A história real de uma viagem em uma noite de janeiro, após as eleições
Ana Maria Cemin – 14/01/2026
Jorginho Cardoso de Azevedo tem 64 anos. Agricultor de São Miguel de Iguaçu, no Paraná, ele cumpre uma pena de 16 anos e 6 meses em regime fechado. De acordo com o atestado de pena emitido em 29 de outubro de 2025, Jorginho já havia cumprido 3 anos, 5 meses e 5 dias, com 224 dias remidos — o retrato frio e burocrático de um processo que mudou sua vida para sempre.
Mas os números não contam tudo.
Jorginho foi um dos presos políticos que mais tempo permaneceu encarcerado em Brasília após os eventos de 8 de janeiro de 2023. Levado naquele dia, ele só deixou o cárcere para a prisão domiciliar em 24 de abril de 2025. Foram mais de dois anos longe de sua terra, de sua rotina simples de agricultor, e principalmente longe de seu pai, Manoel Alves Azevedo, hoje com 92 anos — um pai que ele temeu não poder abraçar novamente.
Casado há mais de quarenta anos com Marilei, Jorginho construiu sua vida ao lado dela e dos filhos Mateus, Talita e Aline. A família, que sempre foi seu porto seguro, acompanhou à distância cada dia de incerteza, cada notícia, cada silêncio vindo do cárcere.
“Ficamos em 15 até essa data, mas muitos que foram presos seguem no cárcere. Eu agora estou cumprindo a minha pena em casa”, diz Jorginho, com a serenidade de quem sobreviveu ao que parecia impossível.

A história que você vai ler a seguir nasce das anotações que ele fez dentro da prisão — registros escritos à mão, entre noites sem dormir, dias de angústia, momentos de fé e episódios que nenhum brasileiro deveria ignorar. É um relato que expõe, sem filtros, o que se passa no Brasil desde que, segundo muitos, o Judiciário passou a suplantar a vontade popular.
Duvido que você consiga ler sem se perguntar o que está acontecendo com o país.
“Na noite de 3 de janeiro de 2023, fui dormir, mas não conseguia pegar no sono. Estava preocupado com o que havia acontecido nas eleições presidenciais de 2022. Comecei a pensar que precisava fazer alguma coisa para ajudar a salvar o Brasil do comunismo. Quando amanheceu, fui conversar com um amigo e entramos em acordo: contrataríamos um ônibus para ir ao manifesto em Brasília. Eu sentia que precisava ajudar os patriotas, porque acreditava que o nosso país não poderia se tornar comunista.
Comecei então a pedir ajuda para pagar o transporte. Conversei com amigos e consegui arrecadar R$ 40 mil. Contratei o ônibus e liguei para todos, chamando-os para irmos a Brasília, pois eu não aceitava o resultado das eleições. Tinha certeza de que havíamos sido roubados. Logo o ônibus encheu: éramos 54 pessoas. Combinamos de sair no dia 6 de janeiro, às 18h.
No dia 6, fui ao banco às 9h da manhã para pegar o dinheiro da viagem. Foi então que senti uma tontura muito forte, como se uma lâmpada tivesse explodido na minha cabeça. Voltei para casa e pedi para minha esposa ligar para o meu amigo Paulo avisando que eu não poderia ir, pois estava acamado. Passei o dia inteiro mal.
No dia seguinte, por volta das 9h da manhã, liguei para o Paulo e perguntei se eles já tinham saído. Ele respondeu que ainda não. Perguntei se meu lugar havia sido cedido a outra pessoa, e ele disse que não. Contei que tinha melhorado e queria ir junto. Ele respondeu: “Nós estávamos esperando você melhorar.”
Fui então conversar com minha esposa e disse que iria para Brasília. Se eu não fosse, me sentiria um covarde. Sentia que algo me chamava para lá, que eu precisava lutar por tudo o que construí com suor, trabalho e sacrifício, para deixar aos meus filhos e netos. O futuro presidente falava que a herança deveria ficar para o Estado, e isso me revoltava. Expliquei tudo isso para minha esposa, mas ela insistia: “Você não está bem.” Eu respondia que não era justo ficar na sombra dos outros. Ela chorava enquanto fazia minha mala, pedindo para eu não ir. Mas eu estava decidido.
Ela perguntou se eu não tinha medo de ser preso. Eu disse que tinha, mas que, se não fosse, me sentiria um covarde. No dia 7/01/2023, às 13h, ela me levou muito triste até o ônibus. Meus amigos me receberam com alegria, pois eu havia sido o responsável por contratar o transporte. Às 13h30, partimos rumo a Brasília. Minha esposa ficou chorando, e eu saí com um aperto no coração.
A viagem durou 26 horas. Chegamos no dia 8/01/2023, às 15h30. O motorista nos deixou perto da Praça dos Três Poderes. Vi uma multidão descendo para o protesto e, empolgado, acompanhei o fluxo. Ao chegar no gramado, encontrei muitos policiais e fiquei desconfiado. Aquilo deveria ser uma manifestação pacífica, mas algo parecia errado.
O clima foi ficando cada vez mais tenso e violento. Senti-me impotente, pois havia ido para uma manifestação tranquila. Então pensei em entrar no Palácio do Planalto para me proteger, porque a situação estava perigosa. Lá dentro, encontrei muitas pessoas e muita destruição. Fiquei triste, pois não era para isso que eu tinha saído da minha terra.
Ouvi bombas sendo jogadas de helicópteros, como se quisessem empurrar as pessoas para dentro dos prédios. Logo a polícia de choque chegou e prendeu todos que estavam lá dentro. Fiquei arrasado: entrei às 17h30 e, às 18h30, já estava preso.
Fomos levados para a Polícia Civil. Achávamos que seria apenas para fazer um boletim de ocorrência, mas estávamos enganados. Fomos enviados para a Papuda, a penitenciária federal, onde fiquei 105 dias preso sem contato com minha família. Éramos tratados como presos políticos e não sabíamos quanto tempo ficaríamos ali. Eu me sentia acuado, sem saber quando sairia.
VOLTANDO PARA MOMENTOS INICIAIS DA PRISÃO
Chegamos à Polícia Civil por volta das 20h para prestar depoimento naquele 8 de janeiro. Era uma noite chuvosa. Passamos a noite inteira sem dormir, com fome e frio. Os policiais nos tratavam muito mal, com ódio. Chegaram a nos chamar de terroristas, mas estavam enganados, pois quem estava ali eram trabalhadores, pessoas do bem.
No dia seguinte, 9 de janeiro, por volta das 8h, fomos levados para fazer o exame de corpo de delito. Fui jogado dentro de um camburão como se fosse lixo. A angústia aumentava. Parecia um pesadelo, algo irreal.
Depois do exame no IML, fomos algemados novamente e levados para a Papuda, penitenciária de segurança máxima. Eu me sentia como lixo dentro daquele camburão. Chegamos entre 9h e 10h, em um dia sombrio e chuvoso. Parecia que até o tempo chorava pelos patriotas.
Ao chegar, fomos humilhados. Policiais homens e mulheres mandaram que tirássemos toda a roupa, debaixo de chuva, na frente de todos. Foi uma humilhação profunda. Ficamos nus, agachamos três vezes, tiraram até minha dentadura para ver se eu escondia algo. Eu só pensava na minha família.
Depois disso, com total descaso e falta de respeito, jogaram para mim uma camiseta, um short e um par de chinelos. Vesti. Estávamos encharcados e assim ficamos. Em seguida, fomos levados em fila para o chamado “banho de sol”, que naquele dia era banho de chuva. Sentamos no chão frio, e um policial chegou batendo com o cassetete nas minhas costas, mandando levantar. Eu e mais 12 idosos fomos encaminhados ao bloco 6, cela 5.
A cela tinha 18 m² para 12 pessoas idosas. No dia 12 de janeiro, ficou ainda pior: chegaram mais quatro pessoas. Ficamos 16 em um espaço minúsculo, cerca de 1,15 m² por pessoa. Chovia dentro da cela. Colocávamos cobertores na grade para bloquear a chuva, mas aí passávamos frio. Algo indescritível.
Ficamos 22 dias nessa cela apertada. No dia 29 de janeiro, fomos levados ao pátio e depois redistribuídos. Eu fui transferido para a ala B, cela 3. Foi então que algo muito ruim aconteceu comigo: comecei a ter diarreia forte. Não havia remédio. Os dias passavam e nada melhorava. Já fazia 15 dias e eu estava fraco, parecia um morto-vivo, com a cor de um defunto.
Aproximei-me de um policial e expliquei a minha situação. Estava passando muito mal. Então ele me disse que voltaria a trabalhar dali a dois dias e traria um remédio. Esperei mais dois dias até que o remédio chegou. Fiquei 17 dias com diarreia, perdi muito peso, mas aquele policial salvou a minha vida. Fiz uma amizade verdadeira com ele, algo que nunca vou esquecer. O nome do meu grande amigo é Moisés Monteiro.
Na segunda semana de prisão, muitos comentavam que, após a audiência de custódia, poderíamos voltar para casa. Então, nessa segunda semana, fomos chamados para depor. Éramos entre 30 e 40 pessoas, algemadas de dois em dois. Colocaram algemas em todos e nos jogaram dentro de um camburão. Quando chegamos, nos colocaram dentro de uma jaula. Parecíamos animais. Ficamos das 14h às 22h, com fome, sem poder reclamar, porque nos tratavam como lixo. Isso aumentava ainda mais o sofrimento. Às 22h, quando faltavam apenas quatro presos para depor, um policial apareceu dizendo que estava tarde demais e que continuaríamos no dia seguinte. Voltamos para a cela, novamente algemados. Aquilo parecia um pesadelo sem fim. O sofrimento aumentava a cada dia, e a humilhação também. Sabíamos que não tínhamos ido a Brasília para aquilo.
Três dias depois, voltaram à nossa cela para nos buscar. De novo fomos levados a um lugar que parecia um cativeiro, como se fôssemos sequestrados. Por volta das 21h, finalmente chegou minha vez de depor. A juíza começou a fazer perguntas, querendo saber o motivo que me levou a Brasília. Eu respondi que não concordava com o que aconteceu nas eleições de 2022, que tinha certeza de que houve fraude e que não aceitava o resultado. Falei o que sentia.
No final, perguntei à juíza se ela iria nos liberar. Ela respondeu que tudo dependia de Alexandre de Moraes, porque era ele quem mandava prender, julgar, condenar ou soltar. Fiquei muito triste, pois percebi que estava nas mãos de alguém que eu considerava um ditador. Mesmo assim, mantive um fio de esperança, porque muitos patriotas diziam que, 15 dias após as audiências, seríamos liberados. Mas nada disso aconteceu.
A prisão ficava cada dia mais difícil. Para nos humilhar ainda mais, nos disseram que o ministro Alexandre de Moraes iria nos visitar na penitenciária. Os dias passavam e nada acontecia, até que numa ocasião os policiais nos mandaram sair apenas de cueca, com as roupas nas mãos, para receber o ministro. Eu me sentia um lixo. Fizeram todos nós sentarmos no chão frio, por mais de uma hora, esperando por aquela pessoa que, na minha visão, não tinha coração nem caráter, e que havia mandado prender patriotas que só queriam lutar por um país melhor.
ALGUNS FORAM PARA CASA
Depois disso, algumas pessoas presas no dia 9 de janeiro de 2023 foram soltas. Meses depois, nos dias 8 e 9 de agosto, soltaram mais uma remessa. Eram pessoas que foram presas no Palácio do Planalto, no STF e na Câmara. Quase 100 foram libertadas. Ficamos felizes por eles, mas também angustiados, porque acreditávamos que nós também sairíamos no dia 9 de agosto, mas nada aconteceu.
Os dias passavam, a angústia aumentava e eu não queria receber visitas, mas a saudade da minha família era insuportável. Depois de oito meses preso, pedi para minha esposa e meu filho virem me ver. Foi muito bom conversar com eles, mas a despedida foi dolorosa. Ver minha família indo embora enquanto eu ficava ali era uma tortura. A tristeza só aumentava. Os dias viravam meses, e os meses pareciam anos.
Eu acreditava que Deus tinha um propósito, mesmo que eu não entendesse qual. Confiava que Ele sabia de tudo.
A vida de presidiário era muito difícil. No começo de novembro, o diretor do presídio transferiu nosso grupo para outro bloco. Achávamos que seria uma melhora, mas acabou sendo ainda mais triste, porque perdemos um patriota. Num dia chuvoso e frio, saímos para o banho de sol, mas como chovia, muitos ficaram abrigados. Meu amigo Clezão (Cleriston Pereira da Cunha) me deu seus óculos para segurar enquanto brincava um pouco de bola. Eu fiquei protegido da chuva. Quando fui devolver os óculos, vi uma aglomeração no pátio. Ele estava caído no chão. O doutor Frederico, também preso político, tentava reanimá-lo, fazendo massagem cardíaca, mas não adiantou. Ele teve um infarto fulminante. Perdemos um grande amigo. Isso aconteceu no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Ficou marcado para sempre.
No dia 28 de novembro, após saber do ocorrido, o ministro Alexandre de Moraes soltou mais algumas pessoas. Ficamos em 16 presos somente. O tempo continuava passando. Chegou o Natal, chegou o Ano-Novo, e continuávamos ali, esperando um milagre de Deus.
Cada visita da minha esposa era um alívio. Ela sempre trazia palavras de otimismo. Meu filho Mateus também me dava muita força. Mas era muito difícil vê-los ir embora. Eu tentava não demonstrar minha angústia, mas por dentro doía demais.
Passamos a Páscoa de 2023 presos. Foi muito difícil, porque nossa família sempre se reunia nessa data. Agora se aproximava a Páscoa de 2024, e ainda não sabíamos quando iríamos para casa. Eu pedia a Deus um milagre, para que pudéssemos passar a Páscoa em família. A vida naquele lugar não fazia sentido.
Todos os dias eu pedia força a Deus para suportar aquele tormento. Sentia muita saudade da minha família e, principalmente, do meu pai. Eu precisava vê-lo. Sempre fomos muito próximos. Meu pai tem 90 anos, e eu não queria vê-lo sofrer por minha causa. Pedia a Deus que lhe desse saúde e conforto ao coração. E pedia perdão por fazê-lo sofrer.
Não gostaria de ver minha família passando por tudo isso também. Mas espero que, com a ajuda de Deus, um dia eu possa retribuir tudo o que eles estão fazendo por mim.
No dia 08/04/2024, comecei a pensar muito na minha família e acabei adoecendo. Surgiu uma dor muito forte no estômago, dia e noite, e tudo ficou ainda mais difícil. Nada do que eu comia parava no estômago, eu vomitava tudo. Estava assim por oito dias e a dor não passava. Eu estava parecendo um esqueleto humano.
Mesmo doente, eu continuava trabalhando. Até que um dia fiquei tão mal que me deitei no piso frio, sem nem um pedaço de papelão. O nosso chefe, vendo minha situação, me encaminhou ao posto de saúde. O policial Vieira me levou, mas a enfermeira não encontrava minha veia. Depois de várias tentativas, outra enfermeira conseguiu. Como já era meio‑dia, me colocaram no “corró”, uma espécie de jaula, e fiquei deitado em um banco tomando soro até eles voltarem do almoço.
Até para ir ao médico, os patriotas eram algemados. E como eu era responsável pela horta, tinha que trabalhar mesmo passando mal. A comida era cozida no vapor, parecia comida para porcos.
Depois de vários dias, melhorei um pouco. Mas, quando o mês de abril estava terminando, o que era ruim ficou ainda pior. A dor de estômago voltou com força e junto veio uma depressão profunda. Eu não comia, acordava chorando, passava o dia chorando. Foram muitos dias assim. Eu não tinha mais vontade de viver. Tudo era muito difícil. Muitas vezes pensei em acabar com o sofrimento, mas ao mesmo tempo lembrava do meu pai, com 90 anos, sofrendo por minha causa. Ele tantas vezes me pediu: “Não vá para lá, meu filho.” E eu não o escutei.
Pensava também na minha família linda: minha esposa maravilhosa, meus três filhos, meu genro, minha nora e meus dois netos, que para mim são como filhos. Meu chefe me levou novamente ao Setor de Psicologia, e a psicóloga me encaminhou ao psiquiatra. Comecei o tratamento, mas a depressão era mais forte que o remédio. O médico dobrou a dose e aí comecei a melhorar um pouco. Isso foi em abril de 2024.
No começo de maio, em um domingo, acordei tão mal que pensei que seria o último dia da minha vida. Eu queria morrer. Comecei a escrever uma carta para meus irmãos, pedindo perdão a quem ofendi e perdoando quem me ofendeu. Achava que não passaria daquele domingo. Já nem pensava mais na minha família — só queria que o sofrimento acabasse.
Um policial entrou na minha cela, me viu naquele estado e foi até o vice-diretor. Ele veio até mim e me levou para a UPA de São Sebastião. Chegando lá, o médico disse ao policial que eu parecia um defunto, que não parecia estar vivo. Ele me passou na frente dos outros pacientes, colocou soro e medicamentos imediatamente. Minha situação era tão complicada que eu achava que nunca mais veria minha família.
De volta ao presídio, eu continuava trabalhando na horta, dia após dia, sem forças. Para piorar, meu chefe tirou o responsável e colocou toda a responsabilidade em mim, sem deixar ninguém me ajudar. Eu estava muito doente. Pedi para trabalhar no restaurante, porque lá teria uma refeição melhor. Ele aceitou.
No dia 22/05/2024, comecei a trabalhar no restaurante, mas eu ainda não estava bem. A depressão ficava cada vez mais forte. O serviço era pesado: começávamos às 7h e íamos até às 21h — 14 horas por dia. A dor no estômago não passava. Um dia, desmaiei na cozinha. Meus amigos chamaram o chefe, que me levou novamente à UPA. O médico trocou meus medicamentos e, finalmente, a dor de estômago começou a melhorar. Em final de junho a dor amenizou.
Mas a depressão não passava. A ansiedade aumentava. A dose do remédio aumentou tanto que eu fiquei dopado de junho a agosto. Não tinha força nas pernas. Meus amigos me abraçavam pelos dois lados e me levavam até o restaurante para eu não ser desclassificado (ser desclassificado significaria perder a oportunidade de trabalho dentro do presídio, o que ajuda na redução da pena). Eu trabalhava muito pouco, porque não tinha forças. Passava a maior parte do dia deitado em um colchão no almoxarifado. Quando o chefe chegava, eles me chamavam.
Assim foi minha vida até o final de agosto. Fui melhorando aos poucos e fiquei no restaurante até 30/10/2024. No dia 1º de novembro, fui transferido para a Papuda Velha (CIR). E o que já era ruim ficou ainda pior.
Parei de tomar os remédios. Minha vida não tinha mais sentido. Eu queria que tudo acabasse. Mas, ao parar de tomar, aconteceu o contrário: melhorei. Só podia ser Deus me abençoando. Fiquei bom de saúde. E vejam, eu não sabia o que era uma cadeia de verdade até então.
Na Papuda Velha, fiquei junto com presos que vieram de outros presídios e tinham completado 60 anos. Eu estava entre assaltantes de banco, ladrões de carro-forte, de caminhão de carga, de joalheria, traficantes, estupradores de todos os tipos — até de crianças, da própria mãe, da própria avó, da própria filha. Era um horror.
A cela era para 21 pessoas, mas estávamos em 42. Havia brigas por tudo, até por uma bolacha ou um pão. Em 132 dias ali, vi muitas brigas sérias. Dormi 132 dias debaixo de uma cama, porque quem chega por último pega o pior lugar. A cama era tão baixa que eu não podia me virar. Se deitava de bruços, tinha que ficar assim a noite inteira. Se deitava de barriga para cima, ficava assim até amanhecer.
Quando eu, Jorginho, fui transferido para a Papuda Velha, no dia 01/11/2024, fui muito mal-recebido. Os bandidos eram todos do lado do PT. Me chamavam de “bolsominion”, me hostilizavam, me ameaçavam de morte. Mas eu nunca perdi a fé em Deus. Acordava de madrugada e rezava dois, três terços, pedindo a Deus minha transferência para o Paraná. Parecia que em Brasília eles gostavam de ver o preso sofrer. Até o ar parecia contaminado pela corrupção.
Minha transferência do CIR para o Paraná levou quase quatro meses e meio, mas eu nunca perdi a fé. Minha sorte é que, na Papuda dos idosos, já havia três presos do dia 8 de janeiro: o Jamildo o Seu João e o Seu Miguel. Sempre que saíamos para o banho de sol, conversávamos. Isso tornava aquele lugar um pouco menos pesado. Quando um estava triste, o outro dava força.
Sabíamos que não podíamos ficar no meio da massa de prisioneiros, com todo tipo de crime, porque não tínhamos cometido crime. Éramos presos políticos e, por isso, éramos humilhados, oprimidos e ameaçados de morte. Eles eram bandidos, e muitos apoiavam o PT. O próprio líder deles (Lula) disse que “roubar um celular para tomar uma cervejinha não é crime”. Que país é esse?
DE VOLTA AO PARANÁ DOIS ANOS DEPOIS
A nossa força vinha da crença de que Deus não nos abandonaria. No dia 11/03/2025, falei com o seu João que minha transferência estava demorando muito, mas que eu nunca deixava de rezar meu terço pedindo ajuda. Sentia que algo estava para acontecer. Disse a ele que deixaria meu sabão com ele, caso eu fosse transferido. Eu sentia que Deus estava preparando um caminho entre montanhas para eu seguir minha caminhada.
Nesse dia fui deitar rezando e clamando a Deus para me tirar do meio daqueles bandidos. Dormi um pouco, acordei por volta das duas da madrugada, rezei mais um terço e consegui dormir mais um pouco. Acordei novamente e, por volta das quatro da manhã, fui ao banheiro. Voltei para minha cama, coloquei os joelhos no chão, peguei meu rosário e comecei a rezar meu terço, clamando:
“Meu Senhor e meu Deus, em nome do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que padeceu e morreu na cruz para nos salvar, que morreu inocente entre dois ladrões… tira-me deste lugar. Estou no meio de muitos ladrões e assassinos. Leva-me para mais perto da minha família e do meu pai, porque não estou aguentando mais. Estou sendo oprimido e ameaçado de morte.”
Continuei rezando. Pouco depois, ouvi o portão bater. Um policial entrou e chamou:
— Jorginho Azevedo!
Eu respondi imediatamente, porque estava acordado rezando. Ele disse:
— Arruma tuas roupas. Vamos. Já estamos atrasados.
Arrumei minhas coisas depressa. O policial abriu a cela e eu saí. Pedi a ele para me despedir dos meus amigos e ele permitiu. Depois me acompanhou até a viatura, que já estava me esperando.
Fomos para o aeroporto. Lá havia três policiais me aguardando. Ao me despedir da escolta que me levou até ali, uma policial feminina me abraçou, desejou boa viagem e pediu que eu nunca deixasse de acreditar em Deus. Disse que eu tinha lutado pelo Brasil, pela minha família e até pela família dela. Ela me lembrou da história de Daniel, que foi jogado na cova dos leões e Deus o salvou. Disse que Deus também estava cuidando de mim.
Fui entregue à nova escolta. Colocaram novamente as algemas e subimos pela porta de trás do avião, para que os passageiros não vissem. O avião decolou às 8h30 e pousou às 10h30 em Curitiba.
No aeroporto, três policiais federais me aguardavam. Trocaram as algemas mais uma vez, e me senti como um terrorista, mas eu sabia que eles estavam apenas cumprindo o trabalho deles. Entrei na viatura e seguimos para a penitenciária de Curitiba.
Lá, fui recebido pelo chefe de segurança, que pediu para eu sentar e conversou comigo por uns 15 minutos. Fez várias perguntas e disse que cuidariam bem de mim, porque eu não tinha cometido crime algum. Depois me levou ao médico, que me recebeu muito bem, fez várias perguntas sobre minha saúde e disse que eu faria tratamento. Em seguida, fui ao laboratório, onde tiraram meu sangue.
Fui levado para a cela. Eu estava preocupado, sem saber o que encontraria. A cela tinha 50 m² e cinco camas. Buscaram mais uma cama e ficamos em seis pessoas. Saí de uma cela de 38 m² com 42 presos e fui para uma de 50 m² com apenas seis.
Os companheiros de cela eram: um preso da chamada “ABIN paralela” do 8 de janeiro; um do manifesto do índio Cacique Sererê, de dezembro de 2022; um policial federal; um preso por acidente com morte (Lei Maria da Penha); e outro do 8 de janeiro.
Ou seja, cheguei no dia 12 de março e já fui ao médico, fiz vários exames e ele me encaminhou para a fisioterapia. Três dias depois, voltei ao médico e ele marcou uma endoscopia.
Ainda no segundo dia no presídio de Curitiba, consegui falar com minha advogada. Nós nos desencontramos: ela foi para Brasília pegar minha remissão para homologar, e eu fui transferido para Curitiba. Isso foi no dia 12/03/2025.
Eu pedia a Deus para passar a Páscoa em casa com minha família. Sentia muita saudade. Tenho dois netos que ainda não conheço e sonho em ver o rosto deles. Pedia força e saúde para que esse dia chegasse. Os dias passavam, a ansiedade aumentava. Eu estava no meu estado querido, mas ainda longe de casa e dos meus netos.
Seu Antoninho, chefe da segurança, era uma pessoa muito boa. Sempre que podia, me dava palavras de otimismo e força. Conversávamos muito como amigos. Ele sabia de tudo o que eu tinha passado.
Eu prometi que, quando me sentisse melhor, continuaria escrevendo tudo o que vivi na Papuda.
JORGINHO EM PRISÃO DOMICILIAR – ABRIL DE 2025
Bom dia, meus amigos e familiares. Hoje é um prazer imenso reencontrar todos vocês, depois de 846 dias longe. É uma emoção indescritível voltar para minha casa. Esperei muito por este dia.
Tenho muito orgulho do meu pai, que escolheu esta cidade para vivermos quando viemos do Rio Grande do Sul. Aqui passei minha infância, minha adolescência, me formei e construí minha vida. Tenho orgulho da educação que ele me deu e da pessoa que me tornei.
Construí uma família maravilhosa. Sou grato a todos que não mediram esforços — minha esposa, meu filho Matheus, a Talita, minha advogada Dra. Shanises e a Dra. Gislaine — que lutaram para me tirar da cadeia. Infelizmente, não conseguiram antes que eu cumprisse 846 dias de prisão, mas hoje estou de volta por causa da minha família, o lugar de onde eu nunca deveria ter saído.
Agradeço à minha esposa, ao meu filho e à Talita, que viajaram 3.200 km para ficar apenas duas horas comigo. Eu ficava muito feliz com as visitas, mas a despedida era dolorosa. Parecia um pesadelo. Também fiquei muito feliz com a visita do meu irmão Valmor e sua esposa.
Era muito difícil voltar para a cela depois das visitas. Eu pensava: “Até quando meu sofrimento vai continuar? Eu não fiz nada para estar aqui.” Sentia muita falta da minha família. Não é fácil perder a liberdade. Eu não me sentia preso; me sentia sequestrado. A cela era meu cativeiro. Só faltava pedirem resgate, e nossas contas bloqueadas pareciam ser justamente isso. Hoje, não posso vender nada que está no meu nome, porque o Governo do Lula bloqueou os meus bens. Está tudo muito difícil.
Nunca vou esquecer o tempo na Papuda Velha, onde fiquei preso com todos os tipos de criminosos. A cela era para 21 presos, mas chegamos a 42, em apenas 40 m². Dormíamos amontoados, como porcos num chiqueiro. Eu dormia debaixo de uma cama, tão baixa que eu não podia me virar. Foram 142 noites assim. Muitas vezes ficávamos três dias sem banho de sol.
Quero agradecer meu pai. Tenho muito orgulho de ser filho dele — o homem que me deu a vida, cuidou de mim na infância, me educou na adolescência e me aconselhou quando precisei. Agradeço a Deus pela minha mãe, que já não está entre nós, mas tenho fé de que está em um lugar muito bom.
Peço perdão ao meu pai por tê-lo feito sofrer. Não foi minha intenção. Prometo nunca mais fazê-lo passar por isso. O senhor é meu orgulho.
Agradeço a todos que rezaram por mim, que pediram a Deus para me dar força para atravessar essa etapa da minha vida. É nessas horas que percebemos o valor da família, dos irmãos e dos amigos.
Graças às orações de vocês, depois de tantos dias, estou de volta ao meu lar, com minha família e com todos vocês, de onde eu nunca deveria ter saído.
Eu sobrevivi. Muito obrigado a todos. Deus é maior.”
Leia também a matéria Doente, inocente e condenado, que escrevi sobre Jorginho antes dele sair do presídio, em 4 de novembro de 2024
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