Ana Maria Cemin – 12/03/2026
A história de Rosinéia da Silva Amaral, 41 anos, tem um dos capítulos mais simbólicos do 8 de janeiro, e a primeira vez que soube de sua existência foi por meio de fotos do casamento dela, enviadas por outras presas políticas, no qual ela estava com um longo véu com a bandeira do Brasil. Fiz um vídeo que rodou muito, por ser algo realmente inusitado.
Quem é Rosinéia? Uma das perseguidas do 8 de janeiro que foi presa em Brasília no dia 9 de janeiro de 2023. Naquela manhã, ao acordar, foi levada do acampamento em frente ao Quartel do Distrito Federal e encaminhada para o Ginásio da Polícia Federal. Depois, ficou presa com centenas de mulheres que estavam no mesmo acampamento no Presídio Colmeia.
Mesmo agora, três anos e dois meses depois, ela ainda vive o trauma de ser acusada por algo que não fez e cumpre o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) para evitar uma condenação no STF. Fez horas de serviço comunitário numa casa de recreação de idosos, paga multa parcelada e tenta reorganizar a vida enquanto cria as filhas.
Foi em agosto de 2023, ainda de tornozeleira, que Rosinéia casou-se em Tangará da Serra. Ela usava um longo véu com a imagem da Bandeira do Brasil e um vestido com fenda para deixar à mostra aquilo que nunca tentou esconder: a sua tornozeleira eletrônica.

Essa história, nesse momento, é contada pela própria Rosinéia, com a voz de quem viveu cada queda, cada medo, cada travessia. Ela é mãe de Eduarda, 11 anos, e de Myrella, um mês; e é casada com Renato, 43 anos.
“Às vezes parece que tudo ainda está acontecendo. Como se eu estivesse presa dentro daquele janeiro. As cenas voltam, passam na minha cabeça o tempo todo, como um filme que não termina nunca. A gente vê tudo que saiu depois, todos os escândalos, todas as revelações desse governo. A gente só pedia justiça, uma justiça da forma certa. Eu nunca quis nada além disso enquanto me manifestava após a eleição de Lula.
Eu não estava em Brasília para ganhar nada. Eu estava ali pelo meu País, pelo futuro da minha família e quem estava ali comigo estava pelo mesmo propósito. Quem era patriota de verdade não estava ali para bagunça.


58 DIAS PRESA
Foram 58 dias que pareciam não ter fim. Os dias passavam devagar, sempre acompanhados daquela agonia de não saber quando eu iria sair. A ansiedade era tão grande que, do nada, eu desmaiava, muitas vezes justamente na hora do confere, que era um procedimento de rotina feito pelas agentes penais.
Quando eu caía, uma amiga que fiz lá dentro, a Sinthya, de Brasília, tentava se aproximar para me ajudar, pegar água, fazer alguma coisa. Porém, as policiais penais não deixavam. Diziam que, como eu não tinha nenhuma doença registrada, aquilo era “normal” e que eu iria voltar logo.
Era horrível estar ali sem entender o motivo, só não foi pior porque nós, patriotas, estávamos todas juntas e não fomos misturadas com outras alas de presas comuns. Entre nós, uma tentava apoiar a outra, dar força, segurar emocionalmente o que dava.
Eu pedia a Deus para sonhar com a minha filha, só para não esquecer o rosto dela.
Não tivemos direito a visita presencial de familiares. Só era permitido videoconferência, e ainda assim apenas se o familiar tivesse pelo menos duas doses da vacina (mesmo por videoconferência era proibido sem apresentar a vacinação). Ou seja, as visitas presenciais só aconteciam para quem era de Brasília e atendia a esse requisito. Era algo muito frisado lá dentro, e a vacina foi a única coisa que conseguimos recusar.
Depois de um mês, trouxeram um remédio de verme e disseram que todas deveriam tomar, que não era para jogar fora. Quando fomos ver, a validade vencia no dia seguinte. Muitas de nós, eu incluída, não tomamos. Conseguimos esconder e jogar no vaso.
A comida era outro sofrimento. Muitas vezes vinha azeda, com cacos de vidro, ou com larvas. E não podíamos recusar a marmita. Comer era quase impossível. Junto vinha sempre uma fruta: um pedacinho de melão, quase sempre estragado; uma goiaba que também vinha podre. Eu comia só a casca para ter algo no estômago. E banana, que mesmo muito madura, ainda dava para aproveitar. Aliás, banana era o que mais dava para comer.

SAÍDA COM TORNOZELEIRA
Após passar 58 dias presa em Brasília, voltei de tornozeleira para Brasnorte, MT, onde eu morava, mas a minha filha Eduarda não pôde voltar comigo. Ela estava em Tangará da Serra, com a minha sogra. Eu tinha deixado minha filha com ela porque minha sogra estava de férias na minha casa. Eu não deixei minha filha de qualquer jeito. Deixei com segurança, com amor.
Só que eu não voltei. Fiquei presa em Brasilia, sem poder sair de lá por imposição do STF. Então, quando as aulas recomeçaram, a minha sogra colocou a minha filha numa escola em Tangará e cuidou dela. E um detalhe muito importante que me machucou: quando finalmente fui liberada do presídio em Brasília, só pude ver minha filha por alguns minutos, na rodoviária, porque foi dado um prazo muito pequeno para chegar no fórum da minha cidade e me apresentar como uma presa em liberdade provisória. Não pude ficar com ela, sendo que ficamos quase dois meses distantes uma da outra.

Fiquei três meses em Brasnorte até os meus advogados conseguirem a minha liberação para voltar para Tangará. Pior é que eu não tinha onde colocar minha mudança e vendi o que pude, embalei o resto, mandei para a casa de uma tia. Fui morar no quarto da minha sogra, onde minha filha estava. Meu mundo se resumiu a um guarda-roupa emprestado, algumas roupas. A vida recomeçava do zero. Um preço alto por ter participado de uma manifestação de forma pacífica e ordeira, onde alguém, que a gente não sabe muito bem, promoveu baderna e quebraria.
O meu marido ficou mais um tempo em Brasnorte, tentando vender o gado e pagar dívidas. A vida com gado já estava difícil antes de tudo isso. Depois, piorou. Fiquei mais de um ano em Tangará. Nesse tempo, o meu marido foi chamado para trabalhar em Juara. Eu não pude ir. Precisava de liberação do STF. Com isso, fiquei mais seis meses longe dele, só com a Eduarda. Só quando consegui a autorização, me transferi com minha filha para Juara.
Eu ainda usava a tornozeleira, me apresentava toda segunda-feira no fórum como o STF obriga todos os patriotas a fazerem. Em Juara, fui recebida com respeito pelo pessoal do presídio, mas a tornozeleira estava ali, lembrando o tempo todo que eu não era livre.
Lá em Juara, vi outras pessoas na mesma situação. Vi um rapaz autista preso pelo 8 de janeiro, humilde, sofrido, que demorou tanto para ser solto. Aquilo me cortou por dentro. Depois soube que algumas mulheres da nossa comarca voltaram para a prisão. O MP e o STF alegavam que tinham violado a tornozeleira, mesmo usando corretamente. Outras eram acusadas de coisas absurdas.
A pressão era grande sobre a nossa família. A proposta do ANPP chegava para todo mundo que foi acusado de dois crimes: incitação ao crime e participação de organização criminosa (Que organização é essa? Incitação ao crime?). Eu resisti. Dizia: ‘não devo nada, não vou assinar’. Resistia em Tangará, resistia em Juara, mas o meu marido foi transferido de novo, dessa vez para Juína. Dessa vez eu não estava mais conseguindo a liberação para ir com ele. Ele precisava trabalhar e eu precisava estar com minha filha.
Sempre ficou claro para mim o risco de voltar para a prisão. Era real e ainda é para quem usa a tornozeleira eletrônica. Eu via as pessoas sendo levadas do fórum direto para o presídio. Eu tive muito medo! Medo de ser separada da minha filha de novo. Foi quando meu advogado disse: ‘Rose, você tem uma filha menor. O ANPP não é justo, mas é o caminho mais seguro.’
Eu chorei, eu lutei, mas eu não tinha saída. Aceitei assinar e reconhecer crimes que não cometi. Aceitei cumprir serviço comunitário, pagar multa, assistir aulas sobre democracia e golpe de Estado. Não porque eu me considerasse culpada, mas porque eu precisava proteger minha família.

CASAMENTO
Casei em Tangará, ainda de tornozeleira. O vestido tinha uma fenda para ela aparecer. Eu nunca escondi. Usei um véu feito com a imagem da Bandeira do Brasil impressa. Muita gente não foi ao casamento por medo. Alguns ficaram na porta da igreja e não entraram. Porém, eu tenho consciência de que fiz o certo. Sempre fiz.
Quando finalmente vim para Juína, passei mais de um ano indo ao fórum perguntar sobre o meu processo. Nada. Nenhuma liberação oficial. Só em dezembro, já grávida da Myrella, o oficial de justiça me encontrou. Comecei imediatamente a cumprir tudo: aulas, multa, serviço comunitário.
Fiz horas e horas, adiantei o máximo que pude, porque tinha medo de não conseguir terminar antes do parto. Nesse meio tempo, o meu marido ficou doente. Ele tem válvula no coração e foi internado. Depois teve pedra no rim. Eu ia e voltava do hospital com minha filha. Levava ela na escola, fazia serviço comunitário, cuidava da casa, da gravidez. Foi duro demais!

Passei o final de ano de 2025 indo e vindo do hospital e, devido ao seu estado, precisou de cirurgia. Não tínhamos dinheiro. Fizemos um pix solidário. Em três dias, conseguimos o valor. Deus tocou muita gente no nosso caminho para ajudar. Depois veio o parto da Myrella, hoje com um mês. Tive ela em parto normal em janeiro desse ano e fui muito bem atendida no hospital municipal.
Se alguém questionar o fato de ter feito o ANPP, faço questão de explicar que a minha vida ficou pesada demais. Eu sozinha em Juína, sem família, com uma filha pequena, outra na escola, um marido doente e tudo isso nas costas. Portanto, a minha consciência está tranquila. Eu sei o que fiz e o que não fiz. Sei por que estava em Brasília. Sei que lutei pelo que acredito. Me senti obrigada a fazer o ANPP. Eu só peço que Deus abençoe meu país, que a justiça exista de verdade, que a gente volte a viver num Brasil livre e justo. Porque, no fim, é isso que me mantém de pé: fé, família e a certeza de que a verdade um dia aparece.”

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