Ana Maria Cemin – 10/02/2026
O capixaba Cláudio Fernando Gonçalves, 59 anos, natural de Pancas, ES, faleceu por volta das 6h30 da manhã de hoje, após complicações decorrentes de um acidente de trabalho. A informação foi repassada pela também presa política Renata Brasil, do Espírito Santo, que recebeu um áudio enviado pela irmã de Cláudio com os detalhes do ocorrido.
Ele era réu na Ação Penal 2214/DF do Supremo Tribunal Federal e foi condenado em agosto de 2025 a 13 anos e 6 meses de pena pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada.
Segundo o relato, Cláudio trabalhava na adubagem de uma plantação de café quando sofreu uma queda grave, resultando na fratura de uma vértebra do pescoço. O acidente o deixou em estado crítico, levando-o a permanecer 50 dias internado na UTI. Apesar dos esforços médicos, ele não resistiu.
Cláudio Fernando Gonçalves ficou conhecido nacionalmente por sua prisão no contexto dos eventos de 8 de janeiro. Ele passou dois meses detido em Brasília inicialmente, voltou a ser preso posteriormente e só foi liberado novamente no ano passado. De acordo com pessoas próximas, ele deixou o sistema prisional muito adoentado, mas, mesmo debilitado, retornou ao trabalho rural para tentar reconstruir a vida.
Ainda segundo Renata Brasil, Cláudio morreu sem ver a justiça prevalecer no Brasil, expressão usada por ela ao comunicar o falecimento. Ele seguia cumprindo medidas cautelares e utilizava tornozeleira eletrônica no período em que sofreu o acidente.
A morte de Cláudio Fernando Gonçalves repercute entre familiares, amigos e apoiadores, que lamentam não apenas a tragédia do acidente, mas também o desgaste físico e emocional acumulado ao longo de sua trajetória recente.
OS OUTROS OITO FALECIDOS
O primeiro preso político a morrer foi Antônio Marques da Silva, operador de máquina de terraplanagem em Barra do Garças, município do Mato Grosso. Morreu por conta de um acidente num “bico” que fazia, que consistia em conserto de um telhado. A queda ocorreu em 29.10.2023.
O segundo a falecer foi Clériston Pereira da Cunha em 20.11.2023 e foi o que mais repercutiu pelo fato dele ter morrido dentro da Penitenciária da Papuda, sendo que já havia manifestações do Ministério Público para que ele saísse em liberdade provisória, o que não foi atendido pelo ministro Alexandre de Moraes.
A terceira morte foi de Giovanni Carlos dos Santos, de São José dos Campos, SP, em 24/01/2024, quando caiu durante um serviço temporário (bico) de corte de galhos de uma árvore.
Em 02/03/2024, faleceu o caminhoneiro Eder Parecido Jacinto, que estava com tornozeleira desde que saiu do Presídio Papuda. Ele tinha o seu próprio caminhão e, ao fazer a manutenção, caiu quebrando o fêmur e machucando a coluna. O fato ocorreu pouco antes do Natal de 2023, conforme relato da filha. Desde então, ele foi atendido inúmeras vezes no Hospital Regional Público do Araguaia, em Redenção, PA, mas os problemas foram se avolumando com o passar das semanas para quadros mais graves, como paralisação dos rins, hemorragia no estômago e complicações do fígado. Ele entrou em coma e faleceu com infecção generalizada.
Kleber Freitas, que respondia pelo inquérito 4921 por ter sido preso no QG de Brasília em 09.01.2023, foi encontrado morto na residência dos pais em Borrazópolis, PR, em 10.05.2024. Os familiares o encontraram caído e acionaram a Polícia Militar. A morte foi constatada no Hospital Municipal que notificou a Delegacia de Faxinal, conforme informações publicadas pela Rádio Nova Era News. Kleber era servidor público, atuava como técnico em Radiologia, era casado e pai. Ele se sentia injustiçado e não aceitava a forma como o Estado Brasileiro tratou os manifestantes de 8 de janeiro.
Jony Figueiredo da Silva, 44 anos, que foi o sexto preso político de 8 de janeiro a morrer. O falecimento se deu no hospital de Planaltina às 7h30 de 27 de setembro de 2024, por parada cardiorrespiratória, edema agudo nos pulmões e cardiopatia valvar (prótese). Até falecer, Silva utilizava tornozeleira eletrônica e comparecia regularmente no fórum para assinar, conforme exigência do Supremo Tribubal Federal (STF), para permanecer em liberdade provisória até o seu julgamento virtual. Ele foi preso no QG de Brasília em 09.01.2023 e levado para o presídio Papuda.Marco Aurélio Gonçalves Pedroso — a morte mais recente
Marco Aurélio, de Cuiabá (MT), faleceu em decorrência de leucemia em abril de 2025. Foi o sétimo óbito do 8 de janeiro. Ele respondia à Ação Penal 1538 e havia firmado um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) em agosto do ano anterior.
O oitavo preso político morreu em novembro de 2025. Os últimos três anos de vida do idoso José Fernando Honorato Azevedo, policial federal aposentado, é um retrato da interseção entre processo penal, saúde pública, burocracia estatal e vulnerabilidade humana. Nesse 2026, ele completaria 70 anos, mas morreu antes, e de uma forma que queremos contar aqui. Entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, Honorato atravessou um percurso marcado por prisão preventiva, medidas cautelares extremamente rígidas, bloqueio de bens, deterioração progressiva da saúde, dependência financeira de amigos, sucessivas internações, e, por fim, morte antes do julgamento.
A trajetória de José Fernando Honorato Azevedo revela um processo penal longo e severo, medidas cautelares que interferiram diretamente em sua saúde, bloqueio de bens que o deixou vulnerável, sucessivas internações tratadas como potenciais violações e uma doença devastadora que avançou enquanto ele lutava para cumprir exigências judiciais.
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