Ana Maria Cemin – 31/03/2026
O brasileiro José Éder Lisboa, de 64 anos, será sepultado nesta terça-feira, às 16 horas, no Cemitério Municipal de Jaú, SP. Ele morreu na Argentina, onde vivia em exílio desde 2023, após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação nas manifestações de 8 de janeiro. O corpo está sendo velado desde o início da manhã no Memorial Oswaldo Izatto, em sua cidade natal.
José teve uma trajetória marcada por trabalho, simplicidade e sofrimento, e simboliza o drama vivido por centenas de brasileiros que buscaram refúgio no país vizinho após as condenações relacionadas ao 8 de janeir
Segundo o exilado Fabrício de Moura Gomes, 48 anos, que acompanhou de perto o drama, José quase morreu antes mesmo de ser internado. “Levei ele ao hospital pela manhã, mas não quiseram internar. À noite, piorou muito e quase morreu; só então aceitaram receber”, relatou.
O laudo oficial de óbito registra como causa da morte a Síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica grave que provoca paralisia progressiva e pode levar à falência respiratória.
Segundo Fabrício, essa síndrome foi adquirida por José quando ele estava preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em 2023, após as prisões em massa relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Na época, José enfrentou um quadro tão severo que ficou 15 dias internado, quase morreu e chegou a sair do presídio em cadeira de rodas, extremamente debilitado.
“É muito importante frisar isso. Ele adquiriu essa doença quando estava preso. Quase morreu na cadeia, ficou internado, voltou com o tratamento incompleto. De lá para cá, ele nunca mais foi o mesmo”, relata Fabrício.
A esposa de José possui o prontuário médico que comprova o diagnóstico feito ainda durante a detenção. Segundo Fabrício, os sintomas que ele apresentou na Argentina — fraqueza muscular extrema, dificuldade para mover braços e pernas, problemas intestinais recorrentes e perda progressiva de força — eram idênticos aos que teve na Papuda.
“O quadro aqui na Argentina era igualzinho ao de quando saiu da prisão. Ele sempre teve problemas intestinais depois daquilo. A doença voltou, agravou, e ele não resistiu”, afirma.
A Síndrome de Guillain-Barré é uma condição autoimune que pode ser desencadeada por infecções, estresse extremo e condições sanitárias inadequadas — fatores comuns em ambientes prisionais superlotados. A interrupção do tratamento, como ocorreu com José, aumenta drasticamente o risco de recaídas graves.
O exílio na Argentina e a distância da família
Na Argentina, José vivia com o documento local (DNI), o que lhe dava alguma estabilidade. Sua esposa viajou do Brasil para acompanhá-lo e o visitava duas vezes por dia, por apenas meia hora. Ela relatava que, apesar das limitações, ele recebia cuidados atenciosos de médicos e enfermeiros argentinos.
Mas a fragilidade física e emocional era evidente. Longe da filha, do país e sob o peso de uma condenação que considerava injusta, José enfrentava uma batalha silenciosa — contra a doença, contra o medo e contra o abandono.
A condenação e o caminho até o exílio
José Éder havia sido condenado pelo STF a 14 anos e seis meses de prisão por abolição violenta do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado. Temendo ser preso novamente, deixou o Brasil e buscou refúgio na Argentina, onde viveu seus últimos anos em condições de vulnerabilidade.
O velório na Argentina: simplicidade, medo e despedida
No último sábado, José foi velado na Argentina, em uma cerimônia marcada pela simplicidade e pela dor dos exilados. Um dos presentes descreveu a cena:
“O velório foi bem simples, num caixão sem enfeites, provavelmente pelas regras sanitárias. Não era mais o mesmo homem que a gente conheceu. Ali estava um homem franzino, tanto que, se você não olhasse para o rosto, poderia ter a impressão de ser o corpo de uma criança.”

Alguns exilados viajaram para se despedir; outros, tomados pelo medo, hesitaram ao ver uma viatura estacionada na esquina da funerária. Mesmo assim, foram. Um pastor, também exilado, recitou palavras de consolo e pediu orações à família que não pôde estar presente nos últimos anos.
“O caixão parecia tão vazio… dá dó de ver. Feliz de quem ficou com as imagens dele vivo e com saúde.”
A dor compartilhada entre os exilados
Fabrício, um dos primeiros brasileiros a pedir asilo na Argentina, descreve José como um homem simples, trabalhador e profundamente abalado pelos acontecimentos de 2023. Ele próprio carrega marcas profundas do exílio: a distância da filha pequena, a morte do pai sem poder se despedir, e a convivência diária com idosos e famílias destruídas pela perseguição judicial. São histórias que ultrapassam o campo jurídico e atingem dimensões humanas devastadoras.
Um desfecho que simboliza um drama maior
A morte de José Éder em território estrangeiro, longe da família e após anos de sofrimento, revela a falta de humanidade que cerca todo o 8 de janeiro. José morreu em condições de extrema fragilidade, exausto por uma luta que travava há muito tempo. Hoje, em Jaú, sua cidade natal, amigos e familiares finalmente podem se despedir — algo que lhe foi negado em vida. Às 16 horas, José será sepultado. E com ele, parte da história de um Brasil dividido, ferido e ainda em busca de respostas.
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