Ana Maria Cemin – 26/04/2026
Fabíola Rocha é uma cidadã comum perseguida pelos acontecimentos de 8 de janeiro e atualmente vive fora do Brasil. Ela foi condenada a 17 anos de prisão, após sobreviver a sete meses na Colmeia, a unidade feminina do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
Ela me pediu que compartilhasse esta carta, escrita em 24 de abril de 2026, nesse momento em que ainda enfrenta o luto pela morte trágica de seu filho, Guilherme, em Rondônia.
Peço que prestem atenção às palavras dessa mãe que foi separada do próprio filho, uma dor que atinge centenas de pais que vivem a separação há três anos e quatro meses.
No caso dela, essa separação se tornou irreversível.
“Ao Brasil que me expulsou,
Eu sou Fabíola. Faz dois anos que vocês me jogaram para fora do meu país, da minha Rondônia que tanto amo. Não me convidaram a sair. Me expulsaram.
A perseguição política no Brasil tem endereço: o meu. Tem nome, tem rosto, tem carimbo e tem consequências.
Faz dois anos desde o último abraço no meu filho. A passagem dele para a Argentina estava comprada.
Ele morreu há três meses. Antes de pisar no avião. Antes de me ver livre.
Faz dois anos que saí da minha casa. Deixei meu filho no portão, me vendo entrar em um carro e sair sem saber que seria a última vez. Lembro que segui chorando, sem olhar para trás, com medo de desistir. Eu não podia desistir. Ainda sinto o cheiro dele. Ali eu entendi que o Brasil, o meu Brasil, tinha virado um lugar perigoso para quem ousa ter voz e desafia o sistema.
Me deram duas opções: a prisão ou a fronteira. Eu escolhi viver. Atravessei para o lado de cá, para a Argentina, com uma mala, com medo e com a promessa de que meu filho viria me encontrar depois.
Vocês não exilaram só uma mulher. Vocês exilaram uma mãe. Me tiraram dois anos de convivência com o meu filho.
Vocês acham que exílio é só distância?
Exílio é enterrar um filho longe, por videochamada.
Exílio é aprender a dizer “mi hijo falleció” num idioma que não é o seu.
Hoje eu não escrevo como exilada. Escrevo como uma mãe que enterrou o filho longe, sem poder voltar para casa. Escrevo com um assento vazio do meu lado e com um país inteiro atravessado na minha garganta.
Brasil, você sabe o que é obrigar uma mãe a escolher entre a vida e a terra, entre a liberdade e a prisão? Sabe o que é viver longe de tudo que ama? Sabe o que é mudar de vida sem querer?
Vocês me perseguiram. Me condenaram. Me arrancaram da convivência com os meus filhos. Vocês me condenaram a viver com o “quase”, que dói mais que uma cadeia: quase reencontro, quase volto para casa, quase liberdade, quase paz.
Mas eu não escrevo só com raiva, Brasil. Escrevo com verdade.
Tenho raiva, sim. Raiva de quem transformou o Brasil em um lugar perigoso para quem pensa
diferente. Raiva de ter que aprender a viver em outro país enquanto enterro meu filho em
pensamento, sem poder pisar no chão onde ele cresceu. Raiva de quem me expulsou da minha terra e me fez mãe por chamada de vídeo. Raiva de ter comprado uma passagem que virou lápide. Raiva de um país que condena e abandona seu próprio povo.
Eu fujo de vocês há dois anos. Me tiraram do meu endereço, meu trabalho, minha vida. Da convivência com a minha família. Eu tinha o direito de discordar, de me manifestar. Vocês me deram uma prisão.
Eu tinha o direito de enterrar meu filho, mas só tive uma foto no celular. Hoje o medo me persegue.
Tenho medo de não ver meus outros filhos novamente. Tenho medo quando o celular toca. E isso não é efeito colateral. É tortura. É crime.
Não me peça patriotismo depois disso. Pátria que persegue mãe não é mãe de ninguém. É algoz.
Pátria que prende mães por meses, condena por 17 anos e ameaça com extradição não é mãe de ninguém.
São três anos de perseguição política. Sete meses presa. Uma sentença de 17 anos nas costas por exercer meu direito de me manifestar. Dois anos de exílio. E três meses de luto.
A Argentina me deu abrigo, mas não me deu paz. Aqui o vento é outro, o céu é outro. O portunhol tropeça na minha boca quando eu só queria gritar em português. Eu caminho pelas calles com o Brasil no peito e meu filho na lembrança. Sobrevivi à perseguição, mas tem noites que a saudade me persegue mais que qualquer autoridade. Ela não bate na porta. Ela deita do meu lado e me mostra o que perdi.
Brasil, eu quero que você olhe para mim. Para cada Fabíola que teve que fugir de uma perseguição política para não ser presa. Para cada Guilherme que teve que ficar sem a mãe. Para cada mãe que teve que decorar o último abraço porque foi o único que sobrou.
Para o Brasil que me persegue: vocês ficaram com meu CEP, com meu CPF, com o meu calor. Mas não ficaram com a minha memória. Não ficaram com a minha dignidade. E não vão ficar com a minha história.
Eu vou contar até o fim: que eu fui expulsa, mas não me calei. Que perdi meu filho, mas não perdi a luta. Hoje eu choro aqui. Choro porque dois anos é muito tempo para viver com “quase”. Mas choro também porque eu não desisti.
Eu fiquei com a história. E a história vai dizer que vocês separaram mãe e filho. Que vocês trocaram a democracia por perseguição.
Eu volto, Brasil. Não pra pedir perdão, mas para cobrar.”
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