Ana Maria Cemin – 04/03/2026
As histórias que relato sobre o 8 de janeiro têm peculiaridades e no caso dessa que você lerá trata-se de alguém quer está fragilizado ao ponto de tentativa de suicídio, sofrimento psicológico intenso e risco atual. É uma matéria jornalística, mas antes de publicar, me assegurei do apoio da psicóloga Suzi de Moraes Barros a ele, porque é fundamental tratar esse conteúdo com responsabilidade. Vamos à história de Reginaldo, mais uma vítima do 8 de janeiro a espera da ação do Congresso Nacional.
Aos 41 anos, Reginaldo Damião Martins vive uma existência interrompida. Desde que se tornou alvo de investigação da Polícia Federal por participação nos atos de 8 de janeiro, sua vida entrou em colapso. Hoje, condenado a 14 anos de prisão em regime fechado, ele diz não enxergar mais perspectiva alguma.
Casado há quase duas décadas e pai de dois meninos de 15 e 12 anos, Reginaldo viu sua família ser tragada pelo processo. A esposa, Amanda, de 36 anos, sofreu um AVC no auge da pressão psicológica que o casal enfrentava. Ficou paralisada do lado direito por um bom tempo e ainda apresenta limites de movimentos.
A história de Reginaldo começa muito antes de Brasília. Ele trabalhava havia 20 anos na mesma empresa, onde ocupava o cargo de líder de carregamento em uma usina de açúcar e etanol. Era uma carreira sólida, construída com esforço e estabilidade.
A ruína veio quando aceitou um convite de um grupo de WhatsApp para ir à capital federal. Ele estava de férias e acreditou que seria uma manifestação tranquila, como todas da direita. Reginaldo afirma que nunca teve intenção de participar de vandalismo. Evangélico, diz que sua conduta cristã não permitiria envolvimento com violência. Seu objetivo era apenas conhecer Brasília e acompanhar o movimento.
No grupo, alguém pediu que o ônibus fosse colocado em seu nome. Ele aceitou sem refletir sobre as consequências. Hoje, essa decisão é usada como argumento para classificá-lo como financiador da viagem. “Eu não tinha condições financeiras nem para pagar minha própria passagem, quanto mais para financiar um ônibus”, diz. O Ministério Público, porém, sustenta a acusação.
Ao chegar no acampamento em Brasília, Reginaldo conta que percebeu um ambiente hostil, muito diferente do que via nas redes sociais. Assustado, decidiu não permanecer no QG. Se hospedou em uma quitinete e, na manhã do dia 8, foi até a Esplanada. Tirou uma foto com outro manifestante, feita por um policial, participou de uma oração com pastores e voltou para longe do tumulto.
Quando a confusão começou, ele diz ter se afastado imediatamente. “Eu não compactuo com isso”, repetiu a quem estava ao seu lado. Não entrou em prédios, não participou de depredação, não correu. Ficou no gramado, conversando com manifestantes pacíficos.
Não esperou o ônibus de sua cidade retornar de Brasília e voltou para casa ainda no dia 9, de carona. A partir daí a vida nunca mais foi a mesma. A sua foto, ajoelhado e orando, no gramado de Brasília circulava em grupos e redes sociais com a palavra “terrorista” estampada.
Dois meses depois, foi demitido da empresa onde trabalhara por 20 anos. Oficialmente, o motivo era corte de pessoal. Extraoficialmente, um supervisor comentou que a demissão tinha relação com Brasília.
A partir daí, o desespero se instalou. A esposa, já emocionalmente fragilizada, sofreu o AVC e a família entrou em colapso financeiro e psicológico. O INSS negou o benefício dela por atraso nas contribuições. Reginaldo fez bicos como motorista de aplicativo. A renda era insuficiente.
Ele próprio, que já tinha histórico de problemas psiquiátricos desde 2006, viu sua saúde mental se deteriorar rapidamente. Crises de ansiedade, depressão profunda e insônia passaram a fazer parte da rotina. “Eu não tenho mais um minuto de tranquilidade”, afirma.
O medo da prisão domina os seus dias, e até mesmo o seu advogado disse que não há mais recursos possíveis e que o processo deve transitar em julgado a qualquer momento e, então, será recolhido para um presídio. Alguém chegou a sugerir que saíssem do Brasil, porém ele se recusa. “Eu não sou bandido. Não vou sair do país. Vou enfrentar.”
A possibilidade de prisão o levou a se afastar emocionalmente dos filhos. Ele acredita que, quando for levado pela Polícia Federal para o presídio, eles sofrerão menos se já estiverem distantes.
A esposa, ainda em recuperação do AVC, luta para manter alguma normalidade. Mas a tensão constante afeta sua saúde emocional e física. Os filhos percebem o clima de medo e silêncio. A casa, antes cheia de movimento, tornou-se um ambiente de espera e angústia.
Reginaldo escondeu a situação dos pais por quase dois anos. O pai sofreu um AVC recentemente e a mãe tem problemas cardíacos. Ele temia que a notícia agravasse o estado de ambos. Só recentemente contou a verdade. “Eu não queria que eles soubessem. Mas não dava mais para esconder.”
A dosimetria da pena, que poderia reduzir significativamente o tempo de prisão em casos como o dele — sem antecedentes, sem violência, sem participação direta nos atos — é vista por especialistas como uma esperança. Mas, até agora, não foi aplicada.
O processo, segundo ele, não levou em conta sua condição financeira, sua saúde mental, nem o fato de não ter participado de depredação. A acusação de financiamento, que pesa como a parte mais grave da sentença, se baseia apenas no fato de seu nome constar como responsável pelo ônibus. Ele insiste que não pagou, não organizou e não tinha meios para isso.
Hoje, Reginaldo vive isolado. Evita sair de casa, perdeu o vínculo com a igreja, engordou quase 20 quilos por causa dos remédios e luta diariamente contra pensamentos destrutivos. Ele tenta se manter firme por causa dos filhos, mas admite que a força está se esgotando. “Eu não vejo mais futuro. Minha vida acabou no dia em que me colocaram como criminoso.”
A história de Reginaldo é a de um homem comum, com uma vida simples e uma família estruturada, que viu tudo se desfazer após uma acusação sem fundamento. Agora, ele espera com medo, mas sem fugir, o desfecho que pode levá-lo para trás das grades.
QUEM É SUZI QUE ACOMPANHA DE FORMA VOLUNTÁRIA PRESOS POLÍTICOS
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