Ana Maria Cemin – 30/01/2026
Entrei em contato com o exilado Fabrício de Moura Gomes, 48 anos, para saber como está a situação dos presos políticos na Argentina. Já no início ele relata dois casos, ambos profundamente doloroso.
Um dos exilados, um idoso de 64 anos, quase perdeu a vida nesta semana. O próprio Fabrício levou José ao hospital em estado gravíssimo. “José Eder entrou em coma no dia 12 deste mês e segue na UTI, após dias de diarreia intensa. Houve suspeita de infecção bacteriana grave, que causa fraqueza muscular, dificuldade para engolir e pode deixar sequelas”, conta Fabrício, que acompanha de perto a situação dele e de outros brasileiros exilados.
As informações mais recentes indicam que, embora consciente, o idoso não consegue mover braços, pernas ou o corpo. “Ele estava tão fraco que precisei carregá-lo até o hospital. Levei ainda pela manhã, mas não quiseram internar. À noite, piorou muito e quase morreu; só então aceitaram internar”, relata.
Dentro da Papuda, José já havia enfrentado outra crise gravíssima e ficou 15 dias internado com pneumonia. “O médico disse que, se demorasse mais 20 minutos, ele não sobreviveria”, lembra Fabrício, que não esconde a angústia de lidar com a dor de cada pessoa que está longe de casa por causa da perseguição do Estado brasileiro.
A esposa de José viajou do Brasil para a Argentina, deixando a filha, para cuidar do marido. Ela o visita duas vezes ao dia, por apenas meia hora. Apesar de tudo, ele está recebendo cuidados atenciosos de médicos e enfermeiros argentinos.
DOCUMENTOS E PERSEGUIÇÃO
Fabrício e José vivem situações distintas na Argentina. José possui o DNI, equivalente à identidade brasileira, o que lhe garante alguma estabilidade. Já Fabrício não renovou sua precária, documento provisório, para evitar ser preso, pois está na lista de 62 nomes cuja extradição foi solicitada pelo governo Lula.
“Quem está na ‘lista dos 62’ perde o direito de renovar documentos, e nosso pedido de refúgio foi cancelado”, explica. Para solicitar outro, seria necessário comparecer aos órgãos de imigração, algo que Fabrício e os demais temem fazer, após cinco brasileiros terem sido presos ao tentar renovar documentos. Eles passaram mais de um ano no Presídio de Ezeiza e hoje estão em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, impedidos de sair à rua. Há ainda uma sexta presa política em um presídio argentino, sem perspectiva de progressão para prisão domiciliar.
A extradição da Argentina para o Brasil pode levar anos, e a decisão final cabe ao presidente do país.
ASSALTO VIOLENTO
Fabrício também demonstra preocupação com um episódio recente, ocorrido nessa semana, quando uma exilada política foi brutalmente agredida durante uma invasão domiciliar seguida de roubo.
“Claudete Tristão estava dormindo quando criminosos invadiram a casa por volta das 3 horas da madrugada. Arrombaram a porta, amarraram Claudete, colocaram mordaça e bateram nela com coronhadas, além de ameaçarem matá-la. Levaram absolutamente tudo o que ela tinha, deixando-a abalada física e emocionalmente”, relata. Um dos assaltantes já foi preso.
QUEM É FABRÍCIO?
Fabrício foi um dos primeiros brasileiros a pedir asilo na Argentina, após ser condenado a 16 anos e meio de prisão em regime fechado pela Suprema Corte, em novembro de 2023. Está há quase dois anos no país e sente profundamente a distância da família, especialmente da filha, que completará 6 anos no próximo dia 2 de fevereiro.
Entre as suas dores mais profundas, provocadas pelo 8 de janeiro, está a morte do pai, no ano passado. Por estar exilado e sob risco de prisão no Brasil, não pôde se despedir.
Fabrício é reconhecido entre os exilados como um dos mais solidários. Ajudou muitos dos primeiros brasileiros que chegaram à Argentina. “Eu ia até a rodoviária buscar pessoas que chegavam sem dinheiro, sem lugar para ficar, sem falar espanhol. Ajudei a providenciar documentos e fiz o acolhimento inicial. Conviver com essa realidade, de pessoas idosas e simples chegando do Brasil por causa dessa perseguição, me machucou muito”, conta, revelando cicatrizes que não aparecem à primeira vista.
OS DOIS ANOS
Para sobreviver ao que enfrentou no Complexo Penitenciário da Papuda em 2023 e ao exílio, Fabrício desenvolveu a sua espiritualidade. “É o que me mantém firme e com esperança de que algo acontecerá para corrigir toda essa injustiça”, afirma.
Ele acredita que a pior fase na Argentina já passou — especialmente as ameaças de prisão para extradição. Depois de dois anos longe da família, Fabrício alimenta a esperança de reencontrar quem ama e reconstruir a própria vida.
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