Ana Maria Cemin – 16/01/2026
Converso com alguma frequência com Jorge Weizenmann, marido de Fátima, uma presa política do 8 de janeiro. Ele tem 57 anos e ela tem 58 anos. São moradores de Arroio do Meio, RS, estão casados há 29 anos e são pais de Marcelo e Fernando. Mantenho o conteúdo integral da entrevista que fiz ontem, com um toque espontâneo e oral, para que você participe da nossa conversa. São os testemunhais da verdade, e não narrativas, que me fazem continuar esse trabalho formiguinha de reconstruir o 8 de janeiro a partir da visão de quem efetivamente vive até hoje aquele “momento”. Venha comigo!
— Jorge, como foi o 8 de janeiro para você que é marido de Fátima. Ela ficou presa em Brasília e até hoje, três anos depois do ocorrido, ainda usa tornozeleira eletrônica. Como vocês entraram no 8 de janeiro?
Jorge – Bom… isso foi, eu acho, numa sexta-feira. A gente estava em casa, eu e ela, os guris estavam na praia, e eu já com o carro pronto para ir para a praia. E Fátima ainda estava acompanhando a negociação do pessoal para arrumar uma condução para ir para Brasília na manifestação. E eu falei para a Fátima: “Vamos junto para a praia. Os guris estão esperando a gente.”
E ela disse: “Não, não posso. Não posso deixar o pessoal de Lajeado.” Eles estavam quase todos os dias juntos numa manifestação em Lajeado. “Eu não posso deixar meus patriotas.” Porque ela meio e tinha uma amiga muito próxima aqui em Arroio do Meio que também participava. Fátima é muito comprometida com o que assume e com as pessoas, então ela acabou indo para Brasília e eu fui para a praia.
Foi com o pessoal de microônibus e partiram de Lajeado – só tinha ela e mais dois de Arroio do Meio. Chegaram lá no domingo e foi para o acampamento se acomodar.
— Quanto tempo a Fátima ficou em Brasília?
Jorge – No domingo chegaram lá e na segunda-feira foram presas no acampamento em frente ao Exército. Foram para os ônibus, ficaram circulando o dia inteiro em Brasília dentro dos ônibus, e depois foram para o pavilhão da Polícia Federal. Isso já na segunda à noite. Passaram a noite lá, e na terça-feira começou a seleção, a triagem. Alguns de mais idade foram liberados. Depois encaminharam as mulheres para a Colmeia e os homens para a Papuda. Foi feito corpo de delito, todo o processo de um preso normal.
— E ela ficou quanto tempo presa?
Jorge – Ela ficou 10 dias, eu acho. Dez ou onze dias. Ela veio para casa dia 21 de janeiro de 2023. E já chegou com tornozeleira eletrônica.

— De Arroio do Meio só ela foi presa?
Jorge – Só ela. Foram três de Arroio do Meio, e os outros dois foram liberados na triagem lá no pavilhão. Os dois eram maiores de 60 anos, e a Fátima era mais nova, com menos idade.
— E como é que tu se sentiste naquele momento?
Jorge – Ah… cheguei a conversar com ela no dia 8 à noite. E ela falou: “Bah, está acontecendo assim, assim…” Mas sem saber o que iria acontecer. E eu só disse: “Bah, se cuidem.” E, por surpresa, no dia seguinte elas foram presas também. Ela chegou a montar a barraca, passar a noite lá, e de manhã já recolheram tudo.
— E qual é a rotina da Fátima hoje, com as várias restrições?
Jorge – O que eu vou te dizer… as restrições dela são doloridas, humilhantes. O principal: durante a semana, de segunda a sexta, ela pode circular dentro da comarca de Arroio do Meio. A gente mora a 6 km de Lajeado e a 20 de Encantado. Ela não pode ir nem para Encantado nem para Lajeado. Ela pode ficar na rua circulando das 7 da manhã até as 10 da noite. Dez da noite ela tem que estar em casa. Sábados e domingos, ela não pode sair de casa. A gente não pode sair de casa. Eu digo “a gente” porque eu estou sendo castigado junto.
Outro detalhe: toda segunda-feira ela tem que se apresentar no fórum, marcar presença. Tem restrições nas redes sociais. Foi recolhido o passaporte dela. Inclusive, tempos atrás faleceu uma cunhada dela e ela não pode ir se despedir. Esse detalhe é normal para todo mundo, tu sabes como é.
Mas seriam essas as restrições. A gente está limitado. A gente tem sorte por ter bastante amigos. Aí vêm visitar no domingo, no sábado. As irmãs dela também. Mas na própria família existem aqueles que ainda falam: “Ah, mas por que ela foi pra lá?” Isso deixa a gente chateado.
— Ela já foi julgada? Ela já tirou a tornozeleira eletrônica?
Jorge – O julgamento de mérito foi iniciado na Sessão Virtual de 21/11/2025 a 1º/12/2025, mas foi interrompido por pedido de vista do ministro Luiz Fux. O nosso advogado pediu para remover a tornozeleira eletrônica, mas Alexandre de Moraes negou com o argumento que o processo ainda não transitou em julgado. Continua tudo na mesma, inclusive com a volta das atividades do fórum, a Fátima voltará a assinar a presença na semana que vem.
— Desde o dia 23 de novembro de 2023, ou seja, há mais de dois anos, você mantém uma rotina de manifestação pela anistia. Você já fez esse ato 60 vezes, em 60 sábados, no centro de Arroio do Meio. Me fala como é essa atividade?
Jorge— Eu pego minha barraquinha, monto ela, coloco o banner dos presos políticos, a bandeira do Brasil, a bandeira do Rio Grande do Sul e um banner da Fátima com a tornozeleira. E fico ali à disposição para explicar para o pessoal o que foi o 8 de janeiro. O pessoal vem conversar, se esclarecer. Muitos não sabem o que é anistia, não sabem o que aconteceu. É apavorante como tem gente desinformada. Tem gente que passa ali e pede com arrogância: “O que é isso aí?” Eu explico: “Esse cartaz são os presos políticos já condenados do 8 de janeiro.” Um dia um rapaz disse: “Esses aí têm que apodrecer na cadeia, eles e o Bolsonaro junto.” Eu fico pensando: assim como tem gente desse tipo, tem também gente que se sensibiliza. Então eu me motivo para voltar no sábado seguinte.
— Quantas horas tu ficas com a barraca?
Jorge – Normalmente das 8 da manhã até meio-dia. Quatro horas. No começo o pessoal mais próximo apoiava mais. Agora parece que não dão mais importância. O pessoal esquece. Eu fico na Rua Coberta, bem no centro de Arroio do Meio, e nas manhãs de sábado tem a feira do agricultor, onde expõem os produtos da colônia. Então é um ponto bastante estratégico, onde tem circulação de pessoas.
— Como tu sente esse vazio de não ter apoio?
Jorge – Tudo isso afeta a Fátima, principalmente. Tem coisa que eu nem falo para ela justamente para não a machucar. Mas não é só ela… às vezes bate um baixo astral, dá uma dor no coração que dá vontade de chutar tudo. Às vezes dá isso.
— Mas tu não chutas, né?
Jorge – Não, não. Eu me comprometi. Eu estou com esse propósito aí. A princípio, o meu propósito, quando decidi, foi: “A Fátima não pode sair no final de semana. O que eu posso fazer por ela?” E me surgiu isso aí. Já que eu estava fazendo — fazia dois sábados já — coletando assinaturas do pessoal da ASFAV para o Projeto de Lei do Clezão, eu pensei: “Vou continuar no sábado até ela tirar a tornozeleira.” Esse era o meu propósito.
Mas nunca pensei assim: “Vou parar depois.” Não sei se vou continuar mesmo depois que ela tirar a tornozeleira. Não sei ainda. Isso eu vou conversar com ela, porque a gente tem outros planos em mente. Mas não vou desistir, não vou largar de mão. Só vou ver como vou proceder.
Se alguém, daqui a pouco, quiser aproveitar esse espaço em Arroio do Meio, creio que é importante. Tem inúmeros motivos para a gente dar continuidade nisso aí, Ana. Assunto não falta. Um deles seria a contagem pública dos votos.
Nesta semana, veio uma conhecida nossa, uma parente. O pessoal vem me procurar para mostrar solidariedade. Ela falou: “Jorge, eu rezo todo dia pela Fátima e pelo pessoal que foi condenado. E vocês ainda estão bem em relação a outros.” E eu disse: “A gente está lesado, mas comparando com aqueles mais de 400 que foram condenados a penas altas e estão presos, pagando… a gente ainda está bem.”
No modo de dizer, né. Não é aceitar, mas podia ter sido pior.
Temos fé na justiça Divina. Eu sempre digo: Tudo tem seu Propósito, nada acontece por acaso!
” O HOMENZINHO LÁ DE CIMA SABE O QUE ESTÁ FAZENDO”
1 comentário