Ana Maria Cemin – 06/02/2026
De servida com água no Planalto à “criminosa de alta periculosidade”: a saga de Raquel, a cozinheira catarinense deportada dos EUA e presa ao chegar ao Brasil nestga quinta-feira, dia 5 de fevereiro.
A cozinheira catarinense Raquel de Souza Lopes, 52 anos, mãe de dois filhos e avó de duas meninas, passou pela audiência de custódia no Presídio José Abranches Gonçalves, em Minas Gerais, nesse final de tarde. Ela acaba de ser deportada dos Estados Unidos após passar mais de um ano detida no Texas, e agora inicia o cumprimento da pena de 17 anos de prisão imposta pelo Supremo Tribunal Federal por sua participação nos eventos de 8 de janeiro de 2023.
A mesma mulher que, segundo seu próprio relato, recebeu água das mãos do então ministro do GSI, general Gonçalves Dias, dentro do Palácio do Planalto, é tratada hoje como uma das grandes criminosas de um episódio até hoje não explicado: quem depredou os prédios da República e com qual propósito?
Raquel afirma que jamais depredou patrimônio público e que entrou no prédio apenas para se proteger do gás lacrimogêneo lançado na Praça dos Três Poderes.
A partir do 8 de janeiro, a sua trajetória, no entanto, tomou rumos que poucos brasileiros conhecem e que revelam uma história marcada por medo, fuga, prisão, travessias perigosas e uma longa batalha judicial em dois países.
DO 8 DE JANEIRO AO PRESÍDIO COLMEIA: O INÍCIO DO DRAMA
Em outubro de 2023, Raquel concedeu um depoimento exclusivo descrevendo o que viveu desde sua prisão em Brasília. Ela havia passado sete meses no Presídio Colmeia e relatava sequelas físicas e emocionais: “Fui lesada de todas as maneiras: na saúde, psicológico, emocional e no âmbito financeiro. Eu e minha família perdemos muito dinheiro.”
Liberada em agosto daquele ano com tornozeleira eletrônica, que lhe causava feridas, Raquel precisava comparecer semanalmente ao Fórum. Trabalhava como cozinheira em um restaurante e tentava retomar a rotina enquanto aguardava o julgamento final no STF.
No depoimento, ela dizia esperar ser absolvida: “Não quebrei nada. Não é da minha índole fazer isso. Já fiquei sete meses no presídio por ir a Brasília numa manifestação ordeira e pacífica.”
A VERSÃO DE RAQUEL SOBRE O 8 DE JANEIRO
Raquel afirma que entrou no Palácio do Planalto para fugir das bombas lançadas pela polícia na praça. Segundo ela, um homem fardado a convidou a entrar e dispensou revista. Dentro do prédio, diz ter sido cumprimentada pelo general G. Dias e recebido água de um funcionário. “Me senti como se fosse bem-vinda ali.”
Ela relata que permaneceu no local até que a Tropa de Choque entrou no prédio lançando bombas no ambiente fechado: “Comecei a tossir muito e passar mal. Deitei no chão e quase desmaiei.” Raquel descreve agressões, ameaças e cenas de pânico. Depois, foi algemada e levada à delegacia com outros detidos.
O MEDO DA PRISÃO E A FUGA PELA AMÉRICA DO SUL
Após a condenação no STF, Raquel temeu ser presa novamente. Deixou o Brasil rumo à Argentina, onde permaneceu por um período. Porém, quando o governo brasileiro pediu a extradição de 62 investigados e condenados, ela temeu ser capturada também ali.
Foi então que tomou a decisão mais arriscada de sua vida: seguir por terra até a fronteira dos Estados Unidos, atravessando a Floresta do Darién, um dos trechos migratórios mais perigosos do mundo, marcado por violência, desaparecimentos e mortes.
A travessia, segundo pessoas próximas, foi traumática, mas Raquel conseguiu chegar à fronteira americana no início de janeiro de 2025.
A PRISÃO NO TEXAS E A NEGATIVA DE ASILO
Ao chegar aos Estados Unidos, Raquel não tentou se esconder. Procurou voluntariamente as autoridades migratórias para pedir asilo. Foi imediatamente detida e permaneceu sob custódia no Texas.
Em 18 de junho de 2025, a Justiça americana negou o pedido. A audiência ocorreu em Los Fresnos, Texas. A advogada Karla Tostato, especialista em imigração, anunciou que recorreria, e o tribunal deu prazo até 18 de julho para o recurso. Raquel telefonou ao filho, Acenil Francisco da Silva Júnior, para dar a notícia. Ainda assim, mantinha esperança.
A apreensão aumentou quando outra brasileira, a Cristiane da Silva, foi deportada semanas antes, e quando surgiram informações de que Rosana Maciel Gomes, também condenada no Brasil, estava prestes a ser enviada de volta.
Mesmo com o recurso, o processo de Raquel avançou. Ela permaneceu presa por mais de um ano até ser deportada nesta semana.
A CHEGADA AO BRASIL E A PRISÃO IMEDIATA
Raquel desembarcou ontem, 5 de fevereiro, no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. A Polícia Federal a aguardava. Foi presa assim que pisou em solo brasileiro e levada ao presídio em Minas Gerais. Hoje, no final da tarde, participou por videoconferência da audiência de custódia, conduzida pela juíza auxiliar Flávia Martins de Carvalho, conforme determinação do STF.
Uma trajetória que expõe contradições
A história de Raquel é marcada por paradoxos:
– Entrou no Planalto após ser convidada, segundo ela, por um homem fardado.
– Recebeu água de um ministro de Estado.
– Não aparece em vídeos depredando patrimônio.
– Foi condenada a 17 anos de prisão.
– Fugiu do país por medo de ser presa.
– Atravessou o Darién, uma das rotas mais perigosas do mundo.
– Buscou asilo nos EUA e ficou presa por mais de um ano.
– Foi deportada e agora inicia o cumprimento da pena.
Independentemente da interpretação jurídica, a trajetória dessa cozinheira catarinense revela o impacto humano de um dos episódios mais traumáticos da história recente do Brasil, e como vidas comuns foram tragadas para dentro de um turbilhão político, judicial e internacional.
Aqui nesse site você poderá ler outras matérias sobre a Raquel:
- Justiça americana nega asilo à Raquel
- Justiça americana julga Raquel hoje
- Vovó Raquel não volta, papai?
- G. Dias cumprimentou Raquel no Planalto em 08.01
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