
Ana Maria Cemin – 27/08/2025
Em janeiro de 2023, uma mãe, empreendedora e patriota foi presa após os atos de Brasília. Ela enfrentou humilhações, abandono, tortura psicológica e um sistema que não distingue inocência de culpa.
Este é o testemunho cru e íntimo de Jennifer Cristina Ferreira Martins, moradora de Lagoa Santa, Minas Gerais. Escrevi cada linha com o cuidado de quem ouviu, sentiu e se comprometeu a registrar a dor e a força de uma mulher que sobreviveu ao cárcere, à injustiça e à dor de ver seu filho crescer entre restrições e perguntas difíceis.
Conheci Jennifer em abril de 2023, pouco depois de sua saída do Presídio Colmeia. Na época, ela era ex-representante comercial de marcas ligadas à beleza e ex-prestadora de serviços de eventos em hotéis da capital mineira e da cidade onde mora. Tornou-se duplamente “ex” — as empresas cancelaram seus contratos por não quererem vincular suas marcas a alguém que passou pelo sistema prisional.
Naquele momento, seu único filho tinha apenas 3 anos. Ela vivia com a ajuda de pessoas que conheceu no QG da sua cidade, enquanto tentava se reinventar profissionalmente. Disse-me, naquele mês de abril de 2023, que todo mês fazia sorteio para decidir qual conta pagaria e qual poderia ser atrasada sem o risco de perder o apartamento onde morava sozinha com o filho.
Além das despesas básicas — luz, água, gás, alimentação — havia os custos fixos mensais com financiamento da Caixa Federal e com a empresa que vendeu a unidade.
Até hoje, agosto de 2025, a vida de Jennifer continua vinculada à Justiça. Ela usa tornozeleira eletrônica e precisa assinar no Fórum.
A parte mais difícil do dia a dia não foi apenas ficar sem dinheiro ou depender da ajuda dos amigos patriotas. Foi ser obrigada a ficar trancada dentro do apartamento todos os dias após as 18 horas, de segunda a sexta, e durante as 24 horas nos sábados, domingos e feriados.
É isso mesmo: trancada em casa. Quantas vezes entrou em desespero por não ter como contar com a ajuda de parentes para levar o filho dar uma volta. A situação era tão grave que nem mesmo podia ir até a portaria ou ao playground com o filho sem que a tornozeleira tocasse e a luz roxa acendesse, indicando que deveria ligar imediatamente para o Centro Integrado de Monitoramento Eletrônico (CIME) e justificar o disparo.
O filho, que naquela ocasião tinha só 3 anos, estava preso junto com ela. E, claro, fazia muitas perguntas difíceis para a patriota responder.
Quem deveria responder, na minha ótica, é o Estado brasileiro — e toda a população. Afinal, o que essas pessoas simples, trabalhadoras e com princípios morais fizeram em Brasília para merecer tudo isso? Que provas há contra elas?
Muita coisa já virou passado nesse agosto de 2025. Jennifer aprendeu a se virar com todas as dificuldades impostas pelo Governo Federal pelo fato de se identificar com a direita. Alugou o seu apartamento para poder pagar o financiamento e vive um dia depois do outro na espera da justiça.
Mas eu garanto uma coisa: não foi fácil. Ela amargou um preço muito alto e é o que você vai ler nas próximas 20 páginas:
- Me Senti em Casa no Movimento
- Brasília: A Caminhada e o Choque
- Cercados e Sem Saída
- Campo de Concentração
- Confusão, Triagem e Flagrante Fabricado
- Extorsão e Advogados Fantasmas
- Colmeia: O Presídio das Patriotas
- Ala D: 137 Mulheres e Nenhum Direito
- TOC, Fome e Água Contaminada
- O Nome que Me Tiraram
- Epílogo — Vergonha e Esperança
ME SENTI EM CASA NO MOVIMENTO
“Sou radicalmente contra as drogas, o aborto e a corrupção. Ao participar do movimento de direita nas ruas, conheci pessoas com pensamento parecido com o meu, e acabou a sensação de viver isolada. Convivi com meus familiares petistas, fui criada pelo meu pai e minha avó, e, tirando meu pai — de quem herdei os princípios morais — não me identifico com o restante da família.
Meu pai é o único que sai cedo para trabalhar e volta à noite. Os demais nunca quiseram nada com nada. Aprendi com ele a ser quem sou. É um homem correto e posicionado à direita, embora não tenha a coragem que tive de ir para frente dos quartéis e me posicionar.
Levei várias vezes meu filho ao QG, e ele segurava a bandeira enquanto gritava: “Brasil livre! Brasil livre!”. Foi muito bom deixar de me sentir sozinha e isolada por pensar diferente, por não concordar com as atitudes das pessoas da esquerda, como, por exemplo, o uso de maconha.
Não é só isso. É o modo de viver e de pensar. Por muito tempo, pensei que iria acabar sozinha na vida por ver que a ideia do povo não batia com a minha. Tudo mudou ao conhecer as pessoas nas manifestações. Percebi que éramos muitos e estávamos calados — uma quantidade muito superior àqueles que pensavam diferente de mim.
Eu descobri o Brasil conservador. As pessoas mostravam não gostar das atitudes horríveis de políticos. O QG, então, virou um local familiar, e me senti em casa. Foi gostoso demais. Comecei a participar ativamente na capital do meu estado, porque meu trabalho me permitia esses movimentos e porque, na minha cidade, a manifestação não era diária.
Só quando aqui começou a se fortalecer, com o QG 24 horas ativo, fiquei mais participativa em minha cidade.
BRASÍLIA: O DIA EM QUE TUDO MUDOU
Surgiu a oportunidade de ir a Brasília com uma caravana da minha cidade, e saímos no sábado à noite. Chegamos às 10 horas do dia 8 no QG. Uma parte da turma dormiria no ônibus e outra em barracas. A volta para nossa cidade seria no dia seguinte, segunda-feira.
Fomos muito bem recepcionados. Explicaram-nos onde ficavam as barracas principais — alimentação, café, água, oração e demais pontos — para que pudéssemos nos orientar naquele QG imenso desde a chegada.
Decidimos formar grupos menores, de três ou quatro pessoas, e fomos para a fila da alimentação. Fomos para participar do ato na Praça dos Três Poderes na segunda-feira, mas, enquanto estávamos na fila do almoço, algumas pessoas passavam gritando: “A caminhada será às 13 horas de hoje!”.
Nisso, vi um rapaz passando com um pedaço de pau, e falei para o meu conterrâneo que aquilo estava esquisito, pois todo patriota carrega uma bandeira, não um pau. Falei, mas isso não chegou a ser uma preocupação. Foi apenas uma estranheza.
Nosso pequeno grupo almoçou e seguiu junto com a multidão em marcha para dar um abraço simbólico nos prédios da nossa República. Lá, iríamos rezar e ficar até que as Forças Armadas aparecessem para nos dizer algo sobre nossas reivindicações de transparência nas ações do governo. Esse era o nosso pensamento.
Tudo nos remetia à emoção, em especial ver aquela gente toda descendo unida, ordeiramente. Isso me fez chorar. Porém, novamente, senti algo estranho no ar ao ouvir algumas pessoas gritando “Hu… hu… hu…”. Era algo incomum.
A grande massa cantava o Hino Nacional e as músicas que se popularizaram nos QGs espalhados por todo o Brasil. E, de novo, ouvi “Hu… hu… hu…”, e novamente fiquei incomodada por ser um som forte e gutural, muito diferente dos nossos cantos carregados de alma e emoção positiva. Mas seguimos nosso rumo, descendo.
Logo avistamos um viaduto e um mar enorme de gente vestida de verde e amarelo. Era a coisa mais linda do mundo — inesquecível! No meio do caminho, os militares batiam continência para nós, em respeito ao nosso ato, além de nos socorrerem dos ataques verbais de motoristas petistas que passavam pela nossa marcha, que ocupava parte da rodovia.
Eu e meus amigos nos sentíamos numa manifestação saudável e segura, como foram as experiências dos quase 70 dias anteriores.
“BORA! BORA!” QUE ESTÃO JOGANDO BOMBAS
Chegamos ao destino e passamos por uma barreira de policiais. Fomos revistados e até mesmo desodorantes aerossóis jogamos no lixo, a pedido deles, antes de liberarem nossa passagem. Passamos com barrinhas de cereais, maçãs, bananas e água.
Em pouco tempo, tudo que parecia maravilhoso transformou-se em pesadelo, com gente gritando: “Invadiram! Invadiram!”. Um dos meus amigos disse: “Bora! Bora!”, e era uma gritaria só, com bombas explodindo. Achei que eram foguetes em comemoração à tomada simbólica da Praça dos Três Poderes pela nossa manifestação. Nem passava pela minha cabeça a possibilidade de a polícia, que havia autorizado nossa entrada após a revista, estar nos atacando. Além do mais, como poderiam atacar pessoas desarmadas?
Junto conosco havia uma pessoa com problemas na perna, e o ajudamos a caminhar até o gramado. Nisso, vi a rampa do Congresso e sugeri que fôssemos para lá. Um amigo se negou a subir, e eu fiquei com medo de subir sozinha no meio daquela multidão. Então, os três rapazes resolveram acatar minha ideia e me acompanharam. Subimos e nos posicionamos ao lado esquerdo, do lado de fora. Não entramos.
De lá, víamos os policiais jogando bombas contra o povo, e o povo resistia aos ataques. Fiquei boba ao ver os homens apanhando. Vi idosos andando com o rosto cortado e sangrando. Atiravam contra nós com balas de borracha e feriam os patriotas. As pessoas foram machucadas e, mesmo assim, lá pelas tantas, vi que um grupo abriu uma faixa onde estava escrito “Intervenção Militar” e colocou uma caixa de som com o Hino do Exército. Os patriotas se sentaram no gramado, não pareciam em pânico nem estavam correndo. A ideia era resistir, mesmo com os policiais agredindo e batendo.
O gás era tanto que meu rosto começou a queimar, e a água estava ficando escassa. Alguns idosos estavam passando mal com tudo aquilo, e houve quem usasse vinagre em pano para reanimar. Um senhorzinho me deu um par de óculos para proteger meus olhos, para não arder. O sentimento era de que tínhamos de ficar ali e ajudar quem estava machucado. Então, pegamos uns cavaletes de metal que estavam por perto e isolamos uma área para afastar a polícia. Ficamos entoando a frase “Forças Armadas, salvem o Brasil”, ouvimos música, oramos, e eu pensei: “Isso é uma guerra real”. Via muita gente chorando.
Meu amigo insistia que era hora de voltar para o QG. Nessa altura, estávamos só ele e eu. Ele dizia: “Vamos subir, estamos muito cansados e com fome”. Eu achava que o correto era ficar ali, porém surgiram helicópteros, e fiquei com medo de que aquelas bombas caíssem em nossas cabeças e nos matassem. Davam rasantes assustadores! Então, voltamos de carona para o QG e, chegando lá, encontramos muita gente descendo para a Praça dos Três Poderes. Contamos sobre as bombas, sobre as pessoas machucadas, inclusive sobre os vidros das janelas que eram quebrados de dentro para fora.
No acampamento, nos disseram que o MST tentara invadir o QG. As mensagens sobre os fatos da praça não paravam de chegar, e vimos pela internet um policial ser derrubado do cavalo. Nesse momento, senti que a coisa ficou feia. A polícia estava batendo em homens e mulheres. Falei para meu amigo: “E agora?”. Andávamos pelo acampamento e víamos pessoas machucadas. Chegou para nós a informação de algumas moças que estavam no subsolo do Planalto. Uma delas ligou pedindo socorro, e ficou gravado que estavam apanhando da polícia. Ficamos com medo de que fossem mortas e então avisamos os militares para que se deslocassem até lá. Não soubemos mais nada sobre isso.
Escureceu. As pessoas ficaram todas aglomeradas no acampamento. A barraca da oração estava lotada. Junto ao lago, as pessoas dormiam umas grudadas nas outras. Era muita gente! E a conversa de que não era possível sair do QG, por ele estar cercado, começou a circular. Nos disseram que na Praça dos Três Poderes não havia mais ninguém e que muitos tinham sido presos. Era o fim da manifestação pacífica tão sonhada.
CERCADOS E SEM SAÍDA
A tensão no acampamento crescia rapidamente com a chegada de informações sobre pessoas presas na Praça dos Três Poderes. Todos estavam com o semblante muito preocupado. Foi quando começou a chover muito. O pessoal da minha cidade havia decidido priorizar a saída das mulheres do QG e reservara hotel para nós, mas eu achava injusto deixar os homens do nosso grupo. Fiquei no QG.
Era muita chuva, e acabamos sentados um perto do outro, virando a noite conversando sobre os fatos ocorridos. Veio um pensamento forte: “Estamos ferrados!”.
O dia amanheceu, a chuva parou, e fui procurar a barraca do café. Notei várias barracas fechadas, como se estivessem interditadas. Na minha cabeça, o movimento teria continuidade. Não podia supor o que viria a seguir.
Então surgiram jovens militares à paisana, repetindo a todo momento: “Mulheres e crianças, vão embora!”. Eram meninos com roupas normais, e a gente até pensou que poderiam ser infiltrados do MST tentando esvaziar o nosso movimento. Fomos para a beira do acampamento e percebemos que os soldados do Exército não falavam mais com a gente. Suas feições estavam fechadas, e carregavam escudos.
E de novo, no meio do acampamento, apareciam os garotos dizendo: “Mulheres e crianças, vão embora daqui!”, e eu olhava ao redor e via muitas crianças mesmo, na faixa dos 10 aos 14 anos. Mas por que deveríamos confiar?
Um sujeito subiu no palco e falou para não nos preocuparmos com nada, pois logo teríamos um comunicado oficial do Exército. E mais uma vez passou um rapaz recomendando a saída imediata de mulheres e crianças, o que me fez exaltar com ele: “Menino, para de ficar falando isso!”. Logo depois, uma mulher passou por nós e disse que o sujeito que havia pegado o microfone era um sindicalista do PT, da Bahia. “Esse sujeito não é confiável, é um velho conhecido da gente!”, disse ela.
“A GENTE NÃO VAI SEGURAR ESSA BOMBA”
Daí para frente, a coisa só desandou: nos informaram que o ônibus fretado da nossa cidade estava retido pela polícia e que cada um deveria achar uma solução para voltar para casa. Não bastasse os meninos falarem aquilo de ir embora, surgiu uma mulher vestida com roupa do Exército dando o mesmo conselho para que saíssemos imediatamente do QG.
Todo mundo começou a andar de um lado para o outro, e o QG foi esvaziando. Eu estava com um amigo e ajudamos um idoso com dificuldade de andar, mas ele estava acompanhado por outras duas pessoas, e acabamos aguardando que chegassem para seguirmos juntos em direção à saída do QG.
Passamos por viaturas de militares, e eles nos diziam discretamente: “Não entrem nos ônibus”. A gente só queria sair dali e seguimos em frente até que chegamos à barreira de policiais e fomos informados de que não poderíamos mais passar.
A ordem agora era sair do QG de ônibus no prazo de uma hora. O espaço seria evacuado pelos policiais federais e pelo Exército. O clima ficou muito tenso! Falei que tinha um filho de três anos em casa, mas o policial explicou que as ordens superiores eram de não deixar qualquer pessoa passar.
No microfone, uma mulher dizia: “Não é de interesse do Exército o confronto”. A informação era de que estávamos cercados, entraríamos em ônibus, seríamos levados para uma revista e depois liberados. Ela ainda dizia para sair de perto de qualquer pessoa que oferecesse resistência a entrar nos ônibus.
Então ficamos lá, aguardando os ônibus chegarem. Via aquelas pessoas muito idosas, em cadeiras de rodas, crianças, e já não havia mais o que fazer. Um dos meus amigos tentou conversar com um soldado e não obteve resposta, apenas uma expressão fechada.
Cuidei para entrar junto com meus amigos no ônibus, para ficarmos juntos. Um soldado do Exército entrou no ônibus e disse: “Se alguém tem alguma faca ou canivete, procure se livrar do objeto agora para não se complicar na revista.” Nos falou que passaríamos pela tal revista e que aqueles que não tivessem nada seriam liberados na rodoviária, podendo voltar para suas cidades.
Dentro do ônibus, o calor estava terrível, e pedimos para abrir a porta. Já não tínhamos muita água, e a fome começou a bater. Rodaram por horas com a gente. Perguntávamos ao motorista para onde estávamos indo, mas ele não falava nada.
Muita gente fez xixi na porta dos fundos — homens e mulheres. Lá pelas tantas, pararam na Polícia Civil. Os ônibus ficaram estacionados lado a lado, com todos nós dentro deles por horas, num calor intenso, pessoas passando mal. Implorávamos para que abrissem a porta e deixassem entrar um pouco de ar.
Um passageiro ouviu os policiais civis dizendo: “A gente não vai segurar essa bomba”. Referiam-se a nós — brasileiros de vários estados, manifestantes. Pais, mães, avôs, adolescentes e crianças se tornaram uma “bomba”.
Fui levada para o Campo de Concentração da Polícia Federal e, depois, para o presídio Colmeia.
CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
Depois que fomos sequestrados do QG em frente ao quartel e ficamos rodando por horas dentro dos ônibus — fazendo xixi ali mesmo, passando muito mal, com muita gente chorando — nos levaram para o “Campo de Concentração”, nome que damos ao Ginásio da Polícia Federal, para onde mais de 2 mil pessoas foram levadas presas no dia 9 de janeiro.
Na chegada, um homem me revistou, o que estranhei, pois, pelo que sei, quem deveria me revistar seria uma mulher. Logo após a revista, procuramos um lugar para carregar o celular e beber água. Depois, cantamos e conversamos sobre o que estávamos vivendo. Estamos presos? Não estamos presos? Tudo girava em torno da estranheza dos acontecimentos.
Nisso, ouvi gritos de uma mulher pedindo socorro porque seu pai estava passando mal. O bombeiro estava muito longe, após a barreira da Polícia Federal, e nós não tínhamos como ajudar o idoso. Ele sofreu um AVC, e ouvimos de pessoas próximas que “ele morreu”. Os bombeiros vieram e o levaram. Não ouvi mais nada sobre o caso.
A alimentação para as mais de 2 mil pessoas chegou somente após as 17 horas. Após um longo jejum coletivo — de crianças, adolescentes, idosos, doentes e adultos — fomos novamente para uma fila imensa para receber o alimento. Até aí, eu continuava muito otimista. Gravei vídeos mostrando que estava tudo bem, que ninguém precisava se preocupar conosco. Acreditava que todos aqueles equívocos logo seriam esclarecidos. Estávamos a um passo de voltar para os nossos estados — só faltava passar pela conversa com a Polícia Federal e contar nossa história. Hoje sei que minha ficha não tinha caído, mas precisei viver toda a tortura que veio em seguida.
SEM CRITÉRIO PARA LIBERAR PATRIOTAS
Por volta das 19 horas, os patriotas começaram a ficar mais agitados e nervosos, passando mal. Ouvia-se o tempo todo gritos de “Socorro!”, “Eu quero ir embora!”, e assim o tempo de espera ia se arrastando. A fila de triagem para sermos ouvidos pela polícia começou com os idosos acima de 60 anos.
Na madrugada, falei para os meus conterrâneos que tive o pressentimento de que não sairíamos do Campo de Concentração como nos haviam dito lá no QG. Então, mandei mensagem para a cuidadora do meu filho e para minha irmã, dizendo que possivelmente seríamos presos.
Uma integrante da caravana da nossa cidade conseguiu sair e estava na rodoviária nos esperando. Às 2 horas da manhã, eu ainda estava acordada e pensava que não seria justo sair sem meus amigos. Vi que o critério da fila havia mudado — qualquer pessoa poderia passar pela triagem — então os chamei para irmos juntos.
Minha amiga explicou que conseguiu sair por provar que tomava um determinado remédio e sugeriu que eu fizesse o mesmo. Não era difícil, naquele momento, conseguir uma receita online com médicos conhecidos. Ela estava me esperando na rodoviária, mas eu não conseguiria deixar meus dois amigos ali. Ou sairíamos todos, ou eu ficaria com eles.
Um dos meus amigos disse que queria dormir e só pela manhã iria para a fila, acreditando que logo voltaríamos juntos para casa. Só que o decreto do ministro Alexandre de Moraes parecia mudar de 30 em 30 minutos. Minha amiga continuava ligando da rodoviária, insistindo para que eu fosse para a fila e dissesse ser dependente de medicação.
A fila diminuiu bastante, e fui para a das mulheres. Quando entrei na sala, a delegada me disse: “A senhora está presa em flagrante delito e tem direito a uma última ligação”. Fiquei pasma com aquilo e perguntei qual era o critério para prender uns e liberar outros. Vi que havia chegado ao fundo do poço. Disse à delegada que tinha um filho de 3 anos e que, se ela estava me prendendo, então deveria me arrumar um defensor público.
ADVOGADOS E EXTORSÃO
Lá na quadra, havia advogados se oferecendo para tirar a gente de lá por R$ 20.000,00 ou R$ 30.000,00. E, no desespero, vi pessoas fechando acordo com eles. Muita gente pagou os advogados via Pix, na ilusão de sair logo dali. Essa invasão de advogados cobrando absurdos para tirar os patriotas do Campo de Concentração foi algo aterrador.
Uma turma de advogados estava fazendo a cabeça de uma idosa que estava lá sozinha. Então, eu disse para ela ligar para os familiares, para que conseguissem um advogado na cidade dela — alguém confiável. Com medo, as pessoas se jogavam na primeira opção.
Quando pedi um defensor público, a delegada disse que iria providenciar um. Logo em seguida, um advogado entrou e me pediu R$ 1.500,00. Eu estava sem dinheiro. Tinha ido para uma manifestação organizada em nossa cidade, tudo estava esquematizado desde a saída até a volta. Nem pensei que precisaria de dinheiro.
Aliás, tinha um pouco porque um dos meus amigos me deu R$ 100,00 em dinheiro e mais R$ 300,00 via Pix, para que eu fosse para a rodoviária, onde todos nós nos encontraríamos após aquele confinamento. Falei para o advogado o quanto tinha, e ele topou os R$ 400,00. Disse que me acompanharia no dia da audiência de custódia. Assinei o termo de culpa e entreguei meu celular. Nunca mais vi o advogado. Sumiu da minha vida.
HUMILHAÇÃO E SILÊNCIO
Da conversa com a delegada, fui para um corredor comprido, repleto de patriotas, todos sentados no chão. Homens de um lado, mulheres do outro. Muita gente chorando. Eu falava com os policiais, perguntava a razão de fazerem aquilo com a gente. Dizia: “Somos pais e mães de família, precisamos voltar para casa; precisamos trabalhar e sustentar nossos lares.” Não recebia nenhuma resposta.
Do corredor, fomos às digitais e às fotos típicas de bandidos: frontal com plaquinha e mais duas de lado. Imagina a humilhação! Sou daquelas pessoas que nem no SPC entrou na vida. Sinto verdadeiro horror só em pensar na ideia de sujar meu nome. E ali, em Brasília, de uma hora para outra, fui presa por flagrante delito por algo que não fiz — e, por isso mesmo, ninguém poderia juntar provas contra mim. Que tipo de flagrante delito era esse, se eu estava no QG quando fui levada pelos policiais federais?
Depois das digitais e fotos, pediram nossas bolsas e nos levaram para outra sala, policiada pelos federais. Ficamos toda a madrugada até às 10 horas sentados no chão. Já não tínhamos água. Falei para um policial que estávamos com fome e sede, e ele respondeu que serviriam o café da manhã no presídio.
Nosso desespero por comer algo era grande, e surgiu um pacote de biscoito. Olhava para um lado e para o outro e via homens chorando como crianças. Então, falei para o policial de plantão: “Olha para aquele senhor, ele tem idade para ser seu pai ou avô. Qual a razão de fazerem isso com ele?”. Ele respondeu: “Por favor, moça, não fala mais comigo”. Vi que ele não queria chorar. Acho que policial não chora.
Sou muito falante e fiquei o tempo todo fazendo apelos para que refletissem sobre as injustiças contra inocentes. Não funcionou. Muitos idosos inocentes foram para o presídio.
SEPARADA DOS AMIGOS, FUI PARA O COLMEIA
Ouvi que os homens seriam levados para o presídio da Papuda e vi um dos meus dois amigos presos chorando. Falei com ele e perguntei onde estava o nosso outro amigo, mas ele não sabia. Então, me lembrou que, quando saímos da Praça dos Três Poderes, poderíamos ter voltado para casa. Isso me fez chorar, e carreguei essa culpa o tempo todo dentro do presídio, porque os meus conterrâneos eram muito fiéis a mim, e eu demorei muito a entender a fria em que entramos em Brasília.
Eu queria continuar ali, lutando, mesmo com a polícia tendo nos agredido no ato de 8 de janeiro e mesmo com os infiltrados tendo feito o que fizeram nos prédios da nossa República.
COLMEIA: O CÁRCERE DAS PATRIOTAS
Nós, as mulheres, fomos levadas num carro todo fechado para o Colmeia, com sete mulheres de um lado e sete do outro, separadas por uma parede metálica que impedia ver quem estava do outro lado. Tudo escuro e apavorante. Eu disse: “Moço, pelo amor de Deus, me tira daqui. Eu tenho claustrofobia!”. Então, o policial mandou que ficássemos de pé dentro do carro, e consegui ficar na porta.
Ficamos dentro daquele camburão por muito tempo, com o sol forte batendo, sem ventilação, e as mulheres vomitando. Começamos a gritar e nada! Foi então que decidimos ficar quietas, para ver se conseguiríamos alguma comoção dos policiais. Uma policial abriu a porta e disse: “Calma. Vai ficar tudo bem!” — e fez o “L”. Não foi bem comoção, mas uma maldade gigante.
Ao chegarmos ao Instituto Médico Legal, repeti minha frase clássica: “Por que estão fazendo isso com a gente?”. A resposta da policial foi que cumpria ordens e que era para eu tirar a roupa. Eu disse que não tiraria, mas tirei. Vesti uma blusa alaranjada rasgada no peito com a palavra “Detento” e um short branco rasgado no bumbum. Reclamei das condições precárias das roupas, e a resposta foi: “É o que tem”.
Eu não queria tirar minha calcinha, pois estava começando a minha menstruação, mas não teve jeito. Fiquei sem. Dali, fui levada para a máquina de Raio-X e, na sequência, sentei com as demais patriotas no chão, com a cabeça baixa, mãos para trás e viradas para a parede. Olhava para as senhorinhas idosas sentadas daquela forma e me dava um aperto no coração. Eu mesma me sentia indignada, humilhada, pois nunca me curvei para ninguém — só para Deus, na igreja, de joelhos. Nunca fui de abaixar a cabeça para qualquer ser humano, e ali estava eu numa situação sem qualquer poder de escolha.
A tortura psicológica e física aumentava a cada minuto e chegou ao limite quando me perguntaram se eu tinha algum problema com petistas. Logo em seguida, emendaram: “Vamos colocar vocês junto com as presidiárias petistas”. A intenção era claramente apavorar.
No caminho para a cela, um carcereiro me disse para ficarmos unidas e firmes, porque as carcereiras poderiam bater em nós — e estavam querendo fazer isso.
ALA D: O INFERNO COMPARTILHADO
Nos colocaram numa ala que parecia ter sido berçário — concluímos isso porque havia uma cadeira de amamentação. Era a Ala D, e estávamos em 137 mulheres. Me uni àquelas com quem tinha mais afinidade. Só pensava no meu filho, e vinha um desespero difícil de controlar.
Ainda no primeiro dia, vieram com o cotonete para teste de Covid. Não tínhamos um minuto de paz, e as carcereiras chegavam à porta bradando ordens, sempre aos gritos: “Detentas, façam isso!”, “Detentas, façam aquilo!”. Pedi a Deus para não entrar numa crise de ansiedade, pois um surto não ajudaria em nada.
ALIMENTO INCOMÍVEL, BANHO FRIO E CHEIRO DE CARNIÇA
Na hora da comida, uma nova provocação: “Olhem vocês aí, e o Bolsonaro está lá nos Estados Unidos”. Queriam nos humilhar e desanimar a qualquer preço, mas ficamos caladas e recebemos aquela comida que nem merece ser chamada assim. Era uma ração com casca de verduras, então eu separava o arroz e o feijão para comer. A linguiça também não dava para comer.
À noite, não conseguia dormir. Só pensava no meu filho, e meu peito queimava.
Dentro da cela, estávamos só com a roupa do corpo. Recebemos um “kit presa” com absorventes, papel higiênico, pasta e escova de dentes. Não demorou muito, nos levaram para outra ala, toda queimada devido a uma rebelião anterior. Era um cenário horrível: sem lâmpadas, paredes chamuscadas e descascando. As camas eram triliches, e as senhorinhas não conseguiam subir — foi um problema.
Tivemos contato com a diretora do Colmeia dentro da cela. Ela veio nos explicar todos os procedimentos. Disse que não éramos criminosas, mas que ali dentro seríamos tratadas como tal. Disse que não podia fazer nada por nós e demonstrou ser muito humana — derramou lágrimas e nos pediu: “Pelo amor de Deus, não errem por coisas bestas”.
A diretora era muito diferente das carcereiras, que viviam nos maltratando, falavam conosco aos gritos, mandavam colocar as mãos para trás e não olhar para elas. As carcereiras ameaçavam nos colocar em solitárias e diziam que, no terceiro dia, tentaríamos suicídio.
Quando abriam a porta, se havia alguém no banheiro, era problema — tínhamos que nos apresentar rapidamente. Imagina a situação! Ficamos nessa ala com 20 quartos e um corredor gigante — dez quartos de um lado e dez do outro. Era como se fosse um grande apartamento, com o banheiro com três vasos e dois chuveiros do lado de fora das celas, junto a um local vazio usado para fazer a conferência de todas as 137 presas duas vezes ao dia. Junto a essa sala vazia havia ainda o tanque.
Preste atenção: éramos 137 mulheres compartilhando um tanque, dois chuveiros com água fria e três vasos sanitários.
Depois do banho frio, enxugávamos o corpo com a única roupa que tínhamos no cárcere. Não havia toalhas — que só chegaram dias depois, ofertadas por uma igreja de Brasília, junto com calcinhas e sutiãs. O cheiro ruim exalava dos corpos e das roupas, pois só tínhamos nossas roupas sujas para nos secar e, depois, as vestíamos molhadas.
Eu cheguei a tomar banho e ficar enrolada no cobertor, mas fui xingada e tive que vestir a roupa molhada. É triste dizer isso, mas havia gente fedendo a carniça.
“Se virem com o que tem! Pode chegar algum homem aqui e pegar alguém pelada”, diziam elas, nos proibindo de lavar e secar a única roupa que tínhamos.
Era incomum ter homens no Colmeia, mas numa noite recebemos policiais penais, logo depois da janta. Nos entregaram bíblias que sobraram após a distribuição no Papuda. Vi lágrimas nos olhos deles, e um disse se sentir “um nada” diante da gente — mulheres muito corajosas.
Aos poucos, foram chegando kits de roupas que os familiares das presas compravam e enviavam por meio dos advogados. Fui ajudada por uma moça boazinha que cedeu algumas peças para mim. Só então pude tirar aquela roupa rasgada. Era uma querida, que distribuía aquilo que não lhe faria falta.
Talvez por estar nervosa, minha menstruação veio forte, e consegui me socorrer com absorventes recebidos pelas senhoras idosas. Uma ajudava a outra.
TOC E SOBREVIVÊNCIA
Durante todo esse tempo, quando apelava para nos tirarem da prisão, a resposta era sempre a mesma: “Não posso fazer nada. Quem manda é o ministro Alexandre de Moraes.”
Enquanto isso, estávamos no cárcere comendo alimentos com bichos. O café da manhã era um achocolatado e dois pães pequenos, entregues sem qualquer higiene, todos amassados. Eu não conseguia comer — só tomava o achocolatado.
A janta e o almoço vinham em marmitex, mas era uma comida muito ruim, azeda e/ou com bichos, como falei antes. Junto vinha um suco e uma fruta, geralmente estragada. Guardávamos para mostrar às carcereiras, na esperança de que a comida melhorasse. Ilusão.
Quando começaram a entregar pacotes de biscoitos, eu só comia isso. Não conseguia comer aquela carne que parecia uma ração molhada.
Sofri muito lá dentro também por ter TOC — mania de limpeza — e a experiência na cela foi horrível. Já falei do cheiro, da comida, e havia outra coisa que me incomodava: o uso da torneira, única fonte de água para beber que tínhamos. Eu sentia nojo daquela torneira porque as pessoas estavam gripadas e, infelizmente, não têm bom senso: ficavam assoando o nariz bem no local onde a gente beberia logo em seguida. Tentava tomar água, mas não conseguia.
Então combinei comigo mesma que só tomaria quando a situação ficasse insustentável. Passei a beber água a cada três dias. E, ainda assim, só depois de desinfetar a torneira com sabão em pó e água sanitária. Tomava água com as mãos, completamente limpas, e comia o que fosse possível ingerir sem talheres. As outras detentas diziam que eu iria desidratar.
O pior é que, por beber tão pouco, eu nem conseguia ir ao banheiro. Mas não era uma escolha — era uma necessidade emocional. Aquela torneira era usada para tudo: escovar os dentes, lavar o rosto, as mãos, e também para assoar o nariz. E eu sentia nojo.
O BANHEIRO ENTUPIDO E A DOR DE QUEM NÃO TEM ESCOLHA
Soube que um dos vasos sanitários entupiu e uma das patriotas teve que forrar a mão com um saco plástico e fazer pressão. Por sorte, não vi isso — só me contaram, pois foi antes de eu chegar naquela ala. Que situação! O banheiro era imundo, com um fedor de esgoto insuportável.
A maior parte do tempo que fiquei no Colmeia foi deitada na cama. Não ficava andando, porque era gente demais dentro daquela ala, com hábitos diferentes, e eu estava sentindo muita dificuldade para me adaptar.
Era muito triste conhecer a realidade das patriotas presas. Havia uma mulher com câncer, outra era esquizofrênica e batia a cabeça na parede. Muitas estavam sem suas medicações continuadas, e quando falávamos sobre isso com as carcereiras, elas diziam: “O que vocês estavam fazendo na manifestação, se são diabéticas ou têm outra doença?”. Era desumano — até porque os remédios estavam nas bolsas delas, mas os procedimentos dos presídios são todos muito demorados.
Na verdade, era pior que desumano. Duas vezes por dia havia o “Confere” das presas. Todas nós tínhamos que assumir a postura que a carcereira exigia. Se uma de nós estivesse deitada e desfalecida, tínhamos que tirá-la da cama e carregá-la para a vistoria. Arrastávamos a doente para o Confere.
Elas não queriam saber nada sobre nós. Estavam ali apenas para cumprir protocolo — mas não sei se no protocolo estão previstas as inúmeras agressões verbais que sofremos, nem a pressão psicológica. Vivemos em tortura dentro do Colmeia.
O NOME QUE ME TIRARAM
Quando vinham entregar a comida, eu ficava na minha cama para não ver aquelas presidiárias. Ouvi elas dizendo: “Vocês reclamam da comida, mas nós estamos aqui há anos comendo isso”. Eram mulheres presas por latrocínio e outros tantos crimes horríveis — pessoas más. As patriotas podiam estar deitadas na cama, passando mal, mas para elas isso não interessava. Não havia sentimento nelas. Ver isso machuca muito.
Gritavam o tempo todo com a gente. O meu nome — lindo, cheio de história — foi substituído por elas por “Detenta”. Uma palavra fria, sem identidade, sem humanidade.
Lá no começo, contei que paguei R$ 400,00 para um advogado no Campo de Concentração — e ele sumiu. Foi a delegada quem o arranjou para mim, quando exigi um defensor público. Sei que naquele momento criei um problema para ela, porque trabalhei seis anos como auxiliar da imigração e conheço os nossos direitos.
Sei também que o flagrante delito estava incorreto, porque eu e os outros estávamos no QG no dia 9 de janeiro e não poderíamos ter sofrido aquela prisão. Ela sabia que estava errada, que eu não era obrigada a assinar aquele papel assumindo uma culpa que não tinha. Naquele momento, veio à minha cabeça: “Esses delegados e policiais federais não valem nada, estão combinados com esses advogados para nos extorquir”. Tanto foi verdade que ele sumiu.
Lá no ginásio havia muitos advogados. Um dentista pagou R$ 8.000,00 na esperança de sair de lá, e eu perguntei por que ele pagou tão caro. A resposta foi que tinha condições de pagar. Eram bobos desesperados que pagavam o que pediam, enquanto os advogados nadavam de braçada. E eu creio que eram os delegados que chamavam os advogados, por interesse próprio. Colocaram eles lá dentro. É uma suspeita.
Fiquei no presídio uma semana incomunicável com o mundo de fora porque não tinha advogado. Ninguém me procurava. As outras detentas iam para o parlatório, e eu nada. Um dia fui chamada, mas não estava muito confiante. Ouvi uma voz interior me dizendo: “Você precisa escutar”. Fui ao parlatório, deitei a cabeça na mesa e fiquei revirando os olhos em deboche, enquanto esperava a pessoa que queria falar comigo.
Reconheço que fui terrível em alguns momentos, mas é que eu ficava imaginando que viria um advogado querendo tirar de mim um dinheiro que eu não teria para pagar.
Foi então que vi uma senhora vindo em minha direção com os braços abertos. Ela disse: “Eu sou a mãe do seu amigo que foi preso contigo.” Ela me abraçou, e na hora eu coloquei toda a minha culpa para fora. Disse que o filho dela foi preso por minha causa, porque não atendi o pedido dele para irmos direto da Praça dos Três Poderes para a rodoviária. Disse que ele estava preso no Papuda por minha culpa. Eu estava com tudo aquilo trancado no meu coração.
Então ela disse: “Filha, de jeito algum você tem culpa. Se você confia em Deus, reza. Essa é uma prisão política, e nem mesmo o melhor advogado do Brasil consegue resolver esse problema.” Contou que procurou advogados no nosso estado para tirá-lo de lá, e os valores cobrados eram de R$ 20.000,00 cada um. Disse que era advogada, embora não criminalista, e que estava acompanhando os movimentos do ministro Alexandre de Moraes. Acreditava que, em pouco tempo, mais patriotas seriam liberados, porque o sistema penal de Brasília não suportava a demanda. Falou que as liberações não seguiam qualquer critério, então nenhum advogado poderia seguir a lógica do Direito Penal. Se despediu e foi embora.
UM ANJO DA GUARDA NO PARLATÓRIO
Três dias depois, me chamaram novamente para o parlatório. Fiquei sem vontade de ir. Mas veio a voz novamente: “Escuta. Você precisa escutar.”
Era um advogado de Brasília, que minha irmã descobriu no Instagram. Ele cobrou dela R$ 1.700,00 só para me visitar no Colmeia. Queria que eu comprasse o kit presidiária, mas expliquei que não precisava, pois havia recebido produtos das colegas de cela. Custava R$ 350,00, e eu não queria chatear minha irmã com pedido de dinheiro.
Então falei para ele: “Por favor, peça para minha irmã entrar em contato com a mãe do meu amigo preso. Eu não tenho o telefone, mas ela descobrirá.” Ele ficou ali insistindo para que eu assinasse a procuração, que pagasse mais um valor — R$ 22.000,00 iniciais — para acompanhar meu caso, e que, quando surgisse a acusação contra mim, ele faria a defesa.
Enquanto ele falava tudo aquilo, lembrei da conversa que tive três dias antes com a mãe do meu amigo: “Nem o melhor advogado do Brasil consegue resolver esse problema.” Não assinei nada e me despedi.
No mesmo dia à tarde, me chamaram novamente para o parlatório. Era outro advogado. Ele me procurou por frequentar o QG da nossa cidade, falou o nome da minha irmã, disse que eu não estava mais sozinha, que não deixaria os patriotas da cidade dele na mão e que faria meu atendimento pró bono. Foi iniciativa dele.
Disse que, naquele momento, não havia nada a fazer além de nos apegar em Deus. Me senti muito tranquila com a chegada desse advogado na minha vida. Ele foi me ver mais vezes no presídio depois disso. Pedi para ele trazer apenas biscoito de maizena, porque os salgados não chegavam até nós — alguém do presídio estava surrupiando.
Para ter uma ideia de como as coisas acontecem lá dentro: só no dia em que fui para casa recebi do presídio o kit presa que alguém havia comprado para mim. Até hoje, esse advogado é um anjo da guarda para mim.
TODO MUNDO SABE QUE A GENTE NÃO FEZ NADA
Saí do Presídio Colmeia em liberdade provisória e tornozeleira no dia 20 de janeiro de 2023. Voltei para casa e fiquei sem dormir nos primeiros dias. Ainda ouvia as bombas jogadas contra nós na Praça dos Três Poderes e lembrava das pessoas machucadas pela polícia.
Sentia uma sensação de revolta por estarmos sofrendo tanto sem ter feito nada. Mas o tempo foi amenizando, até porque peço a Deus o alívio dessa dor.
PROFISSIONALMENTE, MINHA VIDA ACABOU
Fiz faxina para pessoas conhecidas que sabem que estou com tornozeleira. Amigos me visitaram e trouxeram biscoitos e algumas frutas para me ajudar. Quando acaba, não há de onde tirar, então estou sendo muito racional nesse momento. Pedi socorro ao meu pai e expliquei que não consigo ficar dentro de casa, de braços cruzados, sem trabalhar. Ele decidiu me ajudar.
Como o meu pai tem uma loja na capital, ele trouxe parte da mercadoria para que eu abrisse um comércio numa sala comercial cedida por uma amiga. Pintei o muro com o nome do negócio e agora tenho para onde ir todos os dias, para recomeçar no peito e na raça.
A tornozeleira colocada em Brasília tinha um horário diferente de restrição: das 22 horas até as 7 horas do dia seguinte. Nesse período, era proibido estar fora da minha residência, e o alarme soava. Desde que troquei a tornozeleira por outra, no sistema penitenciário do meu estado, a restrição aumentou: a partir das 18 horas, tenho que estar em casa.
A troca também reduziu a abrangência regional, o que foi grave para minha vida profissional. Mesmo com meu advogado pedindo à Justiça alguma flexibilidade, ele obteve uma negativa da juíza: ela cumpriria a decisão, pois é uma precatória e tudo está nas mãos de Alexandre de Moraes. Se ele ordenou que fosse dessa forma, ela cumpriria.
No meu caso, não posso nem ir à portaria do prédio nos finais de semana e feriados. Meu filho chora porque quer brincar no parque, e eu digo que não dá para sair de casa. Ele diz: “Lula te prendeu e você só pode sair quando o papai do céu falar ‘acabou’”. Ele é muito inteligente!
Tentei esconder a prisão contando uma história de que estava trabalhando, mas ele olha para minha perna com a tornozeleira (que digo ser um relógio) e pergunta se, quando o trabalho terminar, eu vou tirar o aparelho e devolver. Digo que sim. Minha história não se sustentou por muito tempo, e acabei contando que fui presa por homens muito maus, que aquilo na minha perna é como uma algema — razão pela qual não posso levá-lo para visitar o vovô na loja, na capital do estado.
Ele sabe que Lula fez isso com a mãe dele, e então me diz que Bolsonaro é bom. Confirmo e digo que Bolsonaro é uma pessoa boa e que deu a vida dele por nós. Ele chora igual quando quer brincar no playground ou nadar na piscina, e eu não posso levá-lo. Estou presa, e há dias em que é difícil para nós dois.
Meu advogado explicou à juíza que nem no condomínio posso andar e que tenho um filho de 3 anos que precisa de sol. A resposta segue a mesma: não posso fazer nada. Isso dá uma angústia, porque a gente não sabe quando tudo isso vai acabar. Meu filho e eu estamos presos juntos.
VIZINHO TRAFICANTE E POLÍCIA NA PORTA
A polícia esteve no nosso condomínio e algumas vizinhas me ligaram acreditando ser por minha causa, como se eu tivesse cometido algum crime. Eu não devo nada. Fui presa injustamente! Mas a vizinhança parece não compreender a diferença entre um criminoso e um preso político.
A história da polícia no condomínio aconteceu em março de 2023, quando um inquilino traficante foi preso. Não demorou uma semana e ele já estava solto — o vi caminhando pelo condomínio. Detalhe: sem tornozeleira.
Num dia, enquanto cozinhava para meu filho, alguém bateu à porta e, nisso, um vizinho interfonou dizendo que era a polícia. Certamente achava que eu era a razão da polícia estar ali. Espiei pelo olho mágico e era mesmo a polícia. Pensei: “Só abro se baterem de novo”. Será que era na minha porta que estavam batendo?
Tudo o que vivemos em Brasília deixa a gente atônita, e fico pensando: será que estou ficando louca? Tem polícia na minha porta mesmo? É muita pressão emocional!
Noutro dia, saí para trabalhar e uma vizinha me olhou e falou: “E você com essa tornozeleira depois de tudo que vocês fizeram lá”. Então, disse para ela: “A polícia não está atrás de mim, viu? Não fiz nada de errado. Esta tornozeleira devia estar na perna do vizinho traficante, não na minha. Ele é um bandido e anda de um lado para o outro livre, e eu, que sou honesta e trabalhadora, sou punida sem ter feito nada de errado”. Ela ficou com vergonha.
Então é assim a vida de quem foi preso pelo governo em 8 de janeiro. Tenho que explicar que a polícia está batendo no apartamento ao lado, não no meu. Essa suspeita, esse julgamento, machucam.
Sempre tive horror à ideia de cair no SPC. Sempre procurei trabalhar e pagar minhas contas em dia. Sempre zelei pelo meu nome. E hoje vivo uma situação em que não consigo me olhar no espelho. É um desafio muito grande superar o trauma.
EU NÃO CONSIGO REZAR PARA ALEXANDRE DE MORAES
Peço a Deus que Ele faça justiça. Não consigo rezar pela alma do ministro Alexandre de Moraes. Falo com o Senhor para baixar a mão nele, porque só Ele poderá nos ajudar. O ministro sabe que não fizemos nada. Ele sabe que está causando dor em muitas famílias — causando dor ao meu filho.
Quando fui trocar a tornozeleira, meu filho foi comigo porque eu não tinha com quem deixá-lo. Nós dois entramos num lugar cheio de pessoas perigosas. Passaram mulheres algemadas, e meu filho perguntou o motivo de estarem presas. Fico pensando se isso tudo não ficará gravado nele.
Nos levaram a uma salinha com brinquedos infantis, e ele queria saber por que o policial estava com revólver na cintura, apontando com o dedinho. Será que um dia isso sairá da cabeça do meu filho?
Enquanto ele ficou na sala de recreação, fui levada para uma sala cheia de homens fedendo, para tirar fotos de mim — de novo — segurando a placa. Essas são as típicas fotos de quem comete crime: foto de frente, foto de perfil de lado e outra.
LIÇÃO DE VIDA
Eu quero sobreviver, preciso trabalhar e gosto de sair de casa e voltar no final da tarde com a sensação de dever cumprido. Com a loja que abri, e pelas condições financeiras de hoje, tenho que levar o meu filho junto para o trabalho. Lá, rezo com ele para que o Papai do Céu abençoe a nossa loja, para que as pessoas entrem e comprem os nossos produtos. Quando atendo um cliente, peço para ele ficar quietinho, mas com três anos ele é muito falante, inquieto, e sai oferecendo produtos. Quer vender também!
Isso tudo é muito diferente para mim, pois sempre vivi na correria, dia e noite. Então, se tem algo de bom que posso tirar desses acontecimentos todos, desde 8 de janeiro, é a oportunidade de meu filho me conhecer melhor. Antes, eu não convivia tanto com ele. Muitas vezes saía cedo pela manhã e, quando retornava, ele já estava quase dormindo, muito cansado. Ficava com uma cuidadora.
Meu ritmo intenso de trabalho era consequência de ser, desde muito cedo, independente. Tenho carro desde os 21 anos, formei-me em Administração e Meio Ambiente, e tinha metas de ganhos para uma vida muito confortável, com viagens para o exterior. Ser metódica no trabalho me fez gastar o que eu queria, quando queria. Hoje, vivo uma outra vida, mas tenho fé em Deus que tudo vai melhorar. Frequentava a igreja aos domingos — coisa que hoje não posso — mas vivo a fé.
Tenho tempo para levar e buscar o meu filho na escola, posso abraçar e beijá-lo durante todo o dia. Temos o nosso momento de rezar juntos. Quando um cliente compra, nós rezamos a Deus agradecendo. Isso tudo nos fortalece nesse momento. Quando passa uma reportagem do Bolsonaro, meu filho me chama e diz: “É Bolsonaro!”. Eu digo: “Sim, meu filho, é o capitão”.
Tem uma lição nisso tudo, e penso que todos cooperam para o bem daqueles que amam o Senhor. Eu tive que ir lá para o deserto — o Senhor me levou porque tem um propósito muito bom.
Gosto muito do Salmo 94 da Bíblia, que diz que a justiça imperará no nosso mundo que humilhou e massacrou Deus. No texto do salmo está escrito:
“É possível que quem criou o ouvido não possa ouvir? Será que quem formou os olhos nada veja? Aquele que disciplina as nações os deixará sem a devida retribuição punitiva? Não tem conhecimento Aquele que concede ao ser humano o saber?… Bem-aventurada a pessoa a quem disciplinas, ó Eterno, aquele a quem ensinas a tua Lei; calmamente atravessará os dias maus, enquanto, para os ímpios, uma fossa se abrirá! O SENHOR jamais desamparará seu povo; nunca abandonará sua herança. Voltará a haver justiça nos veredictos, e todos os retos de coração a seguirão. Quem se levantará a meu favor contra os ímpios? Quem permanecerá ao meu lado combatendo os malfeitores? Não fosse o socorro do SENHOR, eu já estaria habitando na região do silêncio… Será, um governo corrupto, capaz de fazer aliança contigo? Um trono que pratica injustiças em nome da lei? Eles, contudo, tramam contra a vida do justo e condenam os inocentes à morte! Entretanto, o SENHOR é meu baluarte e meu Deus, a torre inexpugnável em que me refúgio. O Eterno fará recair sobre os ímpios a própria iniquidade deles e serão consumidos por seus pecados; o Senhor, o nosso Deus, os destruirá!”
Eu confio na Palavra. Sei que a promessa de Deus será cumprida, que Ele vai agir. É o que mantém de pé as pessoas que sofreram no 8 de janeiro, como eu.
EPÍLOGO: VERGONHA E ESPERANÇA
Sinto dificuldade para me olhar no espelho e sentir o orgulho que sentia de mim mesma, por ser uma mulher batalhadora. A lembrança do presídio volta. Recordo que sofri todo tipo de humilhações. Não tínhamos o direito de olhar para as carcereiras — nossas cabeças deveriam permanecer abaixadas diante delas.
Recordo aquela gente toda chorando, sem culpa. Daquelas presidiárias que faziam questão de dizer que éramos iguais a elas — pessoas ignorantes que não sabem a diferença entre quem realmente cometeu um crime e um preso político.
Talvez seja demais pedir que elas entendam que pagam pelos seus crimes, mas que as patriotas não fizeram nada. Não mereciam estar presas.
Mas isso tudo ficou para trás.
Hoje, tenho uma tornozeleira que limita minha vida, sim. Mas estou com o meu filho. E estou recomeçando uma nova vida profissional. Com dignidade. Com fé. Com coragem.”
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