
Ana Maria Cemin – 29/08/2025
Valfrido Chieppe Dias, 53 anos, não tem a menor ideia de como está o seu processo judicial. Ele nem foi citado. Corre em segredo de justiça. Ele é atendido pela Defensoria Pública e não reclama, pois diz que os defensores são muito atenciosos. Ou melhor, não reclama de ser defendido pela estrutura pública, porque aqui ele quer contar o absurdo que é ser tratado pior do que criminoso, simplesmente por ter opinião contrária ao atual governo.
Morador de Vila Velha e ex-soldado da Polícia Militar do Espírito Santo, Valfrido foi preso em 27 de janeiro de 2023, durante a terceira fase da Operação Lesa Pátria, conduzida pela Polícia Federal. Na ocasião, foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória 2, em Viana (ES), onde permaneceu em regime fechado durante 327 dias, dos quais 100 dias em cadeira de rodas.
Posteriormente, Valfrido obteve autorização judicial para responder ao processo em liberdade, mediante o uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares. Ele conta que, durante os primeiros 15 dias de prisão, começou a sentir dores intensas nos pés e joelhos, até perder a capacidade de andar. Segundo seu relato, implorou por atendimento médico, mas teve o pedido negado. Só após desmaiar diversas vezes na cela, foi levado ao médico, onde recebeu apenas medicação para dor, sem investigação da causa. O argumento utilizado pela equipe de saúde era de que o local funcionava como uma Unidade Básica, sem estrutura para exames mais aprofundados.
Após o diagnóstico da doença, foi prescrita uma dieta especial. No entanto, a comida era preparada de madrugada e, quando a janta chegava por volta das 17h30, já estava azeda. Na prática, sua alimentação se limitava ao almoço, pois a janta não estava em condições de ser ingerida.
Valfrido também relata possuir deficiência respiratória, agravada pelas condições insalubres da cela, contaminada por ácaros e fungos. Para evitar conflitos com outros detentos, afirma que foi dopado com medicamentos fortes, o que acabou provocando um surto psicótico.
Até o momento, ele não foi julgado. O processo segue em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa sustenta que Valfrido não teve participação direta nos atos de vandalismo e que sua presença em Brasília teve caráter pacífico. Enquanto aguarda o desfecho judicial, ele permanece sob monitoramento eletrônico, com restrições de deslocamento e obrigações de comparecimento periódico à Justiça. Isso limita o seu trabalho à noite e finais de semana, quando deve permanecer dentro de casa, sob risco de voltar ao cárcere.
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