
Ana Maria Cemin – Jornalista
04/12/2023 – 54 99133 7567
A família de Maria me procurou para contar a sua história, sua tristeza. Além de Maria cuidar de todos os filhos dela e do marido Messias, cuida ainda da netinha e tem o compromisso com a mãe idosa, de 86 anos, que passa boa parte do tempo no hospital. Ela faz tudo com muito amor.
O casal foi preso em 8 de janeiro quando foi dar uma passadinha na Praça dos Três Poderes, e com isso ela saiu do Presídio Colmeia somente em agosto. Ele ainda está preso no Presídio Papuda. Messias é pintor; Maria, cozinheira. Na pandemia, Maria foi dispensada e começou a trabalhar junto com o marido. A situação financeira da família está crítica, porque ele era o provedor do lar. Eles residem em Riacho Fundo 1, Brasília.
A situação emocional, nem se fala!

A foto de família foi registrada num encontro da igreja. A família está unida há cinco anos, quando Messias e Maria se casaram. Desde que foi preso, a casa onde residem sete pessoas não é a mesma e passam por dificuldades.
CURIOSIDADE LEVA À PRAÇA
Manoel Messias Pereira, 39 anos, e Maria Carlos Apelfeller, 56 anos, jamais imaginaram ser presos. Os dois são trabalhadores esforçados, criam seus filhos e têm atividades na Igreja Assembleia de Deus, na Candangolândia, Brasília. Ela é diaconisa e prega a palavra do Senhor e ele é cantor da casa do Senhor. Para viver, trabalham como pintores e, ao todo têm quatro filhos: dois dela e dois dele, além de uma netinha.
A mesa posta na casa de Messias e Maria era uma alegria, mas isso tudo deixou de ser verdade a partir de 8 de janeiro, quando o casal foi levar um dos filhos de Maria para o trabalho às 16 horas daquele domingo que jamais será esquecido na história do Brasil.
O local onde deixaram o rapaz ficava nas proximidades da Praça dos Três Poderes e, curiosos, resolveram conferir o movimento dos patriotas, notadamente ordeiro e pacífico no País inteiro. Deixaram o carro longe da praça, porque tudo estava bem congestionado, e chegaram ao gramado por volta das 16h45.

RELATO DE MARIA
“A gente nunca teve intenção de quebrar ou fazer nada. Nós não somos disso. Naquele dia não liberamos o carro para o meu filho ir ao trabalho, porque à noite tínhamos a Santa Ceia na igreja. Chamei o Messias e, juntos, levamos ele ao local do trabalho, que fica atrás do Park Shopping. Chegando lá ficamos no gramado, mas caiam bombas de forma muito intensiva e decidimos subir a rampa do Palácio do Planalto. Ficamos do lado direito onde tinha um cordão de soldados do exército. Decidimos ficar ali, aos pés deles.
Não fomos a qualquer lugar, não entramos em prédios e isso é fácil constatar porque não vão achar nenhuma imagem nossa caminhando em prédio ou fazendo baderna.

Com a chegada da Polícia de Choque nos colocaram no chão e bateram em duas mulheres na nossa frente e os homens começaram a gritar. Só que nós conseguimos segurar os homens para não acontecer o pior. Começamos a orar e a implorar para que ficassem calmos. Eu creio que a polícia fez aquilo para provocar os homens, para que reagissem. Uma das mulheres agredidas foi a Dani, que derrubaram no chão, e a outra não recordo o nome. A Dani ficou na mesma cela que eu no Presídio Colmeia, então é mais fácil de lembrar. Ela foi uma das primeiras a ser solta, depois de um mês e pouco de cárcere.

Eu fiquei até agosto no Colmeia. No sexto mês muitas foram soltas e a gente que ficava para trás sentia alegria por elas, mas ao mesmo tempo ficávamos deprimidas e ansiosas lá dentro. Teve um dia que a diretora veio até a nossa cela e disse que tinha uma novidade e nós pensamos que seríamos transferidas para outro bloco. Só que ela veio nos dar a notícia de que a nossa cela ficaria vazia. Naquele momento nos emocionamos e demos Glória a Deus.

O meu marido não saiu até agora e está entre os mais de 40 homens presos no Papuda desde 8 de janeiro. Nossos advogados dizem que levam o assunto para a Procuradoria Geral da República, mas não avança. Nada acontece. Em 2 de dezembro, os filhos de Messias escreveram carta para ele. A menina se chama Geovana (12 anos) e o menino Igor (14 anos). Essas crianças têm somente o pai. Por mais que eu cuide deles como meus filhos, eles querem o pai deles. Eles foram abandonados pela mãe logo que nasceram. Os avós que criavam os dois morreram e agora só resta o pai como referência. Nós estamos casados há 5 anos e tenho feito tudo que posso para suprir suas carências, mas é muito difícil estabilizar as emoções deles, porque eles sabem que o pai deles não fez nada, que é um preso político.


A gente vê no olhar da Geovana o sofrimento por estar afastada há 11 meses do pai. É muita dor naquela criança. E não só para os filhos de Messias, mas também para mim e meus filhos. Tínhamos uma vida muito feliz todos juntos.

Quem visita o Messias no presídio é a namorada do meu filho, por ter as doses da vacina do Covid. Eu e a minha família não vacinamos, então é ela quem leva informações e traz de lá alguma impressão sobre o estado dele. Ele manda dizer que está bem, mas eu sei que ele não está. Ninguém fica bem num lugar como aquele. Ele mandou dizer que está com saudades da nossa mesa posta com nossos filhos. Sente falta de todo mundo junto! Mandou recado de que sente vontade de comer isso e aquilo. Eu sei que a saúde dele não está boa, nunca foi. Ele tem problemas de estômago, dor de cabeça e dor na coluna. Como pode estar bem comendo aquela comida?”

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