Há histórias que atravessam o país, e também atravessam a alma. A jornada de Seu Raimundo é uma delas. Pai de Charles, uma das pessoas presas após os acontecimentos de 8 de janeiro, Seu Raimundo passou três anos viajando de Serra, no Espírito Santo, até Brasília, carregando no peito um coração quase septuagenário, mas firme na fé e na esperança.
No dia 4 de março, pela primeira vez desde a prisão do filho, começa uma nova fase em que ele poderá ver o filho novamente em seu próprio estado. Charles segue em regime fechado, agora em uma penitenciária capixaba, mas a proximidade devolveu ao pai e à família , algo que nenhuma estrada longa conseguiu tirar: a força de continuar lutando.
A psicóloga Suzi traduziu em palavras aquilo que Seu Raimundo sente, vive e suporta. Não apenas como pai, mas como homem de fé, de família e de esperança. Segue texto de autoria de Suzi.
A VIAGEM
Por Suzi de Moraes Barros, psicóloga
Hoje estou pegando a estrada; mais de 24 horas para chegar ao meu destino. Carrego dentro do peito um coração que bate há quase 70 anos; um coração que sangra e clama por justiça: a justiça dos homens, porque sei que a justiça Divina virá! São 3 anos de muita fé, regada de lágrimas, sacrifícios físicos, emocionais e financeiros. Às vezes me pergunto como ser — e preciso ser — o alicerce da família. A fé me move, mas não é possível caminhar e continuar como se nada houvesse acontecido. Tenho filhos, netos e bisneto; tenho esposa, tenho trabalho. Tenho um teto para nos abrigar, mas meu coração sangra e continua a sangrar.
Minha voz, ah, a minha voz apenas ecoa entre alguns pares, entre os da minha comunidade, entre aqueles que encontro pelo caminho nessas longas viagens e que se importam, ajudam e se solidarizam. Mas o silêncio “ensurdecedor” da mídia, do país e até mesmo nas cercanias é muito mais alto.
Cada viagem, a cada 15 dias, gera angústia e sofrimento sobre como vou encontrar aquele que sempre foi meu companheiro, parceiro de trabalho, amigo de todas as horas: reto, honesto, cumpridor de seus deveres, amoroso, pai presente, cristão, trabalhador, MEU FILHO!
Sim, vou ver meu filho, tirado de mim à força, sequestrado sem justiça, sem comprovação de culpa, sem o devido processo legal, hoje “patriota preso político”. Está magro, tem momentos de confiança, esperança, misturados com desânimo, descrédito, depressão.
Quero abraçá-lo, fortalecê-lo, dizer do meu amor por ele. Quero tê-lo novamente em casa, fazer suas comidas preferidas (sou bom cozinheiro), vê-lo sair cedo aos finais de semana para um momento de lazer, buscando o que mais gosta de fazer em comunhão com a natureza e LIVRE!
Quero vê-lo abraçar seus filhos, conhecer sua neta. E o ônibus segue no seu compasso cuidadoso com a longa estrada, sem saber que meu coração sangrando tem pressa de chegar. Sei de cor cada cidade, vilarejo que passamos.
Como pai, reafirmo meu amor a toda minha família, mas peço que entendam esse coração ferido na busca pelo justo, que não vai se calar, não vai parar enquanto meu filho e todos os que estão injustamente nesse “balaio de gatos” não receberem suas liberdades de volta.
Isto não é preterir; estou apenas alimentando a chama da fé, do amor e da esperança que existe no meu e no coração do meu filho.
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