Ana Maria Cemin – 02/09/2026
O Supremo Tribunal Federal levou mais de duas semanas para registrar oficialmente a morte de Ronaldo Edison Richard, 63 anos, morador de Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul. O idoso, que nunca esteve em Brasília, morreu em 10 de agosto de 2026, vítima de infarto, enquanto ainda respondia a uma ação penal que o acusava de cinco crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023. Mesmo após o falecimento, o ministro Alexandre de Moraes o intimou a apresentar alegações finais no dia 24 de agosto, quando Richard já estava sepultado no cemitério da Igreja de Cristo, na zona rural do município.

A vida de Richard havia se desestruturado desde que a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão em sua casa, em 8 de janeiro de 2024. O motivo: conversas em seu celular sobre a organização de um ônibus que levaria manifestantes de Santa Rosa a Brasília no início de janeiro de 2023. O idoso, que recebia LOAS devido a sequelas de uma doença de infância e andava de muletas, não participou da viagem por limitações físicas. Ainda assim, foi denunciado por associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.


Com o processo instaurado, seus bens foram bloqueados e ele passou a viver sob forte pressão emocional e financeira. O interrogatório ocorreu em novembro de 2025 e Richard morreu antes de ser condenado, mas morreu réu, aguardando uma decisão que nunca chegou.
O advogado José Aristeu de Souza, que o representava de forma pro bono devido à falta de recursos, afirma que o episódio revela descuido da Corte. No mesmo dia em que comunicou oficialmente a morte do cliente, o ministro determinou a apresentação das alegações finais. Para o Dr. Aristeu, o caso simboliza um padrão observado por dezenas de advogados que atuam nos processos do 8 de janeiro: petições ignoradas, documentos não lidos e decisões expedidas sem análise detalhada das defesas.
Richard tornou‑se o 11º falecido entre os investigados e réus do 8 de janeiro. A lista inclui trabalhadores que morreram em acidentes enquanto usavam tornozeleira, preso que faleceu na Papuda, exilado que sucumbiu a doenças fora do país e réus que enfrentaram deterioração física e emocional após anos de medidas cautelares, bloqueio de bens e restrições de trabalho. Para advogados que acompanham esses casos, há um padrão de punição desproporcional e desgaste extremo, que atinge especialmente pessoas pobres e sem estrutura jurídica.
O caso do idoso de Santa Rosa expõe a distância entre a vida real de muitos réus e a narrativa oficial sobre o 8 de janeiro. Richard era um homem simples, que vivia com um salário mínimo e dependia de muletas para se locomover. Seu envolvimento se limitou a confirmar a locação de um ônibus para amigos que pretendiam viajar. Mesmo assim, enfrentou acusações que vêm resultando em penas superiores a 14 anos de prisão para outros réus.
A morte de Richard levanta questionamentos sobre o funcionamento da Justiça, o peso das acusações e o impacto humano dos processos. Ele morreu em silêncio, longe de Brasília, longe dos holofotes, longe da narrativa institucional. Morreu como réu. Morreu esperando Justiça. Morreu sem ser ouvido.
Em tempo: Hoje, 2 de setembro, entrei na página do STF na Ação Penal de Ronaldo Edison e consta que o processo será arquivado. No STF, é claro. Em nossos corações e mentes ele jamais será esquecido. Aguardamos a justiça chegar!
Publicar comentário