Ana Maria Cemin – 25/06/2026
Em novembro de 2024, eu sentei em meu escritório para ouvir Aline Leal Bastos Morais de Barros. Naquele momento, ela ainda aguardava a audiência que antecederia o seu julgamento virtual pela Suprema Corte.
Hoje, escrevo este texto sabendo que Aline foi condenada a 14 anos de prisão. Só não está atrás das grades porque passou por uma cirurgia grave. Assim que terminar o prazo da licença concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, ela será recolhida a um presídio em Minas Gerais.
Essa é a realidade de centenas de brasileiros que, desde 8 de janeiro, vivem entre dois destinos: o autoexílio ou a prisão.
E o motivo das condenações na Suprema Corte, a partir de denúncias do Ministério Público Federal, é a participação em uma manifestação que terminou em vandalismo. E que fique claro, vandalismo cometido por alguns, mas interpretado como um ato coletivo de golpe de Estado armado, embora nenhuma arma tenha sido encontrada (quanto menos o envolvimento das Forças Armadas).
Se você quiser conhecer a Aline em suas próprias palavras, a matéria está no site www.bureaucom.com.br, sob o título “Quero falar do 08.01 e não me escutam”. É um relato muito esclarecedor.
Hoje, aqui, quero falar com você de outro jeito.
Quero que você sinta essa história.
Aline nunca imaginou que sua vida seria arrancada do eixo. Advogada, mãe dedicada, mulher de fé, militante política em Montes Claros, MG, ela vivia entre a família, a igreja e o trabalho comunitário. Até que, em abril de 2023, a Polícia Federal bateu à sua porta. Seu filho tinha acabado de passar em Medicina. Sua filha de nove anos ainda dormia agarrada, sentindo o cheiro do seu cabelo.
Viveu 42 dias numa cela, 10 quilos a menos, noites de medo e uma nova existência: tornozeleira eletrônica, contas bloqueadas, idas semanais à Vara de Execuções Penais, vigilância constante. A vida dela se transformou num território estreito, silencioso, cheio de incertezas.
A sua participação no 8 de janeiro se resumiu a estar na plataforma superior do Congresso e organizar a lista de passageiros da excursão que saiu de Montes Claros. Algo que sempre fez em viagens anteriores. Não entrou em prédios públicos e os vídeos gravados expressavam apenas opiniões políticas. Nada do que foi apreendido em sua casa a incrimina. Ainda assim, foi julgada diretamente pelo STF, sem possibilidade de recorrer a outra instância.
Ela descreve o dia 8 como um cenário de caos: bombas, fumaça, crianças perdidas, idosos em pânico. Conta que passou parte da tarde ajudando quem podia. Quando percebeu que seu nome começava a circular como participante de “atos golpistas”, voltou antes de táxi, temendo pela família. Ela acredita que isso a impediu de ser presa ainda em Brasília.
Hoje, Aline vive entre a fé e o medo.
Entre a esperança e a contagem regressiva.
Entre a força que tenta manter, pelos filhos e marido, e o terror silencioso de ser arrancada deles novamente.
Ela sente que perdeu a voz, a liberdade e a trajetória política que vinha construindo desde 2018, quando chegou a Montes Claros e ajudou a organizar um grupo de direita na cidade. Para ela, tudo o que está vivendo é perseguição política.
Leitor, existe uma mulher e uma família vivendo à beira do abismo!
E é por isso que escrevo este texto.
Conheço Aline desde 2024.
Uma mãe.
Uma filha.
Uma esposa.
Uma brasileira.
E eu me pergunto como brasileira que sou:
Você e eu, o que estamos fazendo com essas vidas?
Não escrevo para convencer você de nada.
Escrevo para que você olhe.
Para que você escute.
Para que você permita que essa história toque o lugar onde ainda mora a humanidade.
Porque, no fim das contas, é disso que se trata.
De humanidade.
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