Ana Maria Cemin – 6/01/2026
Dentro de dois dias, o Brasil completa três anos dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, um episódio que permanece envolto em disputas narrativas, investigações inconclusas e profundas divisões políticas. Para além das imagens de depredação, que correram o mundo e são indiscutíveis, há um capítulo menos visível, mas igualmente dramático: o das pessoas que morreram enquanto respondiam a processos relacionados àquele dia, com acusações infudadas de golpe de estado.
Sete nomes compõem essa lista. Sete histórias interrompidas sem que a justiça tenha sido feita. Sete famílias esmagadas por um sistema que agiu com rigor desproporcional e falhou em garantir direitos básicos. São eles: Antônio Marques da Silva, Clériston Pereira da Cunha, Giovanni Carlos dos Santos, Eder Parecido Jacinto, Kleber Freitas, Jony Figueiredo da Silva e Marco Aurélio Gonçalves Pedroso.
A seguir, reconstruímos cada uma dessas trajetórias.

1. Antônio Marques da Silva — a primeira morte, em silêncio
Antônio, operador de máquina de terraplanagem em Barra do Garças (MT), morreu em 29 de outubro de 2023, após cair do telhado que consertava em um trabalho temporário.
Impedido de exercer sua profissão devido ao uso de tornozeleira eletrônica e às restrições judiciais, passou a aceitar serviços eventuais para sustentar a família.
Deixou a esposa Simone e dois filhos pequenos, hoje vivendo com dificuldades financeiras e, segundo familiares, esquecidos pelo poder público.

2. Clériston Pereira da Cunha — a morte que chocou o país
Em 20 de novembro de 2023, Clériston morreu dentro da Penitenciária da Papuda.
Seu caso ganhou repercussão nacional porque o Ministério Público já havia se manifestado favoravelmente à sua liberdade provisória, mas o pedido não foi atendido.
Sua morte se tornou símbolo dos abusos e excessos nas prisões relacionadas ao 8 de janeiro.

3. Giovanni Carlos dos Santos — uma queda que poderia ter sido evitada
Giovanni, morador de São José dos Campos (SP), morreu em 24 de janeiro de 2024 ao cair enquanto cortava galhos de uma árvore em um trabalho temporário.
Assim como outros investigados, também usava tornozeleira eletrônica, o que limitava sua rotina e oportunidades de trabalho.
A comunidade local organizou seu sepultamento e, até hoje, lamenta a perda de alguém descrito como trabalhador, pacífico e de boa índole.

4. Eder Parecido Jacinto — semanas de sofrimento até a morte
Caminhoneiro, Eder estava em liberdade com tornozeleira desde que deixou a Papuda.
Pouco antes do Natal de 2023, caiu enquanto fazia manutenção em seu próprio caminhão, quebrando o fêmur e lesionando a coluna.
A partir daí, sua saúde entrou em colapso: insuficiência renal, hemorragia estomacal, complicações hepáticas.
Após sucessivas internações no Hospital Regional Público do Araguaia, em Redenção (PA), entrou em coma e morreu em 2 de março de 2024, vítima de infecção generalizada.

5. Kleber Freitas — encontrado sem vida em casa
Servidor público e técnico em Radiologia, Kleber foi encontrado morto na casa dos pais, em Borrazópolis (PR), em 10 de maio de 2024.
Casado e pai, relatava sentir-se injustiçado e profundamente abalado pela forma como os manifestantes do 8 de janeiro estavam sendo tratados.
A família acionou a Polícia Militar ao encontrá-lo caído no chão. Sua morte permanece cercada de dor e questionamentos.
6. Jony Figueiredo da Silva — uma vida marcada por restrições até o fim
Morador de Araponga, em Planaltina (DF), Jony morreu em 27 de setembro de 2024, às 7h30, no hospital da região.
A causa: parada cardiorrespiratória, edema agudo nos pulmões e cardiopatia valvar.
Mesmo debilitado, seguia cumprindo rigorosamente as exigências judiciais: usava tornozeleira eletrônica e comparecia ao fórum para assinar periodicamente, aguardando julgamento virtual no STF.

7. Marco Aurélio Gonçalves Pedroso — a morte mais recente
Marco Aurélio, de Cuiabá (MT), faleceu em decorrência de leucemia.
Respondia à Ação Penal 1538 e havia firmado um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) em agosto do ano anterior.
Sua morte encerra a lista de sete pessoas que, segundo familiares e apoiadores, foram vítimas de um processo judicial marcado por excessos, demora e falta de humanidade.
Três anos depois: perguntas sem resposta
As sete mortes se somam às milhares pessoas que enfrentam processos, restrições e dificuldades desde 2023. Para essas famílias, a justiça não chegou e o Estado falhou em proteger vidas sob sua responsabilidade direta ou indireta.
Às vésperas do terceiro aniversário do 8 de janeiro, permanece a sensação de que o país ainda não conseguiu enfrentar, com transparência e equilíbrio, as múltiplas camadas daquele episódio de depredação. Enquanto isso, sete histórias interrompidas continuam ecoando como lembrete de que, por trás de decisões judiciais, há vidas reais. A busca por justiça não pode ignorar o sofrimento humano.
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