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UMA VOZ QUE O CÁRCERE NÃO CALOU

A RETOMADA DA VIDA
Sou a provedora da minha casa. Faço chinelinhos artesanais que vendia nas corridas de Uber e 99. Com a tornozeleira eletrônica, não me animo a sair de casa, com receio de ter problemas com esse aparelho. Se pegar uma viagem mais longa, posso me complicar. Então, fico quieta, em casa.
Sair na rua com a tornozeleira é um problema, porque as pessoas não têm coragem de perguntar e, automaticamente, me julgam. Não sou bandida, tenho ficha limpa, sou trabalhadora e mãe. Numa ida ao posto de saúde, percebi as pessoas me olhando de forma maldosa, então saí chorando muito, me sentindo humilhada. Se preciso sair, agora uso calça longa.
O tempo trará as respostas, e sinto que Deus vai dar a vitória aos patriotas, porque tudo isso é muito injusto. Fomos a Brasília reivindicar, utilizando um direito garantido a nós, em nossa Constituição Federal. Se algo errado aconteceu, que sejam identificados os culpados, julgados e condenados.

Sensação de abandonar as patriotas

Saí do presídio no dia 10 de março, depois de dois meses no cárcere, deixando para trás patriotas que permaneceram presas pelo simples fato de terem entrado nos prédios públicos para orar, se defender dos ataques das bombas da Polícia Federal ou porque socorreram alguém necessitado, naquele momento de agressão das forças policiais. Elas estão enquadradas em mais crimes do que eu, mas tenho certeza de que também são inocentes.
A gente sabia que o pessoal que foi pego no QG sairia cedo ou tarde. Mesmo assim, conforme iam saindo patriotas e eu ficava para trás, batia um desespero em meu peito, e o meu coração parecia chegar à garganta. As meninas que foram presas dentro do Planalto, infelizmente, demonstravam estar cientes de que será mais complicado para elas resolverem o seu problema.
Quando saí do presídio, chorei durante todo o percurso daquele corredor imenso e continuei chorando quando peguei minhas roupas, quando coloquei a tornozeleira e nos dois dias seguintes. Eu chorava por causa delas, pois lembrava de seus rostos quando me diziam: “Fique tranquila, que nós vamos ficar aqui mais uns dias só”, e eu sabia que não era bem assim. A minha alma doía e chorava por elas, por estarem pagando por crimes que não cometeram e, só porque estavam dentro de um prédio, o ministro Alexandre de Moraes dará um jeito de complicar tanto as suas vidas, ao ponto de tornar a defesa delas algo muito complicado para os seus advogados.
Nós saímos às ruas e fomos aos QG com a mesma bandeira, com as mesmas cores e com as mesmas letras de Ordem e Progresso, e ao sair eu pensava: “Por que nós estamos saindo e outros ficaram para trás?”.
Eu acredito que elas estão sofrendo muito dentro do presídio. Eu chorei muito, mas agora estou mais serena. Mas, quando vou comer uma fruta à noite, lá pelas 21 horas, eu não consigo, porque lembro que elas estão com fome. Tranca minha garganta, porque eu sei que lá no presídio Colmeia, as patriotas ficam olhando para o pãozinho amassado e o achocolatado que têm para o café da manhã, e elas sabem que, se comerem à noite, não terão o que comer pela manhã e terão que esperar a hora do almoço. Então, elas vão dormir com fome.
Quando eu estava lá, comia porque tomo remédio de pressão, mas acordava pela manhã preparada para tomar muita água, para compensar a falta de alimento. Aí eu pedia a Deus que viesse alguma coisa comível, que eu pudesse salvar duas ou três colheradas no meio daquilo que nos entregavam como alimento.”

1 comentário

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Gláucia

Meu Deus que história triste e cheia de abusos! Estamos orando para que Deus possa ajudar essas vidas sofridas! 🥺😭

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