
Ana Maria Cemin – 29/08/2025
A patriota Maria me procurou em abril de 2023 e passou o seu depoimento de forma tão espontânea que nem mesmo fiz uma pergunta. Quem me conhece sabe o quanto raro pode ser isso. Maria me tocou pela sua autenticidade, bravura e simplicidade. O seu relato sobre o 8 de janeiro é muito sintético e revela o coração, a mente e o espírito de milhões de brasileiros. A pergunta que faço é para todos nós: Quando foi que perdemos o direito de emitir opinião?
“Sou Maria. Tenho uma fala mansa, talvez por natureza, talvez por cansaço. Quando conto minha história, faço isso com suavidade, mas o que vivi em Brasília foi tudo, menos suave. Fui uma das presas políticas que foram à capital federal depois da eleição de Lula. Não sou do tipo que aceita tudo calada. Rejeito o PT porque vi, como tantos brasileiros, as marcas profundas de corrupção que esse partido deixou no país.
A tristeza me empurrou para fora de casa. Em vez de me lamentar, decidi me unir a outros patriotas. Via na televisão aquelas pessoas lutando sob chuva torrencial, acampadas na lama do QG da capital federal. E mesmo de longe, sentia a firmeza nos olhos delas. Bandeiras erguidas pela liberdade de expressão, pela transparência nas eleições, por um governo justo. Um dia, vi na TV um manifestante sem as duas pernas. Foi ali que tive certeza: essa união era justa. Era minha também.
Na primeira oportunidade, entrei numa caravana e fui a Brasília. Lá, conheci pessoas incríveis, cantamos juntos o Hino Nacional, e pude expressar minha revolta contra o desgoverno atual.
O sonho virou pesadelo
Cheguei com a comitiva do meu estado, cheia de expectativas. Queria ir direto à Praça dos Três Poderes, mas disseram que seria no dia seguinte, 8 de janeiro. Enquanto esperávamos, cantávamos e orávamos juntos. Era uma multidão, e eu me sentia parte de algo maior. Nunca imaginei o que estava por vir.
O dia começou como um sonho. Um mar de verde e amarelo descia do QG em direção ao Planalto. Eu estava lá, vibrando com aquele momento de patriotismo. Mas logo percebi que algo estava errado. Na Praça dos Três Poderes, vi quebradeira, helicópteros jogando bombas sobre as pessoas. O policiamento nos empurrava de volta para o QG. Foi uma decepção total. Sempre acreditei que o movimento verde e amarelo era pacífico, respeitoso. Voltei para o acampamento acreditando que o Exército Brasileiro nos protegeria.
À noite, o burburinho no QG era intenso. Ninguém entendia direito o que estava acontecendo. Os militares nos pediram calma. Na manhã seguinte, disseram que bastava entrar em um dos ônibus estacionados para sermos levados a um local seguro. Era mentira. Fui levada, junto com mais de 2 mil pessoas, para um ginásio da Polícia Federal. Ficamos lá por mais de 24 horas, esperando uma triagem. Depois, presídio.
Esperei mais de um dia pela audiência de custódia. Quando ouvi que estava presa, nem levei muito a sério. Eu sabia que não tinha feito nada. Acompanhei o fluxo da manifestação e recuei quando a Polícia Federal nos obrigou a voltar para o QG. Mantinha minha convicção: não havia motivo para eu permanecer presa. Confiava na legislação brasileira, na justiça dos homens. Só pensava em voltar para casa, frustrada com tudo, sem uma boa história para contar.
12 dias no cárcere por ter opinião
Tudo deu errado pra mim. Fiquei 12 dias presa e ainda me dói saber que muitos patriotas continuam no presídio. Inocentes, como eu. Lembro do sofrimento de comer uma comida entregue pelo mesmo lugar por onde passava o lixo. A cela era insalubre, fria, úmida. Tinha vazamentos de canos pelas paredes, o que tornava a higiene ainda mais difícil. O colchão era velho, sem lençol. A água vinha direto da torneira, sem filtragem. E o banheiro… era compartilhado por mais de uma centena de mulheres.
Olhei tudo aquilo com horror. Sabia que ali estavam mulheres que cometeram crimes de verdade. E pensei: “Se alguém faz algo grave, pode até ser que se acostumem com aquila prisão, mas nós, as patriotas, não nos conformávamos. A única coisa que fizemos em Brasília foi nos manifestar — e isso não é proibido. Acredito que fomos presas por capricho, por alguém que quer calar vozes e tirar nosso direito à opinião.
De onde vem minha força?
Se eu fosse outra pessoa, talvez tivesse ficado assustada. Mas não fiquei. Nem me revoltei por estar amontoada com tantas patriotas. Acredito que o objetivo de quem nos colocou naquela situação era provocar brigas, gerar animosidade, para depois dizer que somos agressivas. Mas aconteceu o contrário. Chorávamos, pedíamos forças a Deus, participávamos de cultos três vezes ao dia. Cantamos, louvamos.
O plano deles saiu pela culatra, mas isso não quer dizer que não fomos humilhadas. Quando saí, mandaram que eu colocasse as mãos para trás, como se fosse uma criminosa. Depois, colocaram uma tornozeleira eletrônica na minha perna. E aí me veio a pergunta: “Uma das patriotas é professora. Como ela se sente indo para a sala de aula com uma tornozeleira?” Conheci essa pedagoga no cárcere. Uma mulher lutadora, que não merecia passar por isso.
Lembro das senhorinhas patriotas ajoelhadas no pátio do presídio, orando para que tudo aquilo acabasse. Eu chorava ao vê-las naquela situação. Tenho 50 anos (2023), mas aquelas mulheres tinham muito mais. Suas peles mostravam cansaço, uma vida de sofrimento. Era injusto demais ver pessoas simples, corretas, de fé — que nunca cometeram crime algum — sendo tratadas assim, enquanto o governo coloca criminosos em liberdade, sem sequer uma tornozeleira.
Traumas deixados por este desgoverno
Mesmo tendo voltado pra casa em janeiro de 2023, essas lembranças ainda me acompanham (abril de 2023). O tratamento psicológico e o apoio da minha família têm sido fundamentais para superar o trauma da “visita” ao Distrito Federal — e da obrigação de usar uma tornozeleira eletrônica.
Me sinto muito injustiçada por estar usando isso. Sei que há muita gente que deveria estar usando e não está. Na Bíblia está escrito que um dia a verdade virá. E nesse dia, os olhos de todos serão abertos. Vai fazer sentido termos servido a um propósito e sofrido por isso. Espero que Deus me dê discernimento e força pra entender tudo isso.
O lado bom
Tudo na vida tem um lado bom. E meus dias no presídio de Brasília me mostraram o quanto sou rodeada por pessoas maravilhosas. Gente que gosta de mim, que torceu pela minha volta. Fizeram orações, campanha na igreja. Eu nem sabia o quanto era querida no meu trabalho. Quando cheguei em casa, meu secretário e a esposa dele estavam me esperando com um abraço. No meu quarto, espalharam cartazes com mensagens de estímulo. Minhas amigas foram me buscar na cidade onde desembarquei. Recebi muitas palavras de carinho.
Tudo isso me fez sentir abençoada. Mas sigo angustiada, mesmo assim, ao lembrar dos que ainda estão presos. Se 12 dias foram uma eternidade dentro do presídio, o que dizer dos patriotas que ainda estão lá?”
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