Ana Maria Cemin – 22/01/2026
Em dezembro de 2024, entrevistamos Sirlene de Souza Zanotti, então com 53 anos, mãe, avó, irmã de dez, tia de 14 sobrinhos e dois sobrinhos-netos. Uma mulher marcada por fortes vínculos familiares e comunitários, profissional dedicada, voluntária em projetos sociais e conhecida por sua atuação como psicóloga e militante.
Naquela ocasião, Sirlene relatava o impacto da condenação de mais de14 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal, que a levou ao exílio na Argentina. Ela descrevia a perda da liberdade como algo devastador: não apenas o afastamento físico da família, mas também o roubo das histórias que poderiam ser construídas junto aos filhos e netos. Para ela, liberdade significava abraçar os netos, ouvir suas histórias, cozinhar para a família e compartilhar momentos simples que davam sentido à vida.
Sirlene também falava sobre sua vocação profissional: atender pacientes, doar tempo e conhecimento sem esperar retorno financeiro, recebendo em troca a gratidão, algo que considerava maior que qualquer pagamento. No exílio, porém, dizia viver sem rumo, sentindo o vazio da injustiça atravessar fronteiras e manter sua alma em suspensão.
Um ano depois daquela entrevista, em dezembro de 2025, Sirlene foi presa na Argentina, onde permanece até hoje. Outros cinco brasileiros foram liberados do cárcere nesse mês. Ela é a única brasileira do 8 de janeiro que segue em presídio no país vizinho.
O depoimento que agora conseguimos de dentro do presídio reforça a mesma consciência que ela já expressava em 2024: a luta pela liberdade, o peso da injustiça e a resistência de uma mulher que, mesmo cansada, insiste em afirmar que nasceu livre e merece estar livre.
Depoimento
“Estou presa aqui na Argentina desde 2 de dezembro de 2025. As circunstâncias da prisão foram porque eu fui até a aduana com a intenção de ir ao Paraguai fazer compras, visto que eu tenho título de residência permanente aqui na Argentina. Mas havia um pedido do Alexandre de Moraes para extradição, então me prenderam.
Estava indo ao Paraguai para comprar materiais para fazer geladinhos para vender: caixa térmica, embalagens, produtos mesmo para os geladinhos. Aqui na Argentina a empregabilidade é muito baixa e as necessidades são constantes. A ajuda é pouca em relação às despesas existentes, como em qualquer lugar: aluguel, impostos, água, luz, internet, comida, medicamentos etc.
A prisão se deu na aduana e aí me trouxeram para a Unidade Penal 5, que é uma unidade para mulheres aqui na cidade de Posadas (fica no nordeste da Argentina, às margens do Rio Paraná, sendo a capital da província de Misiones).
As instalações são bastante simples, tenho a impressão de que algum dia foi uma escola agrícola e depois se converteu em unidade penal. Não estou afirmando que seja isso, apenas parece. As instalações são simples, porém cada prisioneira tem sua própria cama, colchão, há um refeitório onde fazemos as refeições à mesa, inclusive com toalha de mesa. A alimentação é simples, mas limpa.
Tenho recebido visitas duas vezes por semana, às quartas e domingos. Os patriotas que estão aqui na Argentina e não têm nome para extradição se revezam para me visitar. Às vezes recebo um, às vezes dois de uma só vez. Todas as quartas e domingos tenho visitas, não estou abandonada. Os patriotas fazem um trabalho lindo de amor, sou muito agradecida a Deus por isso. Eles trazem frutas, verduras, legumes, leite, biscoitos, sempre perguntam o que estou precisando e procuram suprir as minhas necessidades da melhor forma.
Quanto aos meus cinco irmãos patriotas que saíram do presídio de Ezeiza no início desse ano, depois de ficarem mais de ano presos, como estou agora, eu considero muito injusto – não fizemos nada nem no Brasil e muito menos na Argentina. Eles saíram da prisão, mas estão enfrentando outro tipo de prisão fora do cárcere, com uso de tornozeleira eletrônica e limitação de circulação, além de responderem a um processo aqui na Argentina. É um outro tipo de prisão, não tenho como considerar justo. Se serei contemplada em breve com saída do presídio como eles, não tem como saber. A expectativa é que sim, mas certeza não há. Por enquanto, estou nessa situação de cárcere.
Eu me sinto bem, tenho acesso a médicos e remédios aqui. No entanto, um psiquiatra me passou medicações que não são adequadas e eu estava me sentindo bastante dopada. Inclusive tive uma pequena discussão com ele, porque ficou de férias por 2 ou 3 semanas e, quando voltou, eu disse que não queria mais essa medicação. Ele me disse que todos querem mais medicação e eu estava querendo menos, o que lhe pareceu uma surpresa. Então eu expliquei que apenas queria a medicação adequada. Foi só então que descobri que ele estava me dando uma medicação que eu nunca tomei e não necessito. O que eu preciso é paroxetina e lítio para ficar completamente bem.
E depois de ter passado pelo Complexo Penitenciário Papuda, eu passei a tomar quetiapina, apenas 25 mg, para dormir. Aqui estão me dando fluoxetina porque não têm paroxetina, que é a correta para mim, além de carbamazepina pela manhã e no almoço, e à noite lítio, quetiapina e carbamazepina outra vez. Ou seja, muita medicação que eu não necessito. Para piorar, vem moída em pó, então não consigo separar. O lítio não tem na rede pública, recebi doação por 30 dias, mas já está acabando. A fluoxetina não tem a mesma potência da paroxetina, que seria ideal para mim. Contudo, como minha mente é muito forte, sigo bem, mas para estar melhor precisaria das medicações corretas.
Rotina no presídio
Aqui vivemos a rotina de um presídio. Levantamos às 6 da manhã e respondemos a chamada que as carcereiras fazem na primeira hora do dia. O diferencial é o mate (chimarrão), que não existe nos presídios brasileiros. Fazemos faxina, ajudamos na limpeza, tomamos chimarrão, depois voltamos para o quarto. Ficamos presas outra vez. Recebemos medicações e vamos ao banho de sol. Ainda pela manhã podemos usar o celular por 1 hora para falar com a família, com monitoramento. Depois vem o almoço e, em seguida, a “sesta”, quando todos dormem cerca de duas horas no início da tarde. Muitas vezes fico sem ter o que fazer, porque não é da nossa cultura dormir nesse horário. À tarde, mais faxina, banho de sol, volta para a cela e ficamos presas mais uma vez. Depois, banho, janta, mais 1 hora de celular e depois dormir. Essa é a rotina todos os dias. Para não enlouquecer, leio bastante.
Histórico político
Participei dos movimentos e acampamentos por transparência nas urnas e pelas pautas da direita: não ao aborto, não às drogas, não à corrupção etc. No 8 de janeiro eu estava na praça quando fomos cercados pela polícia, com bombas e cavalaria. Entrei no Congresso para me proteger e acabei presa. Fiquei sete meses presa na Colmeia, depois nove meses com tornozeleira, até vir a condenação de 14 anos e seis meses em regime fechado. Resolvi que não era justo ser presa, porque se manifestar pacificamente não é crime. Sai do Brasil.
As condições na Colmeia eram de tortura: um absurdo de pessoas confinadas num espaço mínimo, sanitários entupidos e sem descarga, mulheres menstruadas sem poder tomar banho, comida estragada. Mulheres com diarreia, fazendo as necessidades dentro das marmitas por não ter outra opção, por falta de sanitários em quantidade para atender a demanda. Muitas pararam de comer, porque a comida era cheia de bicho, todo tipo de porcaria e até caco de vidro. O resultado eram vários desmaios por fraqueza. Foi extremamente torturante. Não gosto nem de lembrar.
Antes do 8 de janeiro, primeiro eu era filha, irmã, mãe, avó e amiga conhecida dos vizinhos. Como profissional, atuava com psicologia, e sempre me identifiquei como militante da direita. Ainda na área profissional, trabalhava na rede de assistência à pessoa com câncer, fazendo atendimento aos pacientes com câncer e seus familiares. Também tinha um projeto chamado Amor que Alimenta, que comecei sem pretensão, só para ouvir mulheres em estado de vulnerabilidade, para levar um abraço e uma atenção, uma escuta especializada. Mas aí fui detectando necessidade de alimento, de remédio, de outras coisas, e fui me envolvendo cada vez mais. O projeto se ampliou e outras pessoas se integraram, passamos a ter doadores fixos, e, enfim, passei a cuidar disso também.
Como militante, minha tarefa sempre foi levar instrução às pessoas simples, com palavras simples, sobre o que é política, para que serve a política e por que temos que estar interessados em política.
Vida na Argentina
Estou na Argentina desde 24 de maio de 2024, vai completar 2 anos. Estava vivendo tranquila até o pedido de extradição feito por Moraes no início do segundo semestre de 2024. Cheguei sem nada, como todos nós que sofremos a perseguição. O Estado brasileiro nos tirou toda condição material, então cheguei com uma “mão na frente e outra atrás”. Fui pedindo ajuda a amigos, guardando um dinheirinho, e quando pensei em trabalhar com salgados veio o pedido de extradição. Isso me travou psicologicamente, não conseguia mais sair de casa depois que prenderam os cinco patriotas aqui na Argentina no final de 2024. O dinheiro que tinha guardado para montar usei para pagar aluguel, água, luz, despesas básicas. Depois acabou e precisei pedir ajuda novamente.
O acesso à saúde aqui é difícil, nunca fui ao sistema público por medo. Alimentação e apoio do Conare são zero. Pelo contrário, foi o Conare que prendeu nossos amigos quando foram renovar seus documentos, que estavam em dia.
Mensagem aos patriotas
Nunca desistam da liberdade. Nunca entreguem o seu direito de ser livre nas mãos de governo ou algum homem, porque a liberdade é um direito criado por Deus e todo homem nasceu livre. Não se pode permitir que outro homem lhe tire a liberdade, principalmente quando você de fato não deve nada.
Essa tortura que estamos vivendo há 3 anos, desde o 8 de janeiro, pode ser ampliada na vida do brasileiro para 30, 60, 70 anos, se o povo não fizer nada em seu próprio favor. Temos aí modelos, como a Venezuela e tantos outros países que foram dominados por governos extremistas, e o povo padeceu por muito tempo.
A mensagem é essa: não desista de continuar sendo livre. A liberdade é dada de graça, mas se você a entregar nas mãos de um homem, pode pagar muito caro para tê-la de volta.”
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