Ana Maria Cemin – 20/01/2026
Quando José Fernando Honorato Azevedo, 69 anos, foi levado pela primeira vez ao Complexo Penitenciário da Papuda, em 19 de janeiro de 2023, ainda não sabia que aquele seria apenas o início de uma travessia longa, silenciosa e devastadora. Entrou como tantos outros: algemado, cansado, atordoado pela súbita transformação de sua vida. Mas carregava algo que só mais tarde se revelaria: um corpo que já dava sinais de que não suportaria uma guerra tão longa.
Nos meses que se seguiram, o país fervia em debates, acusações, narrativas sobre um golpe de estado sem armas. Honorato, porém, vivia outra história: a do homem que, atrás das grades, começava a sentir o peso de uma dor que não sabia nomear. Em 7 de dezembro de 2023, sua defesa pediu que um médico particular pudesse examiná‑lo. O pedido foi aceito, e o ministro determinou que uma junta médica oficial avaliasse se o sistema prisional tinha condições de cuidar dele. Era o primeiro indício de que algo grave se movia por dentro.
Oito dias depois, em 15 de dezembro de 2023, Honorato deixou a Papuda. Saiu com a tornozeleira apertada no tornozelo, com horários para estar em casa, para existir. Saiu sem passaporte, sem porte de arma, sem redes sociais, sem liberdade plena. Saiu, sobretudo, sem acesso ao próprio dinheiro, bloqueado desde janeiro de 2023. A liberdade provisória era, na prática, uma vida vigiada.
O tempo avançou, e com ele a doença. Em fevereiro de 2024, veio a primeira suspeita concreta: talvez fosse câncer. Talvez no pâncreas. Talvez no fígado. Para fazer uma simples ressonância, Honorato precisou pedir autorização ao Supremo. A tornozeleira não podia entrar na sala de exame. A burocracia, porém, podia entrar em qualquer lugar, inclusive no corpo de um idoso doente.
O ano virou e 2025 chegou como um vendaval. Em agosto, Honorato foi internado às pressas no Hospital Santa Lúcia Norte. Precisava de ressonância, de drenagem, de procedimentos invasivos. A tornozeleira teve de ser retirada por ordem médica. O sistema de monitoramento acusou violação. A Vara de Execuções comunicou o STF. O ministro pediu explicações em 48 horas. A máquina jurídica não sabia — ou não podia saber — que o corpo de Honorato já travava outra batalha, muito mais urgente.
Setembro trouxe dois acontecimentos que revelam a contradição de sua vida. No dia 2, o STF autorizou a retirada temporária da tornozeleira para que ele pudesse fazer uma ecoendoscopia com biópsia. No mesmo dia, após quase três anos de bloqueio, sua aposentadoria foi finalmente desbloqueada. Até então, Honorato dependia de amigos para comprar remédios, pagar exames, sobreviver. A liberação veio tarde, mas veio.
No dia 30, outro episódio: seu animal de estimação foi atropelado. Honorato correu para socorrê‑lo. O deslocamento acionou o alerta do monitoramento. A ameaça de prisão voltou a pairar sobre sua cabeça. A defesa explicou. O ministro aceitou. Mas o recado estava dado: qualquer passo fora da linha poderia custar‑lhe a liberdade.
Em outubro, o corpo finalmente cedeu. No dia 17, Honorato foi internado no Hospital Anchieta, também em Brasília. Caquexia, desnutrição, fadiga extrema, perda de capacidade funcional. Os médicos falavam em cuidados paliativos. O ministro autorizou a retirada da tornozeleira. Era o fim de uma vigilância que já não fazia sentido: o corpo, afinal, já não tinha para onde ir.
Honorato não voltou para casa.
No dia 19 de novembro de 2025, às portas de um julgamento que poderia condená‑lo a mais de 14 anos de prisão, ele morreu. Morreu réu. Morreu sob cautelares. Morreu com a ação penal ainda aberta. Morreu sem ter sido ouvido na audiência de preparação do julgamento virtual. Já não tinha forças para falar, para andar, para existir fora do leito.
No dia seguinte, foi velado e sepultado em Brasília. No dia 25, o STF extinguiu a punibilidade. No dia 17 de dezembro, a ação foi arquivada.
A história de Honorato é a de um homem que atravessou quase três anos entre vigilância e doença, entre burocracia e dor, entre o peso do Estado e a fragilidade do corpo. Um homem que viveu seus últimos meses entre autorizações judiciais, exames invasivos, internações sucessivas e a esperança — talvez ingênua, talvez justa — de que ainda haveria tempo. Quantos outros se encontram na mesma situação?
Para ele o tempo não esperou. Morreu antes de ser julgado. Antes de completar 70 anos nesse 2026. Na contramão da anistia.
Publicar comentário