Ana Maria Cemin – 16/10/2026
Há dois anos publiquei uma matéria com a história de Vanessa Rolin Vieira, moradora de Ji-Paraná, Rondônia, mãe de seis filhos e esposa de Ezequiel Ferreira Luiz, um dos perseguidos políticos do Governo Lula condenado pelo STF a 14 anos de prisão, em decorrência dos fatos relacionados ao 8 de janeiro.
O relato surgiu após o meu interesse em conhecer Vanessa, após ter assistido um vídeo nas mídias sociais gravado por Jair Bolsonaro com Vanessa e seus filhos no ano de 2024. Na ocasião, ela pediu apoio à pauta da anistia e chamou atenção para as consequências que a família vinha enfrentando desde a prisão do mantenedor da casa e da posterior saída dele do Brasil.
Na reportagem, há dois anos, Vanessa contou que assumiu sozinha a criação dos seis filhos e a administração da empresa de transporte da família, formada por caminhões utilizados no transporte de gado. Naquele momento ela lidava com o bloqueio dos veículos pelo governo, pela impossibilidade de renovar licenciamentos por ordem do STF. Relatou, naquela ocasião, lutar contra a ameaça da continuidade das atividades e do pagamento dos financiamentos dos caminhões, que representavam a principal fonte de renda familiar.
A reportagem também descreveu as dificuldades enfrentadas pela família após a saída de Ezequiel do país, em 25 de maio de 2024, incluindo o acúmulo de responsabilidades, a necessidade de administrar o negócio sem experiência prévia no setor, o cuidado integral com os filhos e os impactos emocionais causados pela separação. Vanessa relatou que passou a fazer acompanhamento psiquiátrico e usar medicação para controlar a ansiedade.
Relatou que o marido não participou de atos de depredação em Brasília. Ezequiel teria ido à capital federal para devolver um veículo alugado e acabou se aproximando da manifestação por curiosidade, sendo preso posteriormente dentro do Palácio do Planalto.
Ao longo da entrevista, Vanessa destaca repetidamente o papel da fé católica como principal fonte de sustentação emocional. A reportagem encerra enfatizando o esforço de Vanessa para manter a educação, os valores religiosos e a estabilidade emocional dos filhos, apesar das dificuldades financeiras, jurídicas e familiares enfrentadas desde 2023.
A matéria que segue a partir daqui é recente, fruto de uma entrevista realizada nesse outubro de 2026. Sugiro a leitura da matéria anterior para que faça mais sentido. A nova matéria visa a informar como está Vanessa e os seis filhos, entre 2 e 11 anos, depois de mais de 2 anos e meio sem convivência presencial com Ezequiel, que se encontra no exílio.
Link para a leitura:
ENTREVISTA DE 16/10/2026 – Texto construído em primeira voz
“Nesses últimos dois anos e meio, eu entrei em um verdadeiro modo de sobrevivência. Precisei lidar simultaneamente com problemas de saúde das crianças, a situação financeira, a mudança de cidade e adaptar as nossas rotinas a toda uma nova realidade.
Antes, em Ji-Paraná, morávamos muito perto da igreja, e atualmente estamos morando em Nova Brasilândia d`Oeste, cerca de duas horas do nosso antigo endereço, em um sítio junto com os meus pais. Antes, a nossa família tinha uma participação muito ativa na comunidade. As crianças eram coroinhas, participávamos de missas quase diariamente e tínhamos uma convivência muito próxima com as pessoas da paróquia.
Hoje, moramos num sítio que fica a 22 quilômetros da cidade. Não é uma distância enorme, mas também não é algo simples de percorrer com frequência. Por isso, conseguimos participar das missas dominicais e das solenidades mais importantes.
A nossa vida comunitária ficou mais limitada, mas por outro lado estamos vivendo num local calmo, com contato com a natureza e com os animais. Além de todos os problemas que vivemos desde 2023, em maio de 2024 fui denunciada por praticar homeschooling e, então, com a mudança para o sítio matriculei todas as crianças numa escola rural, onde consigo ter uma proximidade maior com a direção e professores, por ser uma instituição menor. O ônibus passa em frente ao sítio. Consegui organizar a vida por aqui. Em Ji-Paraná eu tinha outro tipo de vida e podia contar com pessoas que me ajudavam com as atividades da casa e me dedicar mais aos estudos das crianças. Hoje, não tenho recursos nem mesmo para diarista.
Vivemos perto dos meus pais e minhas irmãs por perto, o que é uma grande ajuda. Mas sinto falta de onde vivi 16 anos. Foi em Ji-Paraná que meus filhos nasceram, foram batizados e cresceram. Construímos toda a nossa história naquela comunidade. Sinto falta de lá.
O fato é que a nossa vida foi sendo inviabilizada dia após dia. Passei nove meses sem qualquer remuneração e em fevereiro de 2025 estive em Brasília para contar a minha história no Congresso Nacional e tornar públicas as consequências das perseguições que vivemos. Quando foi em junho, a nossa situação ficou insustentável, porque todos os recursos que tínhamos acabaram. Foi quando fizemos uma campanha de ajuda pela Rádio Auriverde. Com os recursos doados conseguimos reorganizar a nossa vida familiar.
Mas ainda sonho em retomar a nossa vida, quando o meu marido puder retornar e recuperar a sua liberdade. Só então vamos avaliar o que fazer. Não sabemos ainda se voltaremos para Ji-Paraná. É algo que precisaremos reconstruir quando chegar o momento.
OS NEGÓCIOS INVIABILIZADOS
Hoje, todos os nossos caminhões estão parados. Alguns chegaram a operar por um período, mas acabaram sendo bloqueados pelo STF.
Eu entrei na Justiça com um pedido de meação. Os caminhões pertenciam a mim e ao meu marido, então solicitei que a parte que me caberia fosse preservada, inclusive considerando o sustento dos nossos seis filhos.
O STF analisou o pedido e no julgamento encerrado em setembro desse ano, recebi quatro votos favoráveis e sete contrários. Com isso, o meu pedido foi negado.
Na prática, tudo o que envolve os caminhões permaneceu bloqueado, e eu não tive reconhecido o direito à minha parte desses bens. Não consigo colocar os caminhões da empresa em operação.
Enquanto os caminhões ainda estavam operando e com os recursos arrecadados nas campanhas de apoio, tentei pagar o máximo possível das dívidas. Consegui quitar uma parte delas, mas ainda existem valores muito elevados em aberto.
Eram cinco veículos, e todos eram financiados. Ao longo do tempo consegui quitar algumas parcelas e reduzir parte dos compromissos financeiros, mas chegou um momento em que já não foi mais possível continuar.
Hoje não tenho mais coragem de pedir ajuda como antes. Continuo acreditando que a situação pode mudar, mas emocionalmente é muito difícil carregar tudo isso.
FÉ PARA SEGUIR EM FRENTE
Apesar de todas as dificuldades, vejo claramente a ação de Deus na vida da minha família. A exposição da nossa situação trouxe alguns problemas, porque passamos a viver com receio de muitas coisas. Mas também trouxe apoio.
Recebemos ajuda de muitas pessoas. E não estou falando apenas da ajuda financeira, que foi importante para garantir o básico para mim e para os meus filhos. Cada contribuição recebida representava também um gesto de carinho, como se fosse um abraço.
Isso me marcou profundamente. Muitas vezes eu me emociono ao lembrar. Não foi algo que procurei ou planejei. Simplesmente aconteceu. Por isso costumo dizer que fiz o que estava ao meu alcance, e Deus multiplicou aquilo que eu tinha.
Hoje, eu e meus filhos moramos ao lado da casa dos meus pais. Estamos vivendo um dia de cada vez. Graças a Deus, não nos faltam as necessidades básicas. Temos um lugar para morar, comida e segurança.
A casa onde estamos era originalmente destinada ao caseiro, mas foi ampliada e adaptada. Hoje temos um espaço confortável, com quintal para as crianças brincarem e crescerem com segurança.
Meus pais nos ajudam muito. Meu pai, por exemplo, produz carne e divide conosco. Conseguimos manter a alimentação e os cuidados necessários para as crianças.
Além disso, a saúde das crianças melhorou bastante depois da mudança para o sítio. Eles adoecem menos do que antes.
OS SEIS FILHOS E A SAÚDE EMOCIONAL
Vanessa: A Maria completou 10 anos. O mais velho é o Francisco, que fará 12 anos em novembro. Depois vem a Ana, com 7 anos; o Emílio, com 6; o José, com 4; e o Paulo, que está com pouco mais de 2 anos. Já estamos entrando na fase da pré-adolescência com os mais velhos, o que traz novos desafios. A adolescência exige muita atenção dos pais.
Depois de toda essa situação, voltei ao psiquiatra. Ele foi muito direto comigo e disse que eu deveria ter solicitado licença médica antes. Segundo ele, a minha situação era extremamente delicada. Eu vivia em um estado permanente de sobrevivência. Por mais que eu buscasse força na fé e tentasse criar uma rotina organizada para as crianças, o desgaste físico e emocional era enorme.
Fui adoecendo aos poucos. Desenvolvi dores, tenho problemas de circulação nas pernas, sinto muito cansaço e preciso dormir mais para conseguir manter o mínimo de equilíbrio.
Um sacerdote também me orientou a cuidar melhor da minha saúde. Disse que eu precisava de tratamento, de descanso, de atividade física e de atenção à minha saúde emocional.
Passei então a fazer acompanhamento psiquiátrico e terapêutico, porque houve momentos em que senti que a vida estava perdendo o brilho. Criar filhos exige calma, paciência, firmeza e presença. Quando você está emocionalmente esgotada, fica muito mais difícil educar.
Às vezes a pessoa corre o risco de perder a paciência justamente com quem mais ama. Outras vezes, para evitar uma explosão emocional, acaba cedendo em situações em que deveria manter limites.
Eu precisei aprender a encontrar equilíbrio para continuar sendo uma mãe presente e educar meus filhos da melhor forma possível, mesmo enfrentando todas essas dificuldades.
Para conseguir educar meus filhos da forma que acredito ser correta, preciso estar emocionalmente equilibrada. Preciso ser firme sem me irritar, orientar com amor e manter uma relação saudável com eles.
O problema é que vivo constantemente em estado de sobrevivência. Estou sempre no limite. Acordo todos os dias sabendo que sou a única responsável por tudo dentro da casa.
Se surge algum problema na escola, sou eu quem resolve. Se há uma questão financeira, sou eu quem resolve. Se existe algo relacionado à casa ou à rotina das crianças, também sou eu quem cuida.
Apesar de tudo, há um lado positivo porque cada criança ajuda de acordo com a sua idade. Dividimos responsabilidades para manter a casa organizada e garantir que tudo funcione. Esse equilíbrio exige muito acompanhamento da minha parte.
Também procuro não transformar essas tarefas em um peso para eles. Quero que entendam a importância de colaborar, mas sem perder a leveza da infância. Acredito que participar da rotina da família fortalece a autoestima das crianças e as ajuda a desenvolver senso de responsabilidade.
Atualmente estou afastada do trabalho. Meu cargo é de técnica fiscal agropecuária, numa agência sanitária aqui em Rondônia. Sou concursada desde 2009. Entrei muito jovem no serviço público e já tenho muitos anos de atuação na instituição.
Depois de toda essa situação, ficou claro para mim e para os médicos que eu não teria condições de voltar ao trabalho nesse momento. O meu psiquiatra foi muito direto. Ele disse que eu estava vivendo em uma situação extremamente delicada e que insistir em trabalhar poderia agravar ainda mais meu quadro emocional.
Ele também me alertou que eu não poderia ficar sem receber remuneração. Segundo ele, recusar a licença médica seria quase uma questão de orgulho, porque eu estava tentando suportar algo que claramente ultrapassava os meus limites.
No entanto, a minha conta-salário continua bloqueada por ordem do STF. Isso não mudou. Então eu me viro para sobreviver.
Minha realidade hoje exige que eu esteja disponível integralmente para cuidar da casa e dos meus filhos. O desgaste emocional ainda é muito grande.
INCERTEZAS SOBRE O FUTURO
Os caminhões permanecem parados, mas o processo de execução ainda não foi concluído. Acredito que isso também esteja relacionado à existência dos financiamentos.
Vivemos em uma situação de incerteza. Não sabemos quando poderá ocorrer algum recolhimento dos bens ou alguma medida por parte das instituições financeiras.
Algumas parcelas ficaram comprometidas ao longo desse período e tanto o meu nome quanto o do meu marido acabaram sendo negativados.
Vivemos constantemente aguardando novos desdobramentos e novas dificuldades.
O fato é que com os recursos arrecadados nas campanhas de ajuda, consegui comprar um caminhão usado. O meu objetivo é manter pelo menos uma parte da atividade que o meu marido exercia e preservar a empresa até que ele possa voltar.
Também tentei trabalhar com caminhões de terceiros para manter clientes e gerar alguma renda, mas o setor de transporte é uma atividade de alto risco e, infelizmente, tivemos prejuízos. Em determinado momento, um caminhão tombou e permaneceu cerca de quatro meses parado na oficina. Isso trouxe novos problemas financeiros.
Mesmo com toda essa carga de problemas, eu continuo acreditando que preciso seguir em frente, no entanto aprendi que não posso assumir mais responsabilidades do que consigo carregar.
Percebi que era melhor viver com menos e preservar a minha saúde mental do que tentar expandir atividades e acumular ainda mais preocupações.
Se o Ezequiel estivesse aqui, tudo seria diferente. Muitas dessas responsabilidades poderiam ser divididas. Sem ele, cada novo compromisso acaba se transformando em mais uma carga sobre mim.
Por isso, hoje minha prioridade não é crescer financeiramente ou resolver imediatamente todas as dívidas. Minha prioridade é sobreviver a esse período, cuidar dos meus filhos e manter nossa família estruturada.
A nossa dívida hoje gira e torno de R$ 350 mil e são relacionadas aos caminhões parados por ordem do STF. É um valor muito alto. Apenas trabalhar não será suficiente para resolver isso rapidamente. Por isso, procuro dar um passo de cada vez e confiar que, no momento certo, encontraremos uma solução.
Ainda existem muitas incertezas. Não sei se, em caso de anistia, teremos os caminhões de volta ou não. Os veículos permanecem parados há tanto tempo que já acumulam prejuízos apenas por estarem sem uso.
Já não me preocupo com as dívidas da mesma forma que antes. Cheguei à conclusão de que preciso mudar a estratégia para continuar seguindo em frente. Não se trata de desistir, mas de encontrar um caminho que me permita sobreviver.
Neste momento, minha prioridade é garantir a segurança, a educação e o bem-estar dos meus filhos. Infelizmente, toda essa situação afetou profundamente a nossa rotina familiar. Não consigo ser a mãe que gostaria de ser em todos os aspectos porque grande parte da minha energia é consumida pelas dificuldades que enfrentamos.
Ainda assim, estou tentando reconstruir nossas rotinas. Neste semestre, por exemplo, retomei de forma mais intensa algumas atividades educacionais complementares. As crianças frequentam a escola pela manhã e, à tarde, realizamos atividades de apoio, incluindo aulas por videoconferência. Com os menores, acompanho pessoalmente parte dessas atividades.
É exigente, mas encontro propósito nisso. Estou cuidando das pessoas mais importantes da minha vida: meus filhos.
Assim, procuro manter uma rotina organizada. Por volta das oito horas da noite todos já estão se preparando para dormir. Fazemos nossas orações em família e, depois disso, cada um vai descansar.
Percebo que, quando conseguimos manter uma rotina estável, os resultados aparecem. As crianças dormem melhor, ficam mais saudáveis, rendem mais nos estudos e apresentam menos irritação durante o dia.
Mas é impossível não perceber que existe uma carência emocional. É difícil falar sobre isso, mas é a realidade.
Por mais que eu me esforce, existe uma ausência que não consigo preencher. Posso ser mãe, mas não posso substituir o pai das crianças.
O Paulo, por exemplo, praticamente não conviveu com o pai. Ele nasceu e pouco tempo depois o pai precisou partir.
Já o Francisco, que é o mais velho, guarda muitas lembranças. Frequentemente fala sobre atividades que gostaria de fazer com o pai, como pescar ou cuidar dos animais.
Vejo claramente a importância da presença paterna. Não apenas para mim como esposa, mas principalmente para as crianças.
A presença do pai traz segurança emocional. Os filhos se sentem mais confiantes, mais protegidos e até os conflitos entre irmãos diminuem.
Moro perto da minha irmã, que tem nove filhos, e observo como a presença constante do pai e da mãe contribui para o equilíbrio familiar.
Na prática, percebo que crianças que convivem com ambos os pais tendem a crescer com mais segurança emocional e maior estabilidade afetiva.
COMO ESTÁ EZEQUIEL NO EXÍLIO?
Meu marido não gosta de demonstrar que está sofrendo. Sempre que conversamos, procura me tranquilizar. Diz que está bem e tenta me animar. Mas eu consigo perceber quando ele está mais abatido.
Quando ele fica muito tempo sem atividades ou permanece mais isolado, noto que fica mais triste e angustiado. Existem assuntos sobre os quais ele até evita falar porque são dolorosos. Mesmo assim, sempre tenta transmitir esperança e confiança.
Conversamos com cautela sobre temas políticos, por serem. São assuntos delicados e que geram muita expectativa.
Eu procuro manter a esperança e a fé, mas também tento olhar para a realidade com os pés no chão. Depois de tudo o que vivemos, é difícil não analisar os acontecimentos com certa preocupação.
Apesar disso, continuo acreditando que Deus está conduzindo as coisas e que precisamos seguir em frente confiando.
Ezequiel ficou cerca de sete meses preso em Brasília. Foi preso logo após os acontecimentos do 8 de janeiro. E o fato é que mal chegou no local e acabou sendo preso.
Portanto, mantenho uma postura realista. Ainda vejo muitas famílias vivendo incertezas semelhantes às que nós enfrentamos. Ao mesmo tempo, acredito que é preciso continuar mantendo a esperança e buscar forças para seguir.
Por mais dolorosa que seja a distância do Ezequiel, acredito que é muito melhor ele poder conversar por telefone com os filhos, acompanhar o crescimento deles e manter contato conosco do que permanecer preso num presídio, onde teria pouco acesso à família.
As visitas ao sistema prisional seriam extremamente difíceis para toda a família, principalmente para as crianças. Além da distância e dos custos, haveria o peso emocional de submeter os filhos a esse ambiente. Por isso, apesar do sofrimento causado pela separação, entendo que foi a melhor escolha possível dentro das circunstâncias que enfrentávamos.
E SOBRE ACOMPANHAR EZEQUIEL NO EXÍLIO?
Em alguns momentos pensamos que o exílio poderia ser a melhor alternativa para todos nós, mas nunca consegui enxergar como seria possível deixar o país com seis crianças pequenas.
No início eu tinha mais esperança de conseguir fazer isso. Com o passar do tempo, percebi que não tinha estrutura emocional nem financeira para enfrentar uma mudança tão grande e garantir a segurança dos meus filhos durante todo esse processo.
Apesar de toda a dor dessa separação, reconheço que tenho uma rede de apoio muito importante. Estou perto dos meus pais, das minhas irmãs, dos meus sobrinhos. Conseguimos construir um ambiente saudável para as crianças enquanto aguardamos que a situação se resolva.
Desde 25 de maio de 2024 estamos sem o Ezequiel. Ele foi julgado e condenado a 14 anos de prisão bem na época em que eu estava grávida do nosso último filho. Muitos manifestantes perseguidos já haviam deixado o país, mas nós ainda permanecíamos aqui.
Lembro claramente daqueles dias. Cheguei de uma missa e encontrei o Ezequiel num dilema sobre deixar o país ou correr o risco de ser preso a qualquer momento.
Foi um período extremamente difícil para nós.
Mesmo depois de condenado, ele decidiu ficar por mais alguns dias, acompanhando o nascimento do Paulo, que nasceu em 4 de maio, e graças a Deus o Ezequiel estava presente nesse momento.
Pouco depois, o Paulo precisou ficar internado durante dez dias para receber antibiótico na veia. Durante esse período, eu permaneci no hospital e o Ezequiel ficou em casa cuidando dos outros filhos.
Quando o Paulo recebeu alta, realizamos o batizado dele e foi justamente nessa época que a situação se tornou ainda mais urgente. Nunca vi meu marido sofrer tanto quanto naquela fase. Para ele, foi extremamente doloroso deixar tudo para trás. Precisou abandonar a casa, o trabalho, os bens e a rotina familiar. Como esposa, foi uma situação muito dolorosa de acompanhar.
Ainda mais porque a gente sabe que foi injusta essa condenação. Ele não participou de atos de depredação, chegou ao local quando muitos acontecimentos já haviam ocorrido e permaneceu ali por pouco tempo antes de ser preso. Não existem fotos, vídeos, exames de perícia ou outros elementos que demonstrem participação direta em atos de destruição. Por isso considero a condenação extremamente pesada.
O que mais me marcou a nossa família é perceber que as consequências ultrapassaram a pessoa do Ezequiel e atingiram diretamente a família. O bloqueio da minha conta-salário é um exemplo disso. Eu não estava em Brasília e não participei de nada relacionado aos fatos investigados, mas continuo convivendo com essa situação.
Existe um sentimento constante de insegurança jurídica. Até para receber aquilo que é meu por direito eu sinto receio. É uma sensação difícil de explicar.
Apesar de todas as dificuldades, continuo buscando os meios legais para defender aquilo que considero justo para mim e para meus filhos.
Como já disse anteriormente, a minha prioridade é garantir a estabilidade, segurança e condições para que as crianças possam crescer da melhor forma possível, apesar de todas as circunstâncias que enfrentamos.
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