
Ana Maria Cemin – 28/08/2025
Ela é viúva e, em abril de 2023, quando me procurou, estava com 55 anos. Até ser transformada da noite para o dia em presa política, ela trabalhava como motorista de aplicativo. Essa história me foi relatada no calor dos acontecimentos, logo após ter saído do presídio de Brasília. Compartilho a história de mais uma vítima de 8 de janeiro.
A minha entrevistada saiu de seu estado em 6 de janeiro e chegou às 4h da madrugada de 8 de janeiro ao QG de Brasília. Tinha a informação de que somente no dia seguinte a manifestação na Praça dos Três Poderes aconteceria. Ficaria três dias na manifestação e voltaria na quinta-feira para casa. Voltou dois meses depois, com uma tornozeleira de criminosa. Essa mulher vai tocar o seu coração.
TRÊS METAS PARA SOBREVIVER DENTRO DO PRESÍDIO
“A cada dia, acordava com a esperança de sair do cárcere, mas chegou um tempo em que acreditei ter sido esquecida, e batia um desespero. Fiquei dois meses lá dentro e deixei amigas no Colmeia. Algumas ainda estão lá, sem previsão de saída. Eu garanto que essas mulheres, mães e avós, jamais quebrariam qualquer coisa em Brasília. Entraram nos prédios por terem sido convidadas e/ou foram se abrigar das bombas ou ajudar a socorrer alguém.
Vivi todo esse sofrimento e consegui me segurar emocional e fisicamente porque pensei em fazer três coisas, além de me agarrar a Deus: tomar muita água, aproveitar ao máximo o sol quando íamos para o pátio e comer pelo menos duas ou três colheres de comida da marmita. Convenci-me de que, mesmo com larvas, moscas, fios de cabelo, cacos na comida, eu poderia separar alguma coisa para me manter viva e vencer aquele desafio sem adoecer. A marmita com feijoada dos domingos vinha com orelha de porco quase inteira, cheia de pelos do próprio porco. Os legumes vinham cortados em pedaços enormes, com terra; creio que do jeito que eram arrancados iam para o cozimento.
Durante a semana, eu abria a marmita e garimpava algo para comer, mas aos sábados vinha uma comida com um pouquinho de sabor. Nós todas esperávamos esse dia para comer tudo. Além disso, havia uma cantina no pátio, que vendia coisas como paçoca e pizzas pequenas. Quem tinha algum dinheiro, ainda de quando fomos tiradas do QG, podia comprar algo para enganar o estômago. Mas liberaram o dinheiro só depois de um mês.
Então, num daqueles dias em que a linguiça veio com larvas muito grandes, nós deixamos toda a comida de lado. Na hora do sol, levamos algum dinheiro para comprar algo na cantina, mas as carcereiras nos fizeram colocar tudo no lixo, pois disseram que era proibido levar comida para a cela. Ninguém tinha falado dessa regra e, de repente, a nossa comidinha comprada com o pouco dinheiro que tínhamos foi fora. E, para quem tem fome, uma paçoquinha e um copo com água iam muito bem.
“QUANTO TEMPO EU QUISER” – DISSE MORAES, EM NOSSA CELA
Muitas das 149 patriotas da nossa cela são cristãs, católicas ou evangélicas, além de contarmos com pastoras que oravam 24 horas por dia; muitas faziam jejum. Todas clamavam pelo mesmo Deus. Uma das pastoras nos reuniu para orar e ungir, e logo depois recebemos a informação de que receberíamos uma visita ilustre. Imaginávamos receber o ministro Barroso.
Quando os ministros do STF Alexandre de Moraes e Rosa Weber, entraram com 20 policiais armados até os dentes e, ainda, com spray de pimenta nas mãos, minha nuca doeu e senti enjoo. Pude olhar nos olhos do ministro e ver que o comportamento dele era de quem procurava por alguém; parecia um demônio olhando para os nossos olhos, fixando o olhar. Saí da sala do “confere” e fui para o quarto. Não conseguia estar no mesmo ambiente que ele, mas do quarto eu escutava o que estava sendo dito.
Todas as mulheres se sentaram no chão e muitas caíram no choro. Então, ele mandou todo mundo se retirar porque queria entrar na nossa cela, ver as nossas instalações. Não bastava ter ultrapassado aquele portão de ferro que nos encarcerava; ele queria passar pela grade e ver como estávamos vivendo. Entrou no nosso banheiro, com dois vasos e dois chuveiros com água gelada para toda aquela população, e foi enfiando a cabeça dentro dos primeiros quartos do longo corredor.
Dei graças a Deus que nenhuma de nós se exaltou. Creio que o momento de oração nos preparou para esse encontro. Eu temi que alguém falasse alguma coisa e nós fôssemos nos encrencar mais ainda. Temi muito. E fiquei imaginando se aqueles policiais machucassem uma de nós, e todas nós cairíamos em cima deles em defesa. Mas foi só algo que passou pela minha cabeça.
Alexandre de Moraes ouviu muitas lamúrias e choros. As mulheres falaram de seus filhos, seus netos, suas casas. Algumas ainda fizeram perguntas ao ministro e outras explicaram que não tínhamos feito nada para estar naquela situação. A resposta dele foi de que “seria averiguado o caso de quem não fez nada”. E, “quem fez”, disse ele, “vai pagar muito”. Outra perguntou sobre quanto tempo teríamos que ficar com a tornozeleira quando fôssemos para casa, e ele respondeu: “Quanto tempo eu quiser.””
MUITA GENTE DOENTE
Dentro da cela, todo mundo vivia cheirosinha e bonitinha. Procurávamos nos manter bem, mas tínhamos doentes conosco, e uma delas passou uma semana no hospital. A mulher, no passado, teve câncer em metade do estômago e precisava de uma alimentação especial. Até mudaram a refeição dela, mas vinha sempre azeda. Ela não conseguia comer e adoeceu. Ia muitas vezes para o ambulatório e, durante uma semana, ficou no hospital. De tão doente, num dia em que estava de pé, ela caiu dura no chão. Ela voltou para o presídio e, quando saí, no dia 10 de março, ela ainda estava lá.
Uma prima do Marcos Pontes, o deputado astronauta, também muito doente, estava na minha cela. Ela se arrastava de tão mal. Teve um problema de nervo ciático e fazíamos de tudo para ajudar a amenizar as dores dela. Trocávamos de cama na tentativa de melhorar, mas os colchões eram todos ruins. Fazíamos massagens, tudo que estava ao nosso alcance.
Uma senhora idosa, com idade próxima aos 70 anos, descendente de japoneses, estava conosco na cela e foi liberada. Depois de um tempo, ela voltou, porque a documentação dela não tinha sido feita, não acharam o seu processo. Lá no QG, ela estava junto com a filha e a neta. Não sei se ela continua presa no Colmeia.
UM MÊS SEM FALAR COM PESSOAS DO LADO DE FORA
O tempo mais terrível para nós foi o primeiro mês, quando ficamos sem conseguir falar com os nossos advogados. Eles eram a nossa única possibilidade de ter informações das nossas famílias. Quando começaram a nos atender no presídio, levavam recados e traziam informações, o que era um consolo. Tínhamos apenas 15 minutos com o advogado, porque atendiam três patriotas a cada visita. Era muito pouco tempo para passar tantas informações e tratar da nossa prisão.
Então começamos a tentar passar bilhetinhos e, logo, os carcereiros nos impediram e, antes de chegarmos ao parlatório, nos levavam para um lugar para tirar tudo e nos revistar, para que nada fosse entregue aos nossos advogados. Quando reclamamos com a direção, a resposta foi que era uma medida para evitar que mandássemos qualquer informação do presídio para fora. Mas eu consegui mandar: coloquei o bilhetinho no meu cabelo e passei um recado para os meus filhos. Eu precisava muito mandar aquelas palavras para os meus filhos.
Sei que muita gente não conseguiu dar um jeito, porque nós não sabíamos “ser presas”, não temos índole de criminosas. A diretora do presídio disse que escolheu a dedo as carcereiras para cuidar de nossas celas, as mais maleáveis, segundo nos disse. Creio que devia ter algumas que queriam detonar conosco, para ela ter dito tal coisa. E, mesmo assim, nos tratavam como se fôssemos bandidas, porque deve ser meio automático o que fazem.
CHÃO QUENTE E HEMORROIDAS,
E MAIS TORTURAS EMOCIONAIS
Quando íamos para a hora do sol, no pátio, éramos obrigadas a ficar sentadas no chão com as mãos na cabeça, naquele piso quente. Por consequência, muitas de nós passaram a sofrer de hemorroidas. As idosas não conseguiam nem mesmo se sentar, se abaixar. Para entender o nível de tortura emocional, lembro que, numa ocasião, uma policial foi à cela fazer o “confere”, que é quando elas chamam o nosso nome e temos que completar com o sobrenome. Quando abriam aquele portão de ferro, nós tínhamos a obrigação de estar ali na hora do confere; a carcereira precisava nos enxergar. Era procedimento do presídio.
Porém, num determinado dia, a diretora foi até a cela para explicar que, a partir daquele momento, seria feito o confere de forma diferente, com chamada de quarto por quarto. Eram 20 quartos na cela. Creio que esqueceram de avisar a policial do turno e, ao sermos chamadas por ela, nós fizemos tudo o que a diretora informou. Porém, a carcereira começou a gritar: “Por que vocês não estão aqui?”. Então saímos todas, quase 150 mulheres, correndo para o confere, porque a mulher ficou doida. Ela segurava uma arma grande, que parecia um cassetete, e dizia que, se não nos alinhássemos rapidamente, meteria uma doze em nossas cabeças. “Alguém não entendeu ainda?”, dizia. E, quando alguém tentava explicar as novas normas da direção, ela dizia: “Fica quieta!”. Tinha quem erguia a mão para falar e recebia de volta um “Cala a boca!” e “Abaixa essa mão!”. Era doida.
Atitudes como essa aterrorizaram todas nós, e algumas caíam no choro, e choravam tanto que chegavam ao ponto de passar mal. Então, quem estava mais forte procurava fortalecer a colega desesperada com uma palavra de ânimo. Lá dentro, eu percebi que deveria me manter bem, porque olhava para o lado e via muita gente bem pior do que eu. Meu papel lá dentro era de ajudar.
QUE CULPA TENHO EU? A HISTÓRIA DE COMO CAÍ NA ARMADILHA
Cheguei a Brasília no domingo, dia 8 de janeiro, muito cedo, e logo percebi a muvuca chamando para irmos em passeata em direção à Esplanada à tarde. Segui o fluxo e fui para a parte superior de um dos prédios, do lado de fora, onde ficaria acampada junto com o pessoal do meu estado. Levamos frutas e algum alimento para passarmos razoavelmente bem.
A sensação positiva durou muito pouco, e começamos a ouvir as explosões de bombas. Pensei: “Tem alguma coisa errada. Não era para ser assim!”. A confusão foi tão grande, ao ponto de nos perdermos uns dos outros, então resolvi sair da Esplanada, passando pelo meio daquela fumaça sufocante. Subi junto com outros patriotas, em direção ao QG, muito decepcionada.
No QG, falei aos meus conhecidos para irmos à rodoviária imediatamente, pois eu não estava gostando do que estava ocorrendo. Eu sentia o perigo e o cheiro de sangue. Então arrumamos as nossas coisas, juntamos a barraca e, quando tentamos sair, fomos impedidos. Depois de duas tentativas, desistimos. O helicóptero da Polícia Federal fazia uma ronda, mas não sobrevoava o acampamento, então, de certa forma, acreditei que pudéssemos estar seguros no acampamento.
Aquela noite foi um pesadelo, e às 6 horas da segunda-feira o tumulto começou no QG. Fomos para a frente do quartel e vi que havia uma operação de guerra. Digo isso sem nunca ter ido a uma, mas era tanto policial armado e tantos equipamentos que tive essa impressão. Percebi negociações entre o Exército e autoridades, e isso me passou uma sensação de que as coisas estavam difíceis para nós. No QG da nossa cidade e mesmo em Brasília não tínhamos um líder, então podíamos decidir por nós mesmos. Mas ali, não tínhamos mais escolha alguma.
Os ônibus que nos levariam do QG foram chegando ainda na madrugada, e a ordem era para todos entrarem neles. Não havia outra opção. A promessa era de fazer uma triagem e nos liberar na rodoviária para voltarmos para casa. Soubemos da apreensão de nossos ônibus, então cada um deveria resolver o seu problema de retorno. Rodamos por horas em Brasília numa situação de medo, insegurança, fome, sede e desumanidade.
Antes de sermos levados para a Academia da Polícia Federal, nos levaram para um local, possivelmente da polícia também, onde ficamos por horas trancados dentro dos ônibus. Lá, bati uma foto de um banheiro improvisado com panos, num cantinho, para o pessoal fazer xixi. O local não tinha banheiros. Aliás, os policiais não queriam abrir as portas dos ônibus. A situação dentro do veículo era crítica: as mulheres menstruadas sujavam suas roupas, pessoas desmaiavam e vomitavam. Só a muito custo abriram as portas, mas ainda assim os policiais foram categóricos: só poderiam sair do ônibus aquelas pessoas que realmente tinham muita necessidade. Muitos se intimidaram. Foi triste. Voltamos a rodar, rodar e rodar por Brasília. Chegamos ao ginásio.
ENTREI EM PÂNICO!
Muita gente ainda acreditava na história de que aquelas mais de 2 mil pessoas passariam por uma triagem na academia e seriam liberadas. Quando chegou a minha vez de falar com o delegado, já era por volta de 4 horas da madrugada. Ele simplesmente olhou para mim e disse: “A senhora está detida”. Eu questionei por que estava sendo presa, pois não tinha feito nada errado até provarem que tinha feito. Ele respondeu assim: “É ordem do ministro Alexandre de Moraes, e digo para a senhora que, se eu não lhe prender, quem será preso sou eu”. Isso me levou ao pânico, e o delegado tentou me acalmar. Foi muito gentil comigo, pois tenho depressão e, naquele momento, eu desandei. Após essa experiência, ainda fora do presídio, eu fiquei relativamente bem, se comparada a outros patriotas. Aprendi, nos dois meses de prisão, a olhar para os lados e ver que alguns estavam bem piores do que eu. Isso me conformou e me acalmou.
Com a voz de prisão, fui levada para uma sala onde havia várias mulheres e também o pessoal que foi comigo a Brasília. Contratamos um advogado e, como a gente não tinha comido, eu me sentia muito fraca. A abordagem no QG, em frente ao quartel, foi às 6 horas, e chegamos ao Ginásio da Polícia Federal depois das 14 horas e fomos para a revista policial. Só às 16h30 daquele dia 9 comemos algo. Depois disso, voltamos a comer somente às 16 horas do outro dia.
TORTURADAS DENTRO DE VEÍCULO SEM AR
Do ginásio, fomos para uma delegacia de polícia, onde deixamos tudo que tínhamos. Inclusive, mandaram jogar no lixo qualquer comida que levássemos conosco, como barrinhas de cereais e biscoitos.
Um dos momentos mais terríveis foi quando nos colocaram numa van completamente fechada, com espaço para oito pessoas de um lado e oito pessoas do outro, com uma parede no meio. O policial nos disse que, em dois minutinhos, chegaríamos ao presídio, para não nos preocuparmos com a escuridão da van. “É só uma questão de descer um pouquinho e virar na esquina”, mentiu ele.
Ficamos trancadas na van e, como não tinha ar e tudo era um breu, uma das patriotas desmaiou. Desesperadas, tentávamos erguê-la para colocar sua cabeça próxima a uma pequena fresta, na esperança de que algum ar pudesse reanimá-la. Só que não havia ar circulante naqueles buraquinhos minúsculos. Em desespero, começamos a gritar. O policial abriu a porta e caímos todas para fora da van. “Você quer nos matar?”, perguntamos ao policial. Uma outra policial, loira e bem alta, disse: “Ai, meu Deus, essas meninas são muito dengosas”, em tom cínico. Voltamos à van e fomos ao presídio, para a cela.
A RETOMADA DA VIDA
Sou a provedora da minha casa. Faço chinelinhos artesanais que vendia nas corridas de Uber e 99. Com a tornozeleira eletrônica, não me animo a sair de casa, com receio de ter problemas com esse aparelho. Se pegar uma viagem mais longa, posso me complicar. Então, fico quieta, em casa.
Sair na rua com a tornozeleira é um problema, porque as pessoas não têm coragem de perguntar e, automaticamente, me julgam. Não sou bandida, tenho ficha limpa, sou trabalhadora e mãe. Numa ida ao posto de saúde, percebi as pessoas me olhando de forma maldosa, então saí chorando muito, me sentindo humilhada. Se preciso sair, agora uso calça longa.
O tempo trará as respostas, e sinto que Deus vai dar a vitória aos patriotas, porque tudo isso é muito injusto. Fomos a Brasília reivindicar, utilizando um direito garantido a nós, em nossa Constituição Federal. Se algo errado aconteceu, que sejam identificados os culpados, julgados e condenados.
Sensação de abandonar as patriotas
Saí do presídio no dia 10 de março, depois de dois meses no cárcere, deixando para trás patriotas que permaneceram presas pelo simples fato de terem entrado nos prédios públicos para orar, se defender dos ataques das bombas da Polícia Federal ou porque socorreram alguém necessitado, naquele momento de agressão das forças policiais. Elas estão enquadradas em mais crimes do que eu, mas tenho certeza de que também são inocentes.
A gente sabia que o pessoal que foi pego no QG sairia cedo ou tarde. Mesmo assim, conforme iam saindo patriotas e eu ficava para trás, batia um desespero em meu peito, e o meu coração parecia chegar à garganta. As meninas que foram presas dentro do Planalto, infelizmente, demonstravam estar cientes de que será mais complicado para elas resolverem o seu problema.
Quando saí do presídio, chorei durante todo o percurso daquele corredor imenso e continuei chorando quando peguei minhas roupas, quando coloquei a tornozeleira e nos dois dias seguintes. Eu chorava por causa delas, pois lembrava de seus rostos quando me diziam: “Fique tranquila, que nós vamos ficar aqui mais uns dias só”, e eu sabia que não era bem assim. A minha alma doía e chorava por elas, por estarem pagando por crimes que não cometeram e, só porque estavam dentro de um prédio, o ministro Alexandre de Moraes dará um jeito de complicar tanto as suas vidas, ao ponto de tornar a defesa delas algo muito complicado para os seus advogados.
Nós saímos às ruas e fomos aos QG com a mesma bandeira, com as mesmas cores e com as mesmas letras de Ordem e Progresso, e ao sair eu pensava: “Por que nós estamos saindo e outros ficaram para trás?”.
Eu acredito que elas estão sofrendo muito dentro do presídio. Eu chorei muito, mas agora estou mais serena. Mas, quando vou comer uma fruta à noite, lá pelas 21 horas, eu não consigo, porque lembro que elas estão com fome. Tranca minha garganta, porque eu sei que lá no presídio Colmeia, as patriotas ficam olhando para o pãozinho amassado e o achocolatado que têm para o café da manhã, e elas sabem que, se comerem à noite, não terão o que comer pela manhã e terão que esperar a hora do almoço. Então, elas vão dormir com fome.
Quando eu estava lá, comia porque tomo remédio de pressão, mas acordava pela manhã preparada para tomar muita água, para compensar a falta de alimento. Aí eu pedia a Deus que viesse alguma coisa comível, que eu pudesse salvar duas ou três colheradas no meio daquilo que nos entregavam como alimento.”
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