Ana Maria Cemin – 15/03/2026
Conheça o pensamento do primeiro brasileiro a receber asilo político definitivo na Argentina, país que, desde 2024, se tornou refúgio para centenas de pessoas perseguidas pelo Governo Lula e que hoje enfrentam condenações que variam de 14 a 17 anos. Entre elas, há homens e mulheres de todas as idades, muitos já idosos ou próximos dos 60 anos. Eles não podem voltar para casa nem reencontrar suas famílias.
Aqui, Joel nos fala desse momento atual, lembrando que a sua trajetória nós acompanhamos em diferentes momentos no site www.bureaucom.com.br.
Ele nos conta como se sente ao ser o primeiro brasileiro autorizado a viver em território argentino sem medo, e o que mudou em sua vida desde então. A seguir, convidamos você para essa leitura.
JOEL ANTES E DEPOIS DO 8 DE JANEIRO
Quem era Joel antes do 8 de janeiro?
Antes dos acontecimentos do dia 8/01, eu era uma pessoa que tinha uma família, tinha um porto seguro. Eu trabalhava com meu caminhão, viajava pelo Brasil todo e em viagens internacionais para a Argentina e o Chile.
Quem é o Joel depois do 8 de janeiro?
Hoje no Brasil sou considerado como golpista, infelizmente. Por causa do 8/01 eu perdi tudo o que mais me importava: o convívio familiar, o meu trabalho como motorista autônomo e o meu próprio caminhão.
Sou o primeiro brasileiro a ter asilo definitivo na Argentina, por ser reconhecido como perseguido político. Sim, reconhecido como um injustiçado. Nesta semana, no dia 12 de março, a Justiça argentina removeu a tornozeleira eletrônica, e isso devolveu a minha esperança de poder ter uma vida em liberdade. Sou alguém que teve encontro com Deus, pois, neste tempo todo de perseguições no Brasil e prisão de mais de um ano na Colônia Penal de Ezeiza, na Grande Buenos Aires, só o que me sustentou foi a fé.
Com relação aos outros exilados aqui na Argentina, eu espero que a CONARE avalie o quanto antes a situação de cada um e conceda o asilo a todos eles.

Você pode contar, brevemente, o que você viveu nos últimos três anos?
Após ser preso injustamente, fiquei 7 meses no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, lugar onde eu perdi 35 quilos. Vivia numa cela minúscula com outros presos políticos, totalmente sem direitos, por mais que meu advogado tenha tentado mostrar a minha inocência neste processo.
Saí de lá em 08/08/2023 usando tornozeleira eletrônica. Fiquei em um regime de liberdade limitado, portanto não podia sair da cidade na qual morava, não podia nem visitar a minha família na cidade vizinha, quanto menos trabalhar com caminhão.
Fiquei 8 meses usando tornozeleira, até que saiu a condenação de 13,6 anos de cárcere, sendo 12 anos em regime fechado. E por quê? Porque eu estava numa manifestação! Sim, eu fui para uma manifestação. Por mais que tenha ocorrido o quebra-quebra da forma que aconteceu, eu nunca imaginei que passaria por uma experiência como aquela. O meu intuito era me manifestar e não vandalizar. O 8/01 foi algo que saiu completamente fora do controle, mas eu não participei de nada. É possível vasculhar o meu processo no Supremo, e quem fizer isso verá que não tem uma prova da minha participação, apenas fotos aleatórias em frente ao QG de Brasília; e as muitas fotos anexadas no meu processo não são minhas.
Para não voltar à prisão, cortei a tornozeleira e passei a morar aqui, na Argentina. A nossa paz terminou em meados de 2024, quando o governo Lula encaminhou um pedido de extradição de seis dezenas de manifestantes, e eu estava nessa lista. Com isso, eu fui detido em uma blitz enquanto trabalhava e fiquei 1 ano e 2 meses preso, sendo que 56 dias foram numa Comissaria (o mesmo que uma delegacia no Brasil). Depois, fui levado para a Colônia Penal de Ezeiza, junto com os outros três brasileiros presos pelo 8/01. Apesar de ser duro ficar preso, foi muito melhor do que ter que voltar para a Papuda, pode acreditar. No cárcere em Brasília nós sofremos demais, difícil até descrever.
Como você enxerga o 8/01 hoje?
Dizer que o 8/01 valeu a pena seria desproporcional, mas, com relação a hoje, ele tem uma importância muito grande porque mostra para o mundo que o Brasil não é mais uma democracia, apesar de ter pessoas que ainda acham que é, mas nós sabemos que não.
As perseguições são diárias. Então, o 8/01 me trouxe uma proximidade com Deus que antes eu não tinha e nem conhecia. Hoje, com a possibilidade de viver livremente aqui na Argentina, quero recomeçar a minha vida, mesmo que longe de casa (condição nada fácil de viver), porque é muito melhor do que ter que pagar por uma coisa que eu não fiz.
E esperamos que em algum tempo sejam revistos os julgamentos no Brasil, que não seguiram o processo legal. Foi negada às pessoas a ampla defesa e o contraditório. Todos fomos julgados na última instância, sem direito de recorrer, porque quem condenou também avaliou os recursos. Tudo não passa de um jogo de cartas marcadas.
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