiga Eliana Soares, que passou a revezar com ela as visitas a Thiago. Esse acolhimento recebido por Lucy por essas duas mulheres de Brasília foi de fundamental importância. Quem vive o drama do 8 de janeiro sabe que as visitas são essenciais do ponto de vista emocional e afetivo, além de ser o momento da entrega de alimentos e remédios. Se as pessoas não forem no dia da visita, o preso fica sem os produtos possíveis de serem entregues. Lucy conta que Thiago não se adaptou à comida do presídio de Brasília e dependia de medicação para gastrite e sinusite. “Muitas vezes ele não conseguia comer a marmita do presídio da Papuda. Ele mexia na comida e não conseguia se animar.”
O CONFINAMENTO EXTREMO E A OCIOSIDADE
Após o trânsito em julgado da sentença, em 9 de abril de 2024, Thiago foi transferido para o PDF II da Papuda, onde dividiu uma pequena cela com outros três detentos. Não havia camas. Eles dormiam no chão, em colchões finos, e Thiago dormia encostado no vaso sanitário. A cela era tão escura que Lucy levou uma televisão para servir de iluminação. O que mais a preocupava era a ociosidade extrema. Os presos saíam da cela apenas para banho de sol a cada dois ou três dias. Não havia trabalho, estudo ou leitura. Depois de dois anos no Complexo Penitenciário da Papuda, Thiago foi transferido para a Penitenciária de Riolândia.
O ANIVERSÁRIO SEM ABRAÇO
Desde 8 de maio de 2026, Thiago está no Centro de Ressocialização de Araçatuba, onde aguarda a implementação do regime semiaberto. Durante o período de adaptação, não pôde receber visitas. Isso impediu Lucy de abraçar o filho no dia 12 de maio, aniversário dele. Lucy só conseguiu reencontrar o filho em 30 de maio. “Ele está bem, trabalhando dentro do presídio, aguardando o semiaberto. Ele tem muita fé e espera estar com a família em breve.”
A ESPERANÇA QUE SUSTENTA A FAMÍLIA
Lucy acredita que dias melhores virão. “Eu tenho muita esperança de que ele sairá logo.” Essa esperança também é sustentada por Thiago, que acredita que algo bom vai acontecer para ele e para os demais patriotas. Ele sabe que a família precisa dele, especialmente as crianças. “Meus netos estão sofrendo muito. Ficam doentes com facilidade. Precisam do pai.” Mesmo após três anos e seis meses de dor, Lucy segue firme, movida por fé, amor e a certeza de que o filho é inocente. Ela conta que Thiago recebeu visitas do deputado Gil Diniz e do assessor Paulo Feitosa, apoio que Lucy considera fundamental. Os presos políticos precisam estar nas nossas mentes e corações.
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