08/01 – O inferno tem porta. Eu conheci!

Por Ana Maria Cemin – Jornalista

09/11/2023 – (54) 99133 7567

“Fiquei presa 19 dias depois de ir para a capital federal para a manifestação patriótica de 8 de janeiro. Só voltei para casa no dia 27, em liberdade provisória, com uma tornozeleira eletrônica de monitoramento. Na minha estadia em Brasília foi triste demais ver tantas mães e avós maltratadas e desesperadas. Olhava para elas e imaginava a minha mãe numa situação como aquela. Nós fomos tratadas pelo governo como criminosas e a polícia penal fez questão de deixar claro que não gostava de nós, nos tratando como bandidas.

Nos colocaram numa cela de 3m x 5m em dez pessoas. Não tinha cama para todas, então dormíamos em duas num colchão. Ficamos 14 dias nesse local, com a porta de ferro trancada. Tínhamos um vaso sanitário, uma pia e uma torneira para banho. Na última semana em que eu estive presa, o nosso grupo foi levado para um galpão, com várias celas. Para meu espanto, vi patriota com 75 anos presa por lá. Não era a única idosa e ficamos muito consternadas por ver essas patriotas privadas de liberdade sem nenhuma culpa.

Esse galpão estava muito cheio e não tinha condição nenhuma para abrigar em torno de 140 mulheres. Para a nossa higiene, tínhamos apenas dois chuveiros frios, dois vasos sanitários e um tanque que servia para tomar água, escovar os dentes e lavar a roupa.

Quando íamos para o pátio, passávamos pela solitária onde estava a patriota Klio Hirano, presa desde dezembro de 2022. A gente falava de longe com ela e ainda tinha um vidro que nos separava. A gente soube que ela pediu ajuda para uma das meninas, dizendo para falar para o “lado de fora” que ela estava sendo muito maltratada. A menina acabou falando para um policial penal e piorou a situação dela. Tudo para nós era muito difícil. Muito diferente da vida normal.

Lá no Ginásio da Polícia Federal estávamos em mais de 2 mil pessoas e assistimos coisas absurdas acontecerem. Muitas pessoas passando mal, pessoas tirando a sua vida. Porém, mesmo diante desses fatos horríveis e de toda a pressão psicológica que passávamos, acredite que ainda era suportável. O que veio depois foi muito maior e difícil de suportar.

Eram tantas pessoas chegando nos ônibus que não tinha mais onde ficar dentro do Ginásio lotado. Naquela manhã do dia 9 de janeiro, a nossa vida mudou e sentimos um abandono total.

DA PF AO PRESÍDIO: O PIOR

MOMENTO DA MINHA VIDA

Fui doadora de fígado para o meu esposo falecido, não faço mal a ninguém, nunca depredei qualquer coisa e a gente acreditava que estava num movimento muito além de qualquer suspeita. Nas nossas manifestações, durante quase 60 dias, eu convivi com pessoas idôneas, pacatas, corretas e muitos idosos. Quem fez a depredação não pode ser patriota, nem eram aquelas pessoas que estavam com a gente ali o tempo todo. Tudo ficou sem sentido de uma hora para outra em Brasília, e o pior momento que vivi na minha vida, mais cruel do que as perdas do meu pai e do meu esposo, foi a experiência vivida na passagem entre a Polícia Federal e o Presídio Colmeia.

Depois que fomos chamados para conversar com o delegado e assinar o termo de culpa, cada passo que dávamos era como se caminhássemos para o desconhecido, para escuridão, indo mais para o fundo do poço, sem ter a quem recorrer. Fomos levados de sala em sala até nos colocarem num grande salão redondo, onde ficamos sentados no chão a noite toda, sem saber o que ia acontecer. Nesse local ninguém mais tinha telefone celular, todos estavam quietos e introspectivos. Apenas ouvíamos choros.

Quando amanheceu, formaram grupos de 10 para nos levar para o presídio numa van. Só que na hora de entrar, nos colocaram num veículo totalmente fechado, com grades, com 9 mulheres de um lado e 9 mulheres do outro, com uma parede de metal no meio. A sirene foi ligada em alto volume e não bastasse isso ainda tinha um helicóptero em cima acompanhando. Fomos levadas até o Instituto Médico Legal – IML, aonde fomos mais ou menos bem tratadas. Foi só aí que caiu a ficha de que a gente estava indo para a prisão de verdade. Aquilo estava ficando sério demais.

O terror chegou ao auge quando saímos do IML para o presídio, naquele mesmo veículo enclausuradas. Eles ligaram a sirene e corriam tanto que a gente achava que o veículo iria capotar. Bateu um desespero enorme na gente e uma sensação de que todas nós iríamos morrer ali dentro daquele carro. O motorista fazia curvas fechadas, o barulho era ensurdecedor e nós apenas sofríamos a tortura que nos era imposta.

De forma ordeira e organizada fomos até a Praça dos Três Poderes, com o objetivo de permanecer até o dia seguinte, dia 9 de janeiro.

FORMAMOS UMA FAMÍLIA NA CELA

Chegamos ao presídio por volta das 7h. Eu nunca tinha visto um presídio na minha vida e tudo parecia muito surreal. Senti tanta angústia que não lembro de experiência igual na minha vida. Tive que deixar todos os meus pertences ao entrar e nos levaram para um pátio onde nos deram uma aula de como nos comportar como detentas. Iniciou o período menstrual e meu emocional ficou tão abalado que fiquei duas semanas menstruada, coisa inédita. Além disso, meu corpo encheu de manchas pretas.

 A nossa cela para dez detentas ficava numa ala com 13 celas. Desocuparam a ala das transexuais para nos colocar. Era um local muito sujo e nem tinha como limpar.

Passamos a ter uma hora de sol, às vezes meia hora. Dependia do humor das carcereiras. A comida era incomível. Por sorte, sempre carrego comigo os remédios, dois para dormir, e me deixaram passar com eles. Quando eles terminaram, passava a noite em claro. Quando chovia, molhava a cela.

Essa vida difícil, complicada, fez a gente criar grandes laços de amizade entre nós, como se fosse uma outra família. Conheci mulheres do Brasil inteiro com quem conversava na hora do sol. Só que nós agora estamos proibidas pelo Superior Tribunal Federal de entrar em contato umas com as outras.

A idade das presas políticas variava de 19 a 75 anos e uma cuidava da outra. Era comum o apoio voluntário para quem estava mais sensível.

Nunca ocorreu qualquer desavença entre nós. Claro que tinha mulheres que passavam muito mal, muito ansiosas, que falavam alto. Tinha uma asmática. Numa ocasião ocorreu um fenômeno bem interessante: uma patriota da cela número um passou mal, possivelmente por crise de ansiedade, e isso foi desencadeando o efeito nas detentas das outras celas.

Quando chamávamos as carcereiras para atender alguma desmaiada, elas diziam “deixa ela sozinha que ela logo volta a si”. O tempo todo tinha situações assim.

QUEM SOU E COMO FUI PARAR EM BRASÍLIA

Na época das eleições, assisti tanta coisa dar errado, vi o desespero de tantas famílias pelo PT ter ganho as eleições, que resolvi fazer alguma coisa a respeito. Moro numa cidade pequena, mas soube que perto daqui, na cidade onde a minha irmã reside, tinha um QG na frente do quartel e fui para lá. Fiz amizade com muitas pessoas que frequentava o movimento e essa minha iniciativa de participar de algo público mudou até o meu estado de ânimo. Talvez por sentir que estava unida a outras pessoas por uma boa causa.

Nisso surgiu a oportunidade de viajar para Brasília. Me senti acolhida pelo grupo e fui acompanhando uma senhora de 67 anos que queria muito conhecer a capital federal. Saímos em viagem no dia 6 e chegamos no dia 7, no horário do almoço. Nossa programação era voltar na segunda-feira, dia 9, e estávamos sem barraca, portanto dormiríamos no ônibus.

No domingo, dia 8, almoçamos e seguimos o movimento das pessoas que desciam em caminhada para a Praça dos Três Poderes. Tínhamos o apoio da polícia em todo o percurso e, lá embaixo, tinha uma barreira policial muito grande para nos revistar. Olhavam tudo dentro das nossas mochilas, mas nós só tínhamos um cobertor e um agasalho para passar a noite no gramado. As bandeiras só passavam sem o mastro e vi um colega entregar o canivete suíço. Todo esse controle nos passava a ideia de estar num ambiente seguro.

Porém, logo que a gente passou por essa barreira policial, nós começamos a escutar uma barulheira, como se fosse uma grande bagunça, e um som que me pareceu de foguetes. Fomos caminhando, nos aproximando mais e percebemos que tinha gente dentro dos prédios e chovia bombas de pimenta na gente, não importava a idade – crianças e idosos estavam sendo afetados com aquilo tudo, sem piedade. Também percebia a presença de muita gente esquisita, muito diferente dos patriotas. Ficamos sem entender nada e como eu não posso me expor muito, pois sou transplantada de córnea e tenho fraturas de coluna, logo sai de lá com as pessoas que estavam comigo. Não era lugar para mim.

A policia se colocou com megafone e avisou que a única forma de sair do QG de Brasília era com os ônibus que estavam sendo colocados à diposição. Não havia outra possibilidade.

A volta para o QG também foi a pé e chegamos ao anoitecer. Encontramos o lugar em alvoroço, com pessoas desesperadas. Alguns falavam que era para ir embora, outros diziam que o melhor era ficar.  A polícia cercou todo o perímetro do acampamento e ouvíamos muito barulho – explosão, sirenes e helicópteros. Soubemos que ocorreu um confronto entre a polícia e o exército. Nós sentimos muito medo.

Teve quem disse para a gente ficar, que ali era seguro, e nós tínhamos conseguido uma barraca. Ficamos à noite e, como tomo remédio para dormir, acordei somente às 6 horas do dia seguinte. Fomos até a cantina para tomar o café da manhã, isso por volta das 7 horas, e veio uma policial nos alertar para sairmos rapidamente ou não conseguiríamos mais sair.  Ela estava à paisana, porém usava a identificação de polícia militar. Foi então que O QG virou uma confusão, com gente correndo de um lado para o outro, pegando as suas coisas e outros deixando tudo para trás.

Nós também fomos pegar as nossas coisas para sair, mas quando tentamos ir embora fomos impedidos. O exército se recolheu e a polícia tomou conta. Percebemos que só sairíamos naqueles ônibus colocados pelo governo e que não caberia qualquer resistência.

Fomos colocados dentro dos ônibus após o cerco da polícia ao QG, com soldados fortemente armados. Fomos levados para o Ginásio da Polícia Federal (Campo de Concentração), mas somente depois de rodar muitas horas por Brasília dentro dos coletivos sem água, comida ou condições de ir ao banheiro. Diante disso, um grande número de pessoas passou mal.

A MAIORIA CONSEGUIU FUGIR, MAS NÓS FICAMOS

Dos dois ônibus de nossa cidade, a maioria conseguiu sair do QG antes do cerco fechar. Restaram de 10 a 12 presos. Eu fiquei presa 19 dias e voltei para casa somente no dia 27 de janeiro, como contei antes. Desde então estou com tornozeleira eletrônica.

Moro numa cidade com 15 mil habitantes e não posso visitar meus familiares em outras cidades. Às 18 horas tenho que estar dentro de casa, por causa da tornozeleira eletrônica. Em finais de semana e feriado preciso passar 24 horas dentro de casa. Não vejo ninguém da minha família, nem posso sair para ir à igreja. Sou viúva há três anos e sofro com depressão. É difícil entender como tudo isso aconteceu e saber qual o meu futuro. Tenho uma ordem de despejo por falta de pagamento de aluguel, que só não foi a termo por causa da tornozeleira eletrônica. Ela está registrada no endereço onde moro, portanto não posso sair daqui. “

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