Ana Maria Cemin – 17/03/2026
São centenas de exilados políticos vivendo fora do Brasil após o 8.01, sendo que pelo menos três centenas de perseguidos, alguns com famílias e outros não, estão na Argentina. Aqui tratamos de apenas quatro exilados políticos que deixaram o Brasil para não serem presos em decorrência dos acontecimentos de 8.01. Três deles chegaram a ser presos no Complexo Penal da Papuda, em Brasília, onde viveram experiências extremas, a ponto de, após serem condenados, decidirem abandonar o país para recomeçar as suas vidas longe da perseguição do Governo Lula.
Entre eles está Simone Tosato, atualmente em algum país da América Latina que prefere não revelar. Há também o casal Alessandra e Joelton Gusmão, que buscou refúgio na Argentina. Joelton, inclusive, passou mais de um ano preso na Colônia Penal de Ezeiza devido a um pedido de extradição do Governo Lula, e hoje permanece preso em casa, na Argentina, usando tornozeleira eletrônica, até ser definido o seu asilo ou extradição.
Já Rafael Tamanho, desde os primeiros momentos das perseguições políticas que começaram no início de janeiro de 2023, quando mais de duas mil pessoas foram presas e a maioria já foi condenada ou ainda será, ele iniciou uma saga por diversos países até chegar à Itália, onde agora vive com a família.
Ouvimos o que eles têm a dizer após Joel se tornar o primeiro preso político brasileiro a receber asilo na Argentina.
Joel Borges Correa tornou-se o primeiro brasileiro ligado aos acontecimentos de 8.01 a receber asilo político na Argentina. Ele chegou ao país fugindo da perseguição, mas acabou preso pouco depois, a pedido do governo brasileiro, e enviado para a Colônia Penal de Ezeiza. Permaneceu por mais de um ano, enfrentando o medo e a incerteza, até que seu advogado conseguiu recorrer da ordem de extradição. Mesmo em liberdade vigiada, usando tornozeleira eletrônica, Joel continuava sob risco até que o Conare argentino reconheceu oficialmente o seu pedido de proteção humanitária.
A decisão muda completamente o rumo de sua história e abre um precedente importante para centenas de brasileiros que buscaram refúgio na Argentina e em outros países. O asilo reconhece que Joel não pode ser devolvido ao Brasil e reforça a autonomia do sistema de refúgio argentino, no governo de Javier Milei. Para os exilados, a notícia representa que a esperança, antes frágil, pode finalmente ganhar forma.
DEPOIMENTO DE RAFAEL TAMANHO
“A notícia me encheu de uma felicidade, uma alegria genuína. Uma mistura de sentimentos difícil de explicar para quem não viveu isso. Estou muito feliz pelo Joel, pela família dele. Eu convivo com essa realidade de perto. Durante muito tempo eu vivi em centro de refugiados aqui na Itália, sem saber o que seria do amanhã, cheio de incertezas, convivendo com medo, com angústia. E aí, ter uma resposta dessa, um asilo definitivo, para mim isso é mais do que uma notícia. É um sinal. É uma confirmação de que o mundo começou não só a enxergar, mas a validar o que está acontecendo no Brasil. De que a perseguição política é real. De que as pessoas que fugiram não são criminosas, não fugiram por covardia. Fugiram por causa da injustiça. Para não perder a sua liberdade. Porque não tinham escolha.

E, ao mesmo tempo, essa notícia me enche de muita esperança. Porque tem muitas outras pessoas aguardando ter o status definitivo de refugiado para viver sem medo. Para viver com a cabeça erguida, com dignidade, buscar trabalho digno e reconstruir a vida. Isso dá esperança. Porque, se a Argentina enxerga, outros países vão começar a enxergar também o cenário que nós estamos vivendo e denunciando há muito tempo. E um dia o Brasil, inclusive os que ainda não enxergam, vão compreender essa parte da história que a mídia tentou contar de uma maneira diferente. Eu tenho muita esperança de que o fim desse capítulo sinistro na vida de todos nós vai chegar. Vai passar. Então sim, é uma grande notícia.”

DEPOIMENTO DE SIMONE TOSATO
“Creio que essa é a primeira vitória de muitas que ainda virão. Quando um país reconhece um asilo político, ele abre precedentes para que outros casos do 8.01 também sejam reconhecidos como aquilo que realmente são: perseguição política.
Joel e outros quatro brasileiros passaram mais de um ano presos na Argentina a pedido de um juiz de esquerda. E todos nós que estamos na lista de prisão naquele país (Argentina) entramos de forma regular e solicitamos asilo político ao Conare.

Acredito que o próximo passo será a libertação da Sirlene Zanotti, que ainda permanece presa injustamente na Argentina. Recebemos essa maravilhosa notícia enquanto tantas coisas começam a vir à tona no Brasil: ministros do STF envolvidos no escândalo do Banco Master e o Governo Lula envolvido no escândalo do INSS, entre tantos outros fatos que agora começam a aparecer. A verdade pode ser abafada por um tempo. Pode ser atacada, ridicularizada, escondida. Mas ela sempre aparece. Essa é a minha fé. Eu creio que ainda veremos algo maior. Veremos as injustiças sendo reconhecidas. Veremos as prisões injustas sendo expostas. Veremos a perseguição política sendo revelada e os verdadeiros criminosos sendo responsabilizados. Hoje é apenas o começo. Viva la Libertad!”
DEPOIMENTO DE ALESSANDRA GUSMÃO
“A gente acredita que, agora, com essa liberação do Joel, essa decisão definitiva do asilo para um de nós, abre caminho para todos nós que estamos aqui na Argentina. O que a gente mais quer aqui é a nossa liberdade. Foi por isso que saímos do Brasil. Desejamos tocar a nossa vida, trabalhar, estudar e cuidar das nossas crianças. Então, o que a gente mais almeja e deseja neste momento é que todos aqui que vieram pedir asilo na Argentina consigam ser libertados. Quando Joelton e eu recebemos a notícia de Joel, choramos muito, porque abriu as portas para a possibilidade real de vivermos em paz com os nossos três filhos e o neto, recomeçando a vida sem o peso da perseguição governamental.”


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