Ana Maria Cemin – 20/01/2026
Hoje completa dois meses do enterro do oitavo preso político que morreu sem ver a justiça voltar ao Brasil. Os últimos três anos de vida do idoso José Fernando Honorato Azevedo, policial federal aposentado, é um retrato da interseção entre processo penal, saúde pública, burocracia estatal e vulnerabilidade humana. Nesse 2026, ele completaria 70 anos, mas morreu antes, e de uma forma que queremos contar aqui. Entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, Honorato atravessou um percurso marcado por prisão preventiva, medidas cautelares extremamente rígidas, bloqueio de bens, deterioração progressiva da saúde, dependência financeira de amigos, sucessivas internações, e, por fim, morte antes do julgamento.
A trajetória de José Fernando Honorato Azevedo revela um processo penal longo e severo, medidas cautelares que interferiram diretamente em sua saúde, bloqueio de bens que o deixou vulnerável, sucessivas internações tratadas como potenciais violações e uma doença devastadora que avançou enquanto ele lutava para cumprir exigências judiciais.
Honorato morreu antes de ser julgado. Morreu ainda réu. Morreu ainda sob cautelares. Morreu ainda com bens recém‑desbloqueados. Morreu esperando uma justiça que nunca veio.
De forma cronológica, relato os principais eventos jurídicos e médicos que moldaram seus últimos anos.
A PRISÃO PREVENTIVA
Honorato foi preso preventivamente em 19/1/2023, acusado de participar dos atos que resultaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. A prisão se baseou na alegação de que tais atos buscavam coagir e impedir o exercício dos poderes constitucionais. Ele foi encaminhado ao Complexo Penitenciário da Papuda, onde permaneceu por quase 11 meses.
TORNADO RÉU PELO STF
Entre 14 e 18 de agosto de 2023, o Plenário do STF recebeu a denúncia contra Honorato, tornando‑o réu pelos crimes de associação criminosa armada (art. 288, parágrafo único), abolição violenta do Estado Democrático de Direito (359‑L), golpe de Estado (359‑M), dano qualificado (163, I a IV), crime ambiental (art. 62 da Lei 9.605/98), concurso de pessoas e concurso material. Esse é o marco inicial da Ação Penal 2340.
PRIMEIROS SINAIS DE ADOECIMENTO NO PRESÍDIO
Ainda preso, em dezembro de 2023, Honorato apresentou sinais de adoecimento. A defesa pediu autorização para que ele fosse examinado por médico particular. O ministro Alexandre de Moraes autorizou o exame por médico de confiança e determinou que Honorato fosse submetido a exames por uma junta médica oficial em 48 horas, para avaliar sua real condição de saúde e a capacidade do sistema prisional de atendê‑lo. Esse é o primeiro registro formal de preocupação médica.
LIBERDADE PROVISÓRIA COM CAUTELARES SEVERAS
Oito dias depois, em 15/12/2023, Moraes concedeu liberdade provisória, mas com um conjunto de medidas cautelares extremamente rígidas: tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno e nos fins de semana, proibição de sair da comarca, comparecimento semanal obrigatório, cancelamento de passaportes, suspensão de porte de arma e certificados de CAC, proibição de redes sociais, proibição de contato com outros investigados. Qualquer descumprimento implicaria retorno imediato ao presídio.
PRIMEIRA SUSPEITA DE CÂNCER
A defesa informou que Honorato precisava realizar ressonância magnética de abdômen com contraste, diante da suspeita de câncer de pâncreas ou fígado. Isso foi em 20 de fevereiro de 2024. Como a tornozeleira impedia o exame, foi solicitado o afastamento temporário da cautelar. O STF exigiu comprovação do agendamento em 48 horas. Esse é o marco inicial da trajetória oncológica.
INTERNAÇÕES GRAVES E CONFLITO COM O MONITORAMENTO
Em 15/8/2025, Honorato foi internado no Hospital Santa Lúcia Norte para ressonância magnética, drenagem invasiva, exames incompatíveis com a tornozeleira. O equipamento precisou ser retirado por ordem médica.
Em 27/8/2025, a VEP comunicou ao STF possível descumprimento das cautelares.
Em 28/8/2025, Moraes exigiu que a defesa apresentasse, em 48 horas, previsão de duração da internação, documentação comprobatória. A saúde já estava gravemente comprometida.
DOIS FATOS DECISIVOS NO MESMO DIA
O STF autorizou a retirada temporária da tornozeleira para que Honorato realizasse, em 3/9/2025, uma ecoendoscopia com biópsia no Hospital Brasília. A autorização valia apenas para aquele dia.
No mesmo dia, Moraes deferiu o pedido da defesa para desbloquear a aposentadoria de Honorato, bloqueada desde janeiro de 2023. Até então, ele não tinha acesso ao próprio salário, dependia financeiramente de amigos, enfrentava negativas do plano de saúde e lutava contra uma doença grave. A PGR reconheceu razões humanitárias e a necessidade de preservar sua dignidade.
AMEAÇA DE PRISÃO POR SOCORRER O ANIMAL DE ESTIMAÇÃO
Quando seu animal foi atropelado, no final do mês setembro de 2025, Honorato o levou para exames veterinários. O deslocamento acionou o sistema de monitoramento, gerando ameaça de prisão por suposto descumprimento das cautelares. A defesa explicou o ocorrido, e ele não foi recolhido ao presídio. O episódio ilustra o nível de vigilância e fragilidade de sua situação. Esse foi apenas um dos muitos casos de ameaça de prisão vividos em três anos de monitoramento.
INTERNAÇÃO DEFINITIVA
A defesa informou ao STF que Honorato havia sido internado no Hospital Anchieta em 17/10/2025, sem previsão de alta. Os relatórios médicos descreviam caquexia, desnutrição, fadiga intensa, perda de capacidade funcional, necessidade de cuidados paliativos, quimioterapia e radioterapia de caráter paliativo.
RETIRADA DA TORNOZELEIRA
Diante da internação prolongada e do quadro terminal, Moraes autorizou a retirada imediata da tornozeleira e dispensa do comparecimento semanal. Isso em 20 de outubro de 2025. As demais cautelares foram mantidas formalmente.
MORTE NO HOSPITAL ANCHIETA
Após um mês de internação contínua, Honorato morreu em 19/11/2025, vítima de câncer de pâncreas. O velório e o sepultamento ocorreram no dia seguinte. Nos primeiros dias daquele mesmo mês, ele não pôde participar da audiência de preparação do julgamento virtual, pois já estava debilitado demais.
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE
Com a certidão de óbito juntada aos autos, o STF declarou extinta a punibilidade.
ARQUIVAMENTO DA AÇÃO PENAL 2340
A ação foi formalmente arquivada nesta data.
OS OUTROS SEIS FALECIDOS
O primeiro preso político a morrer foi Antônio Marques da Silva, operador de máquina de terraplanagem em Barra do Garças, município do Mato Grosso. Morreu por conta de um acidente num “bico” que fazia, que consistia em conserto de um telhado. A queda ocorreu em 29.10.2023.
O segundo a falecer foi Clériston Pereira da Cunha em 20.11.2023 e foi o que mais repercutiu pelo fato dele ter morrido dentro da Penitenciária da Papuda, sendo que já havia manifestações do Ministério Público para que ele saísse em liberdade provisória, o que não foi atendido pelo ministro Alexandre de Moraes.
A terceira morte foi de Giovanni Carlos dos Santos, de São José dos Campos, SP, em 24/01/2024, quando caiu durante um serviço temporário (bico) de corte de galhos de uma árvore.
Em 02/03/2024, faleceu o caminhoneiro Eder Parecido Jacinto, que estava com tornozeleira desde que saiu do Presídio Papuda. Ele tinha o seu próprio caminhão e, ao fazer a manutenção, caiu quebrando o fêmur e machucando a coluna. O fato ocorreu pouco antes do Natal de 2023, conforme relato da filha. Desde então, ele foi atendido inúmeras vezes no Hospital Regional Público do Araguaia, em Redenção, PA, mas os problemas foram se avolumando com o passar das semanas para quadros mais graves, como paralisação dos rins, hemorragia no estômago e complicações do fígado. Ele entrou em coma e faleceu com infecção generalizada.
Kleber Freitas, que respondia pelo inquérito 4921 por ter sido preso no QG de Brasília em 09.01.2023, foi encontrado morto na residência dos pais em Borrazópolis, PR, em 10.05.2024. Os familiares o encontraram caído e acionaram a Polícia Militar. A morte foi constatada no Hospital Municipal que notificou a Delegacia de Faxinal, conforme informações publicadas pela Rádio Nova Era News. Kleber era servidor público, atuava como técnico em Radiologia, era casado e pai. Ele se sentia injustiçado e não aceitava a forma como o Estado Brasileiro tratou os manifestantes de 8 de janeiro.
Jony Figueiredo da Silva, 44 anos, que foi o sexto preso político de 8 de janeiro a morrer. O falecimento se deu no hospital de Planaltina às 7h30 de 27 de setembro de 2024, por parada cardiorrespiratória, edema agudo nos pulmões e cardiopatia valvar (prótese). Até falecer, Silva utilizava tornozeleira eletrônica e comparecia regularmente no fórum para assinar, conforme exigência do Supremo Tribubal Federal (STF), para permanecer em liberdade provisória até o seu julgamento virtual. Ele foi preso no QG de Brasília em 09.01.2023 e levado para o presídio Papuda.Marco Aurélio Gonçalves Pedroso — a morte mais recente
Marco Aurélio, de Cuiabá (MT), faleceu em decorrência de leucemia em abril de 2025. Foi o sétimo óbito do 8 de janeiro. Ele respondia à Ação Penal 1538 e havia firmado um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) em agosto do ano anterior.
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